Não sabe o que é esse tal de Quill? Vamos lá. Histórico, monumental e totalmente à prova de revisões históricas, o festival de Woodstock (que, impossível não saber, completou 50 anos na semana passada) teve lá seus fatos malucos, seus acontecimentos surgidos do acaso e suas escalações estapafúrdias. E golpes bizarros do acaso.

Exemplos: bandas gigantes como Creedence Clearwater Revival e Grateful Dead participaram do evento, passaram em brancas nuvens, e ficaram de fora de disco e filme do evento. Já Santana, um adolescente mexicano desconhecido que comandava uma banda enorme, entrou no festival por exigência do promotor de shows Bill Graham (justamente numa negociação que envolvia a entrada do Grateful Dead), fez sucesso e virou estrela.

Tem quem nem lembre que Creedence e GD estiveram lá, mas, enfim, Soul sacrifice, de Santana, ganhou ares de hit. Por outro lado, não tem quem não se recorde de I-feel-like-I’m-fixin-to-die rag, do ex-combatente e cantor folk Country Joe McDonald, como um dos maiores hinos políticos do festival. Joe não se tornaria um grande astro do rock no decorrer das próximas décadas – apesar de gravar mais de trinta LPs – e até se queixaria em algumas entrevistas de nunca ter entrado para o time dos artistas “que dão dinheiro”.

O número de artistas que tocaram em Woodstock e pouca gente lembra, por sinal, dá até depressão: costumam ser esquecidos Bert Sommer, Tim Hardin e até mesmo o Canned Heat (que fez uma apresentação excelente e é o quinto artista a aparecer no filme dirigido por Michael Wadleigh). Agora o caso mais bizarro é o de uma banda chamada Quill, da qual possivelmente NINGUÉM hoje em dia lembra. E, sim, eles tocaram no segundo dia do festival de Woodstock, quando também subiram ao palco The Who e Santana.

Olha o primeiro e único disco deles aí, epônimo, lançado em 1970 pelo selo Cotillion, ligado à Atlantic, Tem quem compare a faixa Yellow butterfly a Syd Barrett.

Fundado por duas crias de Boston, os irmãos Jon e Dan Cole, o Quill começou a carreira abrindo para uma gama variada de artistas – que incluía de The Who e Jeff Beck Group ao comediante Steve Martin. Nos shows, a banda costumava levar instrumentos de percussão para distribuir à plateia, o que já garantia parte do sucesso. O grupo, que ainda nem tinha disco gravado em 1969, foi parar no festival de Woodstock por ideia do criador do evento, Michael Lang, que era amigo do empresário do Quill.

Lang gostava do grupo e acreditava que a banda fosse estourar depois do festival (não foi o que aconteceu, como ficou público e notório). O chefe de Woodstock ainda resolveu fazer do Quill seus ajudantes num projeto importantíssimos. Os irmãos Cole e seus companheiros foram uma espécie de “banda da casa”, fazendo diversos shows para funcionários do festival e fazendeiros da região.

Mais: para deixar a comunidade de Bethel (onde rolaram os três dias de evento) tranquila em relação ao festival, Lang escalou o Quill para uma série de apresentações “voluntárias” em prisões, hospitais e até hospícios da área. No sábado, quando tocaram em Woodstock, foram a primeira banda e subiram no palco ao meio-dia.

Olha aí um minuto e pouco da apresentação do Quill, que ficaram de fora do filme original. As imagens da banda ficaram fora de sincronia com o som, o que inutilizou toda a apresentação. No vídeo abaixo, a banda toca Waiting for you. O vocalista Joe Cole é visto (adivinhe) dando peças de percussão para o público.

Aqui tem uma resenha dizendo que o Quill saiu meio frustrado do palco, por não conseguir eletrizar a (enorme) plateia da mesma forma que o fazia com os clubes onde se apresentavam em Boston. Seja como for, o grupo chamou a atenção do mesmo selo que lançaria os discos do festival: a banda assinou com a Cotillion e lançaria seu disco em 1970. Houve planos para um segundo disco, que começou a ser gravado sob os auspícios de Tony Bongiovi (primo de Jon Bon Jovi e futuro produtor de Bruce Springsteen, Ramones e uma porrada de gente). Mas a gravadora desistiu do projeto.

O Quill fechou portas no começo dos anos 1970. Os irmãos Cole conseguiram sucesso em áreas distantes da música – Jon trabalhou com dispositivos de energia solar e Dan virou consultor na área de gestão. O show deles em Woodstock, que não chegou exatamente a virar lenda, foi marcado por improvisos: três músicas, mais uma jam, em cerca de meia hora. Alguém achou o áudio (que já foi bastante pirateado) e jogou no YouTube. Pega aí.