Quem não viu a montagem “Bátema na Feira da Fruta”, realizada por dois caras que redublaram um antigo episódio do Batman, estava fora do Planeta Terra nos últimos anos. Feita em VHS em 1981, desaparecida após vários empréstimos e recuperada involuntariamente na internet, ela fez uma turma enorme redescobrir uma canção esquecida, repleta de duplos e triplos sentidos, chamada “A feira”, composta por um músico baiano chamado Odair Cabeça de Poeta e gravada em 1973 por ele e pelo Grupo Capote, que ele liderava. A música não se chamava “Feira da fruta” – era só um nome informal, por causa da quantidade de vezes em que a frase “feira da fruta” (brincadeira, óbvio, com “filho da p…”) era repetida na canção.

E enfim, se você andou desaparecido da galáxia de 2000 pra cá, segue aí o vídeo do “Bátima” e uma entrevista com os criadores do vídeo no “Agora é tarde”, que era apresentado por Danilo Gentili no SBT.

Se você em algum momento da vida já se perguntou quem é Odair Cabeça de Poeta, e resolveu googlar, já deve ter descoberto duas coisas. A primeira é que, numa outra ocasião, o cantor e compositor apareceu no próprio “Agora é tarde”, do Danilo Gentili, ao lado dos dois criadores da dublagem – que resolveram lançar um livro sobre o fato de terem virado celebridades involuntárias da web. A outra é que Odair foi parceiro de outros artistas baianos, como Tom Zé, com quem chegou a gravar.

Duas curiosidade a respeito dele: no fim dos anos 80 ele montou a Orquestra de Forrock, que misturava instrumentos de rock e forró (claro, enfim) e tinha até uma motocicleta e um esmeril (!) entre os utensílios de palco. Com essa formação, chegaram a se apresentar no Canecão, aqui no Rio, e em programas de TV. A outra é que ele foi baterista numa das primeiras formações dos Novos Baianos. O que até satisfaria o desejo musical secreto de algumas pessoas.

O lado punk de Odair Cabeça de Poeta, da "Feira da fruta"

Odair – que um tempo atrás estava meio sumido, morando na Ilha de Boipeba, mas voltou a dar shows – tem uma discografia até bem comprida e já passou por várias gravadoras. Nos anos 1980 retornou com um disco por um selo alternativo, mas com certo peso, chamado LupSom. No álbum, além da ode canábica “O índio” (que chegou a cantar no “Programa do Bolinha”, na Band), havia aquilo que parece ser uma referência forró-new-wave a “Fresh fruits for rotten vegetables”, dos Dead Kennedys: “Repolho podre e os rabanetes delinquentes”. Bom, na verdade, não tem nada a ver com Dead Kennedys. A música soa mais como paródia do rock meio newwavizado, meio hard rock, feito aqui no Brasil nos anos 1980 – ou como zoação da tecladaria de última geração usada na época pelo RPM. Mas vai aí mais uma grande pérola perdida do rock brasileiro para quem curtiu “A feira”