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Cinema

O documentário quase secreto de Bob Dylan

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O documentário quase secreto de Bob Dylan

Imagina a situação: uma emissora de TV contrata um diretor conhecido para fazer um documentário sobre um artista mais conhecido ainda, esperando um grande campeão de audiência. Bom, ou pelo menos algo que chegue perto disso. Só que o artista em questão não gosta do documentário e, mesmo tendo conhecimentos rudimentares de cinema, decide que ele mesmo vai ser o diretor do filme e o responsável pelo corte final.

E o que a emissora consegue quando vê o filme pronto? Um monte de imagens desconexas, diálogos que não se encaixam e muita coisa feita com câmera bêbada, além de papos sequelados e alucinados do artista principal. O filme tem imagens lindas, muita experimentação cinematográfica e musical. Só que aquilo não tem cara de lançamento televisivo do horário nobre. A emissora decide engavetar o documentário e deixá-lo parado por alguns bons anos.

Isso aconteceu em 1966 e o tal do grande artista envolvido foi (olha!) o temperamental Bob Dylan.

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A emissora da história, por sua vez, foi a ABC, que decidiu contratar o diretor DA Pennebaker para documentar a turnê de Dylan pelo Reino Unido e Irlanda em 1966. Pennebaker havia feito o filme Don’t look back, primeiro documentário de tour de Dylan, feito em 1965. Já no ano seguinte, o cantor excursionava e preparava o disco duplo Blonde on blonde (1966).

Um detalhe é que variáveis como “tempo” e “espaço” pareciam apenas bobagens se comparados ao dia a dia de Dylan, que estava sempre na estrada. A tour que iniciara em fevereiro de 1966 com a banda canadense The Hawks – que depois viraria The Band – já abria os trabalhos mesmo que o disco novo estivesse sendo gravado. Blonde on blonde passara por duas etapas. Na primeira, Dylan fizera gravações com The Hawks em Nova York, mas não ficou satisfeito com boa parte do material. Voltou ao estúdio em 1966 na meca country, Nashville, e o clima arejado do local invadiu os trabalhos. O cantor encontrou um espaço amplo na sala de gravação, e pediu que fossem retirados os biombos que separavam os músicos.

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Foi nesse clima de trabalheira brutal que o tal documentário, Eat the document, foi feito. Aliás, com direito a cenas em que Dylan diverte-se com companheiros como Robbie Robertson – que aparece ensaiando e compondo em quartos de hotel com ele. Logo na abertura, o cantor cai na gargalhada ao lado dos amigos encostando o nariz na mesa e fingindo que cheira carreiras de cocaína (pelo menos é o que parece). Por sinal, um susto para quem só conhece o Dylan sério e meio enjoado das fotos de shows.

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No filme, o cantor é visto sendo chamado de “Judas” por “fãs” raivosos em seu show do Manchester Free Trade Hall (a plateia ainda ficava indignada com as guitarras elétricas), participando de enigmáticas entrevistas coletivas, tocando piano com Johnny Cash (o hit I still miss someone, do homem de preto) e viajando de trem com a equipe da turnê.

E, em alguns cortes do filme, Dylan aparece num papo doidão com John Lennon, gravado em 27 de maio de 1966. Os dois andam de limusine por Londres, o beatle aparece com o mesmo visual hipster da contracapa de Revolver (1966) e Dylan parece não estar em condições de falar coisa com coisa. Mas aproveita para falar que o amigo “é um grande ator”. Em 1971, num papo com a Rolling Stone, Lennon dizia que nunca tinha visto essas imagens e confessava que aquela tranquilidade toda era disfarce: estava nervosíssimo com o encontro e com a filmagem.

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Dylan sofreu um acidente sério de moto perto de sua casa em Woodstock em 29 de julho de 1966, e se retirou dos trabalhos, mesmo com um disco para divulgar, e um filme para acabar. Pennebaker resolveu tocar o doc sozinho e ele quase se chamou You know something is happening. Só que Dylan, no estaleiro, viu tudo e achou o resultado parecido demais com Don’t look back. Decidiu editar ele mesmo, ao lado do cineasta Howard Alk.

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A ABC incomodou-se bastante com o fato do documentário do cantor nem sequer indicar os lugares onde ele estava, ou mesmo os pontos específicos da turnê. Arquivou tudo e deixou pra lá o projeto – que deveria ser exibido na série ABC Stage 67. Recuperado, o filme acabou exibido no Whitney Museum of American Art em dezembro de 1972, com o nome de Eat the document. Mas nunca foi lançado de verdade, oficialmente. Em VHS ou DVD, nem pensar.

Em compensação, jogaram o filme no Vimeo. Aproveite enquanto está no ar, ou melhor, na web.

Eat the Document Bob Dylan Film from Nick Rossi on Vimeo.

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Cinema

Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

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Nove documentários bastante realistas sobre música: descubra agora!

Let it be, documentário sobre os Beatles, já foi considerado um exemplo de filme em que o artista enfocado deixa baixar a guarda, e o cineasta pega de tudo: brigas, desilusões, comportamento tóxico, passivo-agressividades, etc. Com o novo Get back, que recauchuta e aumenta o material do filme, as coisas mudaram um pouco. Mas dá pra dizer que o clima meio azedo de Let it be animou vários artistas a adotarem o “venha como estiver” em documentários – e ainda fez vários cineastas deixarem a censura de lado e mostrarem tudo o que a câmera é capaz de focalizar. Segue aí uma listinha de nove documentários que seguem esse mesmo estilo.

“METALLICA: SOME KIND OF MONSTER” (2004). O velho clichê do “você vai se emocionar” levado a consequências meio estranhas: depois de assistir a esse documentário, que relata a guerra de nervos que virou o grupo americano na época do disco Saint Anger (2003), difícil de imaginar como a banda conseguiu sobreviver e se manter trabalhando. Jason Newsted tinha caído fora, Lars Ulrich falava pelos cotovelos, James Hetfield foi para o rehab, os integrantes chamaram um psicólogo para ajudar o grupo a manter a cabeça no lugar e o “alguma espécie de monstro” que emergia aí era o próprio comportamento tóxico dos integrantes. Dirigido por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky.

“ANVIL: THE STORY OF ANVIL” (2008). Esse filme já esteve na Netflix e saiu de lá – e já passou no canal Bis algumas vezes. A história da banda canadense de heavy metal é das mais complexas: o grupo é citado como influência por bandas como Slayer, Metallica, Anthrax e vários outros. Mas passaram por um período de obscuridade em que os líderes do grupo precisaram se virar em empregos bastante humildes, com pouca grana. As coisas começam a parecer entrar nos eixos quando o grupo começa a fazer um novo disco com Chris Tsangarides, o mesmo cara que produziu o primeiro álbum do Anvil (esse disco saiu mesmo e se chama This is thirteen, de 2007). Dirigido por Sacha Gervasi.

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“LOUD QUIET LOUD: A FILM ABOUT THE PIXIES” (2006). O curto (75 minutos) documentário sobre a tour de “volta” dos Pixies em 2004 mostra que a banda retornou musicalmente nos eixos. Só que lá dentro, as coisas não iam tão bem quanto pareciam, e a estrada era um verdadeiro fardo para todos. Kim Deal (baixo) era ajudada pelos pais e pela irmã gêmea Kelley a não voltar para as drogas, David Lovering (bateria) parecia prestes a ter um ataque a qualquer momento, Joey Santiago (guitarra) lutava para manter a sanidade. Já Black Francis (guitarra, voz) virava a cara para não cumprimentar fãs, atendia jornalistas de má vontade e repetia frases de autoajuda no tour bus para manter a cabeça no lugar. Dirigido por Steven Cantor e Matthew Galki.

“THE CHILLS: THE TRIUMPH & TRAGEDY OF MARTIN PHILLIPS” (2019). O grupo neozelandês The Chills teve um quase-hit no Brasil, The male monster from the id, que tocou em algumas rádios-rock no comecinho dos anos 1990, mas nunca foi conhecido aqui. A história do grupo é tão cheia de momentos sombrios quanto Soft bomb (1992), o disco que tem essa faixa. O líder Martin Phillips lutou contra o vício em drogas pesadas por vários anos, o baterista Martyn Bull morreu de leucemia em 1983, a banda nunca conseguiu manter uma formação muito fixa e sempre pulou de gravadora em gravadora, apesar do prestígio. Recentemente, aos 54 anos, Martin descobriu que tem hepatite do tipo C – e o assunto aparece igualmente no documentário, que flagra o músico lutando por seu trabalho e por sua saúde (mental e física). Passou aqui no Brasil no InEdit. Dirigido por Julia Parnell e Rob Curry.

“COCKSUCKER BLUES” (1972). Desse aí a gente ate já falou no POP FANTASMA: trata-se de um documentário cinema-extremamente-verdade sobre tudo da turnê dos Rolling Stones em 1972. E por tudo, leia-se tudo mesmo: Keith Richards preparando-se para usar heroína, Mick Jagger cheirando cocaína, roadies e groupies usando drogas injetáveis, os Micks (Jagger e Taylor) fumando maconha. Surgem alguns momentos bizarros de pornografia: Mick Jagger aparece se masturbando, e em outro momento, uma groupie aparece nua na cama. Tá inteiro no YouTube e bate recordes de degradação. Dirigido por Robert Frank.

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“SUZI Q” (2019). A música e a trajetória de Suzi Quatro, cantora, baixista e radialista norte-americana, que teve sucesso quase meteórico graças a músicas como 48 crash e Can the can. O lado “cinema verdade” da história fica por conta da relação da cantora com as irmãs, que parece eternamente cagada por causa de ciúmes e problemas surgidos na época em que eram todas adolescentes e tocavam na mesma banda. Dirigido por Liam Firmager.

“CRACKED ACTOR: A FILM ABOUT DAVID BOWIE” (1975). Filmado em 1974, Cracked… é uma dureza de assistir, especialmente para quem é muito fã de Bowie. Feito para ser exibido na BBC, o documentário era bem realista em mostrar como Bowie, em plena turnê do disco Diamond dogs (1974), andava chapado e fora de órbita. Alan Yentob, o diretor, disse ter pego Bowie sempre nas primeiras horas da manhã (numa época em que o cantor pegava tão pesado na cocaína que mal dormia), em conversas rápidas. Bowie, que nunca gostou da ideia de ver o filme lançado em VHS ou DVD (nunca saiu), disse que “quando vejo isso agora, não posso acreditar que sobrevivi”.

“LAST DAYS HERE” (2011). Quando você ouvir falar que o artista tal “se mostrou como é” num documentário, procure ver se essa pessoa viu esse filme, que conta a história de uma figurinha bem bizarra do rock: Bobby Liebling, vocalista da pioneira banda de doom metal Pentagram, formada em 1971. Bobby passou vários anos drogadaço, destruiu sua carreira e no começo do filme, é visto aos 50 anos, morando num porão da casa dos pais. O estilo de vida de Bobby era tão degradante que os diretores Don Argott e Demian Fenton quase desistiram da ideia do filme, inicialmente. Mas tudo foi se ajeitando.

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“DIG” (2003). No Brasil, a banda americana The Dandy Warhols é o típico grupo-de-boate – todo mundo já dançou Bohemian like you em alguma festa e muita gente pensa que se trata de um lado Z do Blur ou algo parecido. Lá fora, tiveram sucesso por algum tempo, e sempre mantiveram um relacionamento de tapas e beijos com o grupo experimental The Brian Jonestown Massacre, que seguiu o caminho das loucuras de estúdio, da degradação (por causa do estilo de vida do líder Anton Newcombe) e do sucesso cult. O filme retrata a rivalidade entre as duas bandas. Mas vale dizer que alguns integrantes dos dois grupos (Newcombe entre eles) detestam o filme e o comparam a um programa de fofocas. Você decide se vale. Dirigido por Ondi Timoner.

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Star Wars: Kenny Baker e Anthony Daniels experimentando as roupas de R2D2 e C3PO

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Star Wars: um filminho raro de 1976 exibe os atores Kenny Baker e Anthony Daniels experimentando as roupas dos personagens R2D2 e C3PO

O canal 70sSciFiBoy redescobriu um vídeo raro em que os atores Kenny Baker (R2D2) e Anthony Daniels (C3PO) experimentam seus uniformes para aparecer no primeiro filme da franquia Star wars. Do lado dos dois, a equipe fazia testes com androides.

O filminho é de 1976 e originalmente estava em 16 mm. “É março de 1976 no Elstree Studios, Reino Unido, e o departamento de adereços está demonstrando os aspectos práticos dos designs de andróides para George Lucas, enquanto os atores Kenny Baker (R2D2) e Anthony Daniels (C3P0) se familiarizam com os trajes e se acostumam a andar neles”, relembra o texto do vídeo.

Via Boing Boing

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Revendo Let It Be

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Abertura do filme Let It Be, dos Beatles

“Começamos o filme em janeiro de 1969 (…) sob o título provisório de Get back. (…) A ideia era ver os Beatles ensaiando, improvisando, montando seu número e depois, finalmente se apresentando em algum lugar num grande concerto (…) Na verdade, o que aconteceu foi que (…) evidenciou-se como funciona a dissolução de um grupo. Nós não percebemos que estávamos efetivamente rompendo enquanto aquilo estava acontecendo” – Paul*

Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante (leia-se no fim da década de 1980, no município de São Gonçalo, RJ), a informação sobre música pop era escassa. Por informação, entenda-se texto, áudio, vídeo. Pré-internet, pré-MTV, pré-TV paga, pré-Plano Real, tudo era difícil. Até mesmo, imaginem, ver algum material em vídeo dos Beatles. Adolescente, eu percorria literais léguas — de SG até a zona sul do Rio — para assistir a vídeos como Live at the Budokan ou The compleat Beatles, que costumavam passar em sessões à meia-noite na sala de vídeo da faculdade Candido Mendes. Sim, há muito tempo, existiam essas coisas chamadas “salas de vídeo”, que exibiam produções musicais em VHS; em geral material “raro”, i.e., pirata.

Foi em uma dessas salas de vídeo — a do Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial, ou apenas Paço Imperial, na Praça XV, centrão do Rio de Janeiro — que eu vi Let it be pela primeira vez. Eu não sabia na época, mas sem dúvida tratava-se de uma cópia ilegal. A época, aliás, era 1990; disso eu lembro com clareza, pois o Paço aproveitara a primeira vinda de Paul McCartney ao Brasil para fazer uma mostra com os cinco longas-metragens dos Beatles, na ordem cronológica. Portanto, em uma sexta-feira de 1990, eu peguei a barca em Niterói rumo à Praça XV, para assistir a Let it be. Provavelmente precisei matar a última aula daquela manhã (eu cursava o terceiro ano do ensino médio), já que a sessão era às 13h.

Quer dizer, tô meio que chutando tudo isso, pois lá se vão mais de 30 anos. De detalhes do filme, lembro pouco. Lembro de ter chegado atrasado e de ter perdido os primeiros minutos de projeção. Lembro da qualidade ruim — granulada, esmaecida — da imagem e do som abafado. Aposto que era uma cópia (de uma cópia de uma cópia…) da única edição oficial em home video do longa, lançada em 1981. Eu também não sabia que os fotogramas “estourados” eram um detalhe que acompanhava Let it be desde seu lançamento nos cinemas; filmado em 16mm, o negativo original foi ampliado para 35mm, o que resultou na granulação exagerada das imagens.

Tirante o showzinho no telhado, ficaram na mente a valsa de John & Yoko ao som de I me mine, Paul ensaiando “Oh! Darling” ao piano e o espanto com a versão integral de Dig it. Mais do que tudo, ficou na mente o clima um tanto desolador conjurado pelo longa. Em 1990, eu já sabia que Let it be era o retrato do fim dos Beatles e que mostrava o quarteto gravando aquele que seria seu último álbum. (Mas não sabia ainda que, entre o trabalho no filme e o fim em 1970, eles conseguiram conciliar uma última vez o supostamente irreconciliável, para produzir Abbey Road.) De uma forma meio impressionista, as lembranças daquela cópia meio fudida do documentário — uma polaroide granulada da fase mais tristonha do grupo — se misturaram às informações que vim acumulando anos afora sobre a história dos Fab Four.

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Let it be é o mais controverso dos 12 álbuns e o menos exibido dos cinco filmes dos Beatles. O longa-metragem de Michael Lindsay-Hogg é o único documentário TRVE rodado sobre a banda enquanto eles ainda estavam juntos. Hoje, todo mundo sabe dos perrengues que cercaram as gravações, realizadas em janeiro de 1969 e descritas por George Harrison como “o ponto mais baixo” da trajetória do quarteto. Todo mundo (hoje) sabe que George chegou a sair da banda (por 11 dias), que a chegada de Billy Preston deu uma aliviada no clima e que o quarteto (leia-se Paul) ponderou por meses o conteúdo final do doc, antes de abandonarem o título original Get back. Todo mundo sabe que literais semanas de filmagem bruta foram descartadas e arquivadas, para se chegar aos 80 minutos do longa que estreou em maio de 1970, pouco mais de um mês depois que Paul anunciou publicamente sua saída dos Beatles — na prática, dissolvendo a banda.

Nunca relançado nos cinemas, nunca reeditado em qualquer formato desde os anos 1980, não disponível em streaming (chegou a estar, por um tempo, no catálogo da Netflix nos EUA e Reino Unido), exibido na TV apenas em fragmentos, Let it be virou um mistério. Mas todo mundo sabe que ao menos duas tentativas de lançar o documentário em DVD, em 2008 e 2011, fracassaram devido à intervenção de Paul (e Ringo). Muito menos obscuro que o filme, o álbum homônimo também foi “amaldiçoado” por Paul, que nunca engoliu as intervenções sonoras feitas à sua revelia pelo produtor Phil Spector. Macca não sossegou até lançar a “sua” versão do disco, em 2003.

Eis que em 30 de janeiro de 2019 (o dia do 50º aniversário do rooftop concert), Peter Jackson e a Disney (!) anunciaram a possível redenção de Let It Be… na forma de The Beatles: Get back, uma minissérie de seis horas de duração editada a partir de 55 horas de filmagens feitas por Lindsey-Hogg em 1969. O resultado vai ao ar via Disney+ ao fim de novembro de 2021. Em imagens restauradas digitalmente, os Beatles de 69 nunca pareceram tão cristalinos. Jackson prometeu uma narrativa “divertida e inspiradora”, em contraponto ao tom sombrio do filme original.

Bom, eu disse pra mim mesmo, é um sinal. Se em 1990 eu precisei atravessar três municípios para assistir a uma cópia de procedência duvidosa, hoje uma versão digital (rotulada “Deluxe 35mm Widescreen Stereo Edition”) é facilmente encontrável nas, ahem, boas casas do ramo na internet. O arquivo foi extraído de uma versão, ahem, genérica lançada em BD em algum país da Ásia (Japão, provavelmente). Segundo as liner notes que acompanham o vídeo, a fonte foi uma cópia VHS de boa qualidade originária da BBC, com imagens em widescreen e som estéreo (em lugar da versão 4:3 e mono vista/ouvida nos cinemas).

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Adiei por anos, mas antes de assistir à minissérie, vou rever Let it be. Não seria possível encarar a “divertida versão Disney” sem passar a limpo as memórias tristonhas do filme original.

“Foi um inferno fazer Let it be. Quando foi lançado, muita gente se queixou de Yoko parecia infeliz (…) Mesmo o maior dos fãs dos Beatles não conseguiria tolerar aquelas seis semanas lamentáveis. Foi a gravação mais deplorável da face da Terra” — John*

Pôster original do filme Let It Be, dos Beatles

A impressão mais forte após a revisão: Let it be é uma “tela em branco” na qual os espectadores projetam suas percepções sobre o último ano no qual os Beatles existiram na prática. O longa parece triste, ou me pareceu triste em 1990, porque vinha carregado de uma aura triste; a narrativa do fim da banda o precedia, e como já sabíamos o desfecho da história — um spoiler gigantesco, que não chega a ser mostrado na tela — todo o esforço do quarteto no estúdio parecia dolorosamente inútil.

Só que essa “narrativa da tristeza” era algo 100% formulado pelo espectador. Toda a contextualização do que se vê no filme depende do conhecimento prévio do público. O filme nunca força a barra para parecer triste ou deprimente. Na verdade, as imagens são tão cruas que pouco pode se falar em narrativa. O que temos é apenas a câmera rodando, praticamente sem intervenções do diretor sobre as cenas. Não há entrevistas, narração, legendas. Sim, a tensão entre os músicos é visível e dispensa comentários, mas Lindsay-Hogg não conduz a “história” nem induz o público a qualquer conclusão. É até surpreendente constatar que a maior banda de rock do mundo tenha consentido em lançar nos cinemas um produto tão amorfo, despojado e — em última instância — aberto a múltiplas interpretações. (Uma resenha contemporânea no jornal The Sunday Telegraph classificou o longa como “um filme muito ruim (mas) tocante”).

Uma outra narrativa consolidada com o passar dos anos se confirma na revisão: Paul monopoliza o filme. Ele teve a ideia para o projeto, ele impeliu os outros três à empreitada, e é ele quem comanda o show, literal e figuradamente. Diante da indiferença de John e da insatisfação de George, Paul é quem sugere planos, se esforça para burilar suas composições e para extrair alguma empolgação dos companheiros. (Ringo, em consonância com sua persona pública, serve quase como um alívio cômico. Pouco se manifesta, embora a câmera se concentre nele em diversos momentos, de forma marcante.) Uma terceira narrativa, a da presença ominosa de Yoko no estúdio, interferindo na harmonia do quarteto, se desfaz. Sim, ela aparece já no segundo minuto de projeção e acompanha John pra lá e pra cá, mas não fala. A câmera pouco se interessa por ela… Ou talvez a edição tenha preservado apenas seus momentos mais inexpressivos.

Paul também estrela os dois “clipes” mais conhecidos do filme, as interpretações da música-título e de The long and winding road, repletos de closes dele. Ele é o único que parece reconhecer a presença da câmera e que concorda em “atuar” para o diretor. Ainda mais que outros sucessos incluídos no filme, Two of us é a música-símbolo de Let it be. Não só pela letra (“We’re going home”, etc.), mas também pelo tempo que merece na tela. Vemos a canção tomando forma, primeiro em uma versão de trabalho — elétrica e mais roqueira — gravada ainda no estúdio Twickenham. O famoso bate-boca entre Paul e George (“Eu toco o que você quiser que eu toque. Se você quiser, posso tocar nada também”) se dá durante um debate sobre o arranjo da canção. E, afinal, já nos estúdios da Apple, é o primeiro número número a ser apresentado 100% completo, já no formato acústico e delicado eternizado no álbum (aliás, é a faixa de abertura do disco).

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Musicalmente, o filme mostra que os Beatles já estavam, em 1969, com um pé nos anos 70. O som nos ensaios é pesado e blueseiro, com os caras tentando recuperar de forma meio desajeitada o jeito de tocar em conjunto. Vamos lembrar que o quarteto já não funcionava como uma “banda de verdade” há um bom par de anos e que no Álbum branco, o disco anterior, cada um dos quatro fez o que quis, usando os outros três como meros ajudantes (às vezes, nem isso). O espírito gettin’ back inspira o quarteto a arriscar jams repletas de velharias, como Besame mucho e uma desanimada (e desafinada) You really got a hold on me. É também em uma jam que vê-se o único momento em que John realmente se empolga: Dig it.

Por falta de novas canções — ou talvez já de olho no que lançar nas carreiras solo — John & Paul ressuscitam One after 909, cuja gravação original de 1963 não tinha sido lançada até ali. Enquanto isso, George tinha um baú de composições guardadas, às quais a dupla principal não dava muita atenção. É bacana vê-lo trabalhando em For you blue, ajudando Ringo a encorpar Octopus’s garden e liderando a banda em uma versão de I me mine diferente da do disco, com direito a um interlúdio quase flamenco.

Cena do filme Let It Be, dos Beatles

Cenas do rooftop, 30 de janeiro de 1969: um aspone da Apple segura a letra de ‘Dig a Pony’ para John, a galera na rua olhando pra cima incrédula e os bobbies chegando para acabar com o fuzuê

O grand finale do filme, o concerto no telhado da Apple, não foi a conclusão do projeto. Era a única concessão do documentário a um esquema de narrativa tradicional: filmamos os Beatles compondo, gravando, discutindo e encerramos com o resultado final. Mas as filmagens na Apple continuaram; na verdade, as gravações de Let it be, Two of us e The long and winding road foram feitas depois do show. Obviamente é o ponto alto do longa, no qual Lindsay-Hogg assume o papel de cinejornalista, entrevistando os surpresos londrinos, capturando o caos na rua Saville Row e a intervenção da polícia. Mais que apenas o “último show” dos Beatles, foi o momento em que eles afinal voltam a confrontar o mundo real, depois de anos trancados no estúdio, viajando pela Índia e tecendo mirabolantes planos empresariais. O mundo real bate palmas, mas também envia a Scotland Yard para acabar com a barulheira. É tudo muito espontâneo, mas também há um tom farsesco na coisa toda. Não é como se os Beatles não soubessem que o showzinho iria dar merda. Eles eram os Beatles, pô.

E porque eles eram os Beatles, Let it be sempre será indispensável, mesmo que pouco acessível. Cada um dos filmes dos quarteto tem sua graça específica. A “graça” do documentário é mostrar os Beatles humanos. Não os reis do iê-iê-iê, os xamãs psicodélicos ou o desenho animado. Nos outros quatro filmes, os Fab Four pertencem a outro(s) mundo(s). Em Let it be eles são (quase) gente como a gente: acordam cedo para trabalhar num lugar chato, com um chefe chato (Paul, claro) cobrando resultados; relaxam ao voltarem pra casa (a Apple) e ao receberem amigos (Billy Preston). Para encerrar, fazem uma festinha na laje que acaba com a presença dos meganhas.

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“Lembro-me (…em uma reunião sobre o filme) de ouvir de John: ‘Ah, entendi. Ele quer um trabalho’. E eu (disse): ‘É isso mesmo. Acho que devemos trabalhar. Seria bom’. (…) Em seguida, tivemos discussões terríveis — então teríamos a dissolução dos Beatles no filme, em lugar daquilo que realmente desejávamos. Provavelmente foi uma história melhor — uma história triste, mas era a que havia” — Paul*

*Depoimentos extraídos do livro Antologia — The Beatles (Cosac & Naify, 1995).

Publicado originalmente no blog Telhado de Vidro

Mais Let it be no POP FANTASMA:
– Trinta coisas que você já sabia sobre o rooftop concert dos Beatles
– Discos da discórdia 10: Beatles com Let it be… Naked
O fim (??) dos Beatles no podcast do POP FANTASMA

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