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Cultura Pop

Os clipes mais estranhos da música pop (Parte I, anos 1980)

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Dizem por aí que a linguagem dos clipes, que fez a MTV se consagrar nos anos 1980 e 1990, já não rende nada desde meados dos anos 2000 – talvez até antes.

Mas, convenhamos, durante estas duas décadas nós pudemos contemplar clipes premiados por seu primor de efeitos especiais computadorizados como Money for nothing, do Dire Straits. Ou os super premiados Take on me e Hunting high and low, do trio norueguês A-ha. Ou Sledgehammer de Peter Gabrie. Todos receberam diversos prêmios do badalado MTV Awards em meados dos anos 1980.

Sem falar na estética elaborada e na fotografia de clipes como Save a prayer da banda inglesa Duran Duran. Ou nas superproduções dos clipes do ícone pop Michael Jackson, em especial o cinematográfico e inesquecível Thriller, com duração de quase 15 minutos! Há sim, outros clipes com enredos tão bons que deram a oportunidade aos seus diretores de se consagrar em Hollywood, como Spike Jones – que inicialmente dirigiu clipes de bandas como Ween, Weezer e Beastie Boys em meados dos anos 1990 e depois dirigiu filmes cult como o badalado Quero ser John Malkovich.

Na época, dirigir videoclipes era tão bacana que o inverso também acontecia. Ou seja, diretores de cinema – já famosos – abraçavam projetos mais curtos, como é o caso de Spike Lee, que dirigiu bandas de hip hop como Public Enemy e Naughty By Nature. Pode até ser que a linguagem do videoclipe tenha ficado mais “chocha” de uns bons anos pra cá. Mas mesmo no período de ouro em que o videoclipe bem produzido “vendia a banda” como aconteceu com o hit Take on me do A-ha ou até mesmo Planet Earth de Duran Duran, muita coisa estranha foi feita por aí: desde clipes de baixo orçamento, passando pelo nonsense total chegando na nítida má vontade de gravar o clipe e por aí vai.

O POP FANTASMA fez uma lista de clipes estranhos entre 1980 e 2000 no auge da MTV e da programação da TV brasileira. Começamos com os dos anos 1980. Se você souber de outros, poste sobre eles que nós vamos atrás de mais informações!

“BOYS” – SABRINA (1987): Que jovenzinho (ou jovenzinha) dos anos 1980 não ficou babando no banho de piscina da cantora de ítalo disco Sabrina Salerno? O clipe de Boys era de tão baixo orçamento que, mesmo a italiana deixando saltar as peitcholas sem querer em algumas cenas, dá até pra imaginar o diretor gesticulando um “continue rodando” porque não tinha mais grana pra fazer outra tomada de cena.

O clipe tem moçoilas figurantes com sovacos cabeludos – algo inusitado para a estética da época. Rodado em um hotel praiano na Itália, em takes externos, claramente percebemos que não houve preocupação alguma com a produção do clipe. Os figurantes se parecem mais com transeuntes do local do que atores contratados. Sempre questionada sobre o excesso de pimenta no clipe, a cantora se justificou dizendo que o vídeo foi feito para ser exibido somente na Itália e que o formato era o que os italianos gostavam na época.

A título de curiosidade, quando começaram os programas de “troca de arquivos de MP4” pela internet, o clipe foi o mais baixado por um bom tempo.

“TOTAL ECLIPSE OF THE HEART” – BONNIE TYLER (1983): Sempre na lista dos clipes mais estranhos de todos os tempos, nele há um cenário soturno. Também pudera, fora filmado dentro de um hospital vitoriano desativado na região de Surrey, Inglaterra. No vídeo, a cantora interage com meninos menores de idade maquiados e jovenzinhos usando uniformes típicos de colégios internos britânicos. Os figurantes ora aparecem em situações bizarras: soltando pombos brancos, mostrando os peitorais, lutando esgrima, dando piruetas, jogando futebol americano e dançando com jaqueta de couro como se aquilo fosse um clipe do Billy Joel.

Mais: aparecem até lutando com roupas de ninja. Tudo isso com cenário esfumaçado e com cortinas ao vento, ou seja, o que tinha de mais brega pra videoclipe na época a gente vê por aqui. O final, em que um menino faz um falsete em dueto com a cantora, com um brilho azul estranho no olhar, é esquisitíssimo. A cantora galesa alegou que a ideia inicial do diretor Russel Mulcahy era fazer um tributo aos vampiros de Anne Rice… Então, tá! (a música tem lá suas inspirações vampirescas, já falamos disso aqui)

“THE SAFETY DANCE” – MEN WITHOUT HATS (1982): Outro clipe todo trabalhado no nonsense: o do projeto de synthpop canadense Men Without Hats. Dirigido por Tim Pope e rodado em um vilarejo em Wiltshire, Inglaterra, há toda uma referência medieval na fotografia e figurino do vocalista Ivan Doroschuk, cheio de caras e bocas. Ele vai cantando, caminhando, gesticulando com uma cara amarrada e dançando com um anão vestido de bobo da corte. Ambos são escoltados por uma loira descabelada repleta de trejeitos. Ela faz umas intervenções em francês dizendo “danse”.

Tudo leva a crer, graças a toda a performance do clipe, que estão caminhando e dançando em direção ao hospício. Mas, surpreendentemente, são seguidos por outros dançarinos e o clipe termina com uma grande festa no melhor estilo medieval com teatro de marionetes, músicos etc.

Muitos tinham curiosidade em saber quem era a moça loira do clipe. Descobriu-se recentemente que se trata da jornalista britânica Louise Court, atualmente famosa editora de moda no Reino Unido. A propósito, a ideia da dança no vídeo era protestar contra algumas ações de casas noturnas da época de proibirem alguns passos da dança pogoing, uma variação da dança punk pogo (que Debbie Harry ensina a dançar aqui). Essa dança foi absorvida pela então recém-surgida new wave, mas alguns estabelecimentos haviam considerado os passos muito perigosos. Sei lá, as pessoas esbarravam muito umas nas outras, podiam rolar acidentes…

“SELF CONTROL” – LAURA BRANIGAN (1984): Parece mesmo que os clipes de ítalo disco se destacam como os mais esquisitos da década de 1980. Prestando bem atenção no clipe desta cantora americana (falecida em 2004), que foi um hit daquele ano – algo surpreendente para uma versão cover, no caso do cantor italiano Raffaele Riefoli, ou simplesmente Raf – este vídeo não perderia em nada para uma pornochanchada daquela mesma época.

Percebam nas entrelinhas que a saudosa diva Sandra Bréa poderia ter sido a protagonista neste clipe, repleto de referências lesbian chic. Uma manequim viva acaricia a cantora, que é perseguida por um sujeito mascarado que a leva em um cenário que… Bom, era para ser uma dança entre homens e mulheres mascarados, mas tudo fica parecendo uma cena de putaria de filme B.

A cantora foge, mãos assombrosas saem das paredes de um corredor, e por fim, ela está num quarto cheio de pessoas saindo por trás de tules cafonas, subentendendo que o tal mascarado representa uma fantasia sexual de submissão. O clipe, rodado em Nova York, tem cenários mal feitos, alguns deles em plástico, colocado sobre uma suposta rua em que circulam carros. Um verdadeiro horror oitentista, embora a real intenção, segundo os produtores, fosse fazer referências à peça O Fantasma da ópera. Hum, não deu muito certo, ficou assustador demais!

Talvez a explicação para o horror oitentista esteja no diretor, que era ninguém menos que Willian Friedkin, o cara que dirigiu o clássico do medo O exorcista. Embora nos anos 1980 o clipe tenha sido aclamado pela crítica, tornou-se politicamente incorreto e suas reprises na MTV americana atualmente sofreram cortes. O clipe ficou restrito à madrugada.

“OWNER OF A LONELY HEART” – YES (1983). Com locações na região central de Londres, em pontes sobre o Rio Tâmisa e em Camden Town, o enredo e a fotografia deste clipe da banda de rock progressivo sempre me deram calafrios. Não tem cenas de gore, é verdade.

Dirigido pelo genial designer gráfico britânico Storm Thorgerson – também responsável por algumas capas de discos da banda – o vídeo parece mesmo descomprometido. Tem cenas em preto e branco em que surge um típico homem de classe média britânico, de terno e gravata, caminhando para o trabalho. Ele é surpreendido por homens com capas e chapéus pretos, que o arrastam para um prédio cheio de pessoas com uma gente estranha, com um bebê chorando, uma senhora com uma cara de sofrimento e por aí vai.

Mas não para por aí. O homem tem alucinações que misturam cenas em que ele interage com animais como gato preto, falcão, sapos, aranhas, escorpiões, minhocas, cobras. Ele até lava o rosto com taturanas! É realmente horripilante para quem tem ojeriza de certos animais.

O mais esquisito fica ainda para o final. A gente pensa que ele trabalha em um banco, pois o cenário é cheio de gente que parece fazer um trabalho de escritório. Só que ele é um metalúrgico que entra em luta corporal (com o chefe?) e foge para o telhado do prédio, sendo cercado por homens de preto (os músicos da banda Yes) que parecem “os anjos da morte”. Acuado e alucinando, ele se desespera e acaba se jogando do edifício e a cereja do bolo é a cena da queda em vários takes. A queda acontece com um boneco de pano extremamente mal feito que nem de longe se passa por um dublê do ator.

Embora o clipe seja estranho, foi a primeira e única vez que a banda fez um sucesso estrondoso em todo mundo com uma música considerada pop demais pelos fãs mais radicais. O clipe foi um dos mais exibidos naquele ano de 1983 pela MTV e era sucesso entre os adolescentes.

44 anos. Gosta de Cultura Pop, Moda, Literatura, Sociologia, Cinema, Fotografia e é movida à Música desde que se entende por gente. Bacharel em Direito, enveredou-se para as Relações Internacionais e atualmente encontra-se em fase de mudanças profissionais.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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