Cultura Pop
Lembra quando o Quill tocou em Woodstock?

Não sabe o que é esse tal de Quill? Vamos lá. Histórico, monumental e totalmente à prova de revisões históricas, o festival de Woodstock (que, impossível não saber, completou 50 anos na semana passada) teve lá seus fatos malucos, seus acontecimentos surgidos do acaso e suas escalações estapafúrdias. E golpes bizarros do acaso.
Exemplos: bandas gigantes como Creedence Clearwater Revival e Grateful Dead participaram do evento, passaram em brancas nuvens, e ficaram de fora de disco e filme do evento. Já Santana, um adolescente mexicano desconhecido que comandava uma banda enorme, entrou no festival por exigência do promotor de shows Bill Graham (justamente numa negociação que envolvia a entrada do Grateful Dead), fez sucesso e virou estrela.
https://www.youtube.com/watch?v=AqZceAQSJvc
Tem quem nem lembre que Creedence e GD estiveram lá, mas, enfim, Soul sacrifice, de Santana, ganhou ares de hit. Por outro lado, não tem quem não se recorde de I-feel-like-I’m-fixin-to-die rag, do ex-combatente e cantor folk Country Joe McDonald, como um dos maiores hinos políticos do festival. Joe não se tornaria um grande astro do rock no decorrer das próximas décadas – apesar de gravar mais de trinta LPs – e até se queixaria em algumas entrevistas de nunca ter entrado para o time dos artistas “que dão dinheiro”.
O número de artistas que tocaram em Woodstock e pouca gente lembra, por sinal, dá até depressão: costumam ser esquecidos Bert Sommer, Tim Hardin e até mesmo o Canned Heat (que fez uma apresentação excelente e é o quinto artista a aparecer no filme dirigido por Michael Wadleigh). Agora o caso mais bizarro é o de uma banda chamada Quill, da qual possivelmente NINGUÉM hoje em dia lembra. E, sim, eles tocaram no segundo dia do festival de Woodstock, quando também subiram ao palco The Who e Santana.
Olha o primeiro e único disco deles aí, epônimo, lançado em 1970 pelo selo Cotillion, ligado à Atlantic, Tem quem compare a faixa Yellow butterfly a Syd Barrett.
Fundado por duas crias de Boston, os irmãos Jon e Dan Cole, o Quill começou a carreira abrindo para uma gama variada de artistas – que incluía de The Who e Jeff Beck Group ao comediante Steve Martin. Nos shows, a banda costumava levar instrumentos de percussão para distribuir à plateia, o que já garantia parte do sucesso. O grupo, que ainda nem tinha disco gravado em 1969, foi parar no festival de Woodstock por ideia do criador do evento, Michael Lang, que era amigo do empresário do Quill.
Lang gostava do grupo e acreditava que a banda fosse estourar depois do festival (não foi o que aconteceu, como ficou público e notório). O chefe de Woodstock ainda resolveu fazer do Quill seus ajudantes num projeto importantíssimos. Os irmãos Cole e seus companheiros foram uma espécie de “banda da casa”, fazendo diversos shows para funcionários do festival e fazendeiros da região.
Mais: para deixar a comunidade de Bethel (onde rolaram os três dias de evento) tranquila em relação ao festival, Lang escalou o Quill para uma série de apresentações “voluntárias” em prisões, hospitais e até hospícios da área. No sábado, quando tocaram em Woodstock, foram a primeira banda e subiram no palco ao meio-dia.
Olha aí um minuto e pouco da apresentação do Quill, que ficaram de fora do filme original. As imagens da banda ficaram fora de sincronia com o som, o que inutilizou toda a apresentação. No vídeo abaixo, a banda toca Waiting for you. O vocalista Joe Cole é visto (adivinhe) dando peças de percussão para o público.
Aqui tem uma resenha dizendo que o Quill saiu meio frustrado do palco, por não conseguir eletrizar a (enorme) plateia da mesma forma que o fazia com os clubes onde se apresentavam em Boston. Seja como for, o grupo chamou a atenção do mesmo selo que lançaria os discos do festival: a banda assinou com a Cotillion e lançaria seu disco em 1970. Houve planos para um segundo disco, que começou a ser gravado sob os auspícios de Tony Bongiovi (primo de Jon Bon Jovi e futuro produtor de Bruce Springsteen, Ramones e uma porrada de gente). Mas a gravadora desistiu do projeto.
O Quill fechou portas no começo dos anos 1970. Os irmãos Cole conseguiram sucesso em áreas distantes da música – Jon trabalhou com dispositivos de energia solar e Dan virou consultor na área de gestão. O show deles em Woodstock, que não chegou exatamente a virar lenda, foi marcado por improvisos: três músicas, mais uma jam, em cerca de meia hora. Alguém achou o áudio (que já foi bastante pirateado) e jogou no YouTube. Pega aí.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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