O diretor de cinema David Lynch e o roteirista Mark Frost se juntaram nos anos 1980 para trabalhar numa biopic de Marilyn Monroe, Goddess, que acabou não sendo feita – tudo porque o estúdio que lançaria o filme não curtiu saber que a ideia da dupla era jogar um veneninho na suposta responsabilidade de Bobby Kennedy sobre a morte dela.

Parecia que ia dar merda, mas não deu, já que foi ao lado de Frost que Lynch se reinventou. O cineasta viu o estúdio que detinha vários de seus projetos ir à falência, foi aconselhado por seu agente a trabalhar para a TV para manter o caixa em dia, e sugeriu que Frost o acompanhasse.

A dupla iniciou em 1990 Twin Peaks, que confundiu as cabeças dos telespectadores, arrastou-se por uns tempos na audiência nos Estados Unidos, mas foi sucesso de crítica e ultrapassou de longe o status cult. O sucesso acabou voltando para Lynch, inclusive no cinema, já que ele fez Coração selvagem, aquele com Nicolas Cage e Laura Dern, no mesmo ano da primeira temporada de Twin Peaks.

O lance de Lynch (e Frost) com a TV continuou, já que dois anos após Twin Peaks, ele criou mais uma iniciativa maluca para a telinha. O lance é que, dessa vez, a ideia foi criar uma espécie de show de bastidores da televisão com métodos experimentais e bem loucos.

Da sitcom On the air (1992), dirigida por Lynch e roteirizada por Frost, dá pra dizer que o resultado saiu ainda mais perturbador que o de Twin Peaks, já que o que as pessoas veem na TV pelo menos parece acessível – até que dá para ver que não é nada disso. A série teve só uma temporada, e ainda assim apenas três episódios foram exibidos pela ABC nos Estados Unidos. A BBC2 apostou um pouco mais e exibiu tudo na Inglaterra (e alguns outros países europeus também mostraram a série inteira).

Um sujeito no Reddit definiu bem a série como uma versão misteriosa do Dick Van Dyke show, à moda Lynch. On the air mostrava o dia a dia da equipe de uma rede de televisão fictícia da década de 1950, a Zoblotnick Broadcasting Company (ZBC), na produção de um programa de variedades ao vivo, o The Lester Guy Show. O resultados da equipe são os piores possíveis: ninguém se entende, a turma consegue se acidentar até com objetos usuais do set de filmagem e o diretor Valdja Gochktch (David L. Lander) sempre usa o megafone ao contrário (!).

Nos papéis principais, nomes como Ian Buchanan (Lester Guy, uma estrela do cinema que tinha ficado esquecida desde a Segunda Guerra e teve chance de voltar), Marla Rubinoff (Betty Hudson) e Miguel Ferrer (Bud Budwaller, presidente da estação de TV). Essa turma começa a fazer um monte de cagadas na estação de TV e uns prejudicam abertamente uns aos outros.

E a novidade é que todos os sete episódios da série estão no YouTube. Pega aí (tá na playlist que começa abaixo) e põe as legendas automáticas se precisar. Vale a pena até quando você começa a não entender nada. A trilha sonora é do mesmo Angelo Badalamenti que fez as músicas de Twin Peaks.

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