Para o compositor e cantor baiano Pessoa (aliás, Leandro Pessoa), a história de seu novo EP, Surreal, se confunde com a história da pandemia. O disco foi gravado entre abril e junho, em pleno isolamento, de maneira remota, com Pessoa mandando as gravações de Salvador para o produtor Iago Guimarães em Juazeiro. Os dois dividiram instrumentos.

“A primeira faixa que finalizamos foi A lei, quando nós já tínhamos uma pré de Big data (outra canção do disco). A semelhança entre a atmosfera sonora delas foi a provocação que faltava para que eu desenvolvesse aquela linguagem em um EP. Busquei reunir outras canções que refletissem temáticas contemporâneas através de uma linguagem rock e que dialogassem entre si”, conta.

Um detalhe curioso sobre Surreal é que as músicas são bem curtas. Algumas não chegam nem a dois minutos, sem espaço para improvisos. E isso, ainda que as letras ganhem bastante importância e falem de temas bastante atuais, como uso vicioso das redes sociais (Big data) e gente que precisa sair da cidade em que cresceu (O bom filho à casa torna). Pessoa conta que a ideia foi exercitar a objetividade e estabelecer contato com o consumidor de música de 2020, que ouve EPs e canções curtas.

“Foi uma escolha artística. Tenho praticado a síntese tanto na escrita quanto na concepção dos arranjos, e dedicado um tempo para lapidar sobras que acabam acontecendo quando estou gravando no home studio”, conta ele. E falta temas como os do disco no rock brasileiro atual? “Muito mais do que um ritmo ou gênero, o rock é essa possibilidade de reinvenção que segue transformando artistas no mundo inteiro. Tem sido um grande desafio escrever e cantar sobre o mundo que estamos vivendo: porque ele é muito surreal. Mas tem sido também um lugar em que me reconheço como artista nesse momento, de onde posso encarar essa realidade usando de ferramentas artísticas”, completa.

Uma das canções, A lei, por sinal, fala da quarentena. E ganhou até um clipe com várias participações, todas em suas casas, olhando das janelas. “Apresentei a música a alguns produtorxs audiovisuais que conheço e os convidei a se filmarem no cotidiano de suas quarentenas. Gosto muito do resultado: amplia a mensagem da música e ao mesmo tempo registra para a posteridade como cada um de nós está vivendo essa travessia”, conta.

Para divulgar o EP, Pessoa vai fazer duas lives em seu canal no Instagram: uma nesta quinta às 20h (ao lado do parceiro Ronaldo Nobre) e outra 10 de setembro no mesmo horário com o diretor do clipe de A lei, Weslei. E continua em isolamento.

“Não acho que chutar o pau da barraca seja a solução, a ciência requer paciência: a retomada forçada das atividades aumentou muito a circulação do vírus, aqui em Salvador o número de casos disparou nos últimos 21 dias em que o comércio reabriu. É muito triste se perceber impotente diante desse quadro de normose coletiva, em que agimos de maneira irresponsável com o outro”, diz, acrescentando que o isolamento é fundamental para salvar vidas. “Até que tenhamos uma vacina ou um medicamento que permita controlar os casos de agravamento, ‘a lei é estar em casa'”.