Se você resolver procurar No pussyfooting, primeiro disco gravado em dupla por Robert Fripp e Brian Eno (em 1973), não vai encontrá-los no sistemas de streaming ou no próprio YouTube. O experimentalíssimo disco do guitarrista do King Crimson e do tecladista então recém-saído do Roxy Music desapareceu da web faz tempo. Nada de YouTube, nada de Spotify ou Deezer. Pra ouvir só gastando uma baita grana para comprar a edição dupla, com dois bônus, que saiu há alguns anos. Ou esperando alguém estar online com os arquivos no Soulseek.

No Pussyfooting, de Roberrt Fripp e Brian Eno: só comprando pra ouvir

O máximo que você encontra no YouTube (o disco já esteve por lá mas foi derrubado) são uns vídeos com umas resenhas do álbum, tentando explicar que maluquice era aquela que Fripp e Eno fizeram no disco. Uma delas é essa abaixo.

No pussyfooting chegou a ser definido por Fripp como “o meu melhor trabalho de guitarra já gravado”. E não é o tipo do disco que as gravadoras gostariam que seus artistas fizessem. O conteúdo era o retrato de uma época em que músicos, por mais anticomerciais que fossem, tinham rédea longa e muito controle artístico pessoal. A ponto de Fripp e Eno resolverem, à revelia de todo o mundo, lançar um álbum maluco baseado em rolos de fita que passavam por dois gravadores de bobina (!). E com duas longas faixas, cada uma ocupando um lado.

Na época, chegou a sair uma reportagem na Hit Parader afirmando que Fripp se apegara à sua guitarra e Eno “ao único instrumento que eu sei tocar, que é o gravador”. E de fato, é como a dupla se divide no disco, que abre a temporada de álbuns ambient de Eno. E tem momentos em que é quase impossível imaginar que aquilo foi feito com a tecnologia disponível nos anos 1970, sem computadores e sem samplers.

A faixa que toma o lado A, The Heavenly Music Corporation, é praticamente um loop gigantesco (20:55) da guitarra de Fripp retrabalhado por ele e por Eno. No lado B, tem Swastika girls, uma música começada e retrabalhada por Fripp e Eno a partir de um riff de teclado criado por Eno.

O nome da música não é uma apologia: Eno estava com Fripp no estúdio de George Martin (o Air) mexendo nas fitas da faixa, quando deparou com uma revista pornô que trazia imagens de uma garota em cativeiro, ao lado de meninas nuas com emblemas do exército alemão nos antebraços. Ficou com a imagem na cabeça e ela acabou batizando a música.

No pussyfooting foi lançado pela Island contra a vontade não apenas do King Crimson como do escritório que agenciava a carreira solo de Eno. O ex-Roxy Music estava para lançar seu primeiro solo dentro em pouco, Here come the Warm Jets (1974), numa linha bem menos antipop. Foi um disco de realização muito barata e custou praticamente o preço da fita master e da mixagem (US$ 375 + US$ 500, no caso do lado B, e só inacreditáveis doze dólares no lado A).

O curioso é que Fripp, numa entrevista de 1974, chegou a defender No pussyfooting como um potencial sucesso. “O disco vendeu cerca de 28 mil cópias, o que é um número mais do que respeitável para o mercado. Ponho ele lado a lado com o primeiro disco do King Crimson (In the court of Crimson King, de 1969)”, disse. Bem…