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Cultura Pop

Lembra da fase punk do Village People?

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Lembra da fase punk do Village People?

Sim, você não leu errado. O Village People, aquele grupo de YMCA e Macho man, teve um namorico com a new wave e com o lado mais comercializado do punk. É só dar uma olhada na capa do disco Renaissance, lançado em 1981, após a banda deixar o selo Casablanca, meca da disco music (mas que andava bem mal das pernas) e ingressar na grandalhona RCA. Olha os topetes molhados da turma.

Lembra da fase punk do Village People?

Food fight, lado B do single 5’o clock in the morning, parece coisa do Blondie. Não, pensando bem, parece coisa do Damned. Cara, na verdade é estranho pra burro imaginar que os caras que dois anos antes faziam sucesso com Go west gravaram isso (mas a música é uma pérola perdida legal).

https://www.youtube.com/watch?v=hpttbL8J4N4

Food fight foi parar na voz David Hodo, o “pedreiro” do Village People, que bem antes do grupo, manteve uma carreira de ator em Nova York, trabalhando em musicais. Hodo até acha que o disco Renaissance contém músicas legais, mas detesta Food fight e lamenta ter tido que cantar justamente essa. Que ganha contornos hilariantes nessa montagem que alguém fez com uma turma meio new romantic balançando o esqueleto ao som da canção.

https://youtu.be/rhIvdbxRe7o

Essa estratégia fazia parte de uma nova “proposta” da RCA para a banda. Os tempos de disco music haviam chegado ao fim, estilos como punk, new wave, new romantic e até heavy metal estavam fazendo sucesso – e graças a crossovers com um papa da disco, Giorgio Moroder, o Blondie tinha virado banda de pista de dança. Olha Heart of glass, lançada em 1978, ainda no auge da disco (e que no Brasil entrou até na trilha da novela Pai herói).

https://www.youtube.com/watch?v=WGU_4-5RaxU

Em 1980, um ano antes de Renaissance, a Casablanca e o empresário do Village People, o francês Jaques Morali, decidiram que estava na hora do grupo ir parar nas telonas. Can’t stop the music saiu naquele ano e – eu vi o filme – tinha um roteiro até criativo, que satirizava pessoas próximas ao dia a dia do grupo (a Casablanca Records virava Marrakech Records, entre outras bizarrices). A crítica não caiu nessa: o filme se tornou mais famoso por ter sido o primeiro a ganhar um troféu Framboesa de Ouro. O público também não compareceu às salas de exibição. E o Village People ficou extremamente descontente com o roteiro, feito pelo produtor de Grease, Allan Carr. Olha o trailer aí.

https://www.youtube.com/watch?v=6Gk1mIef5iQ

Comprando o Village People em baixa na expectativa de lucrar na alta, a RCA sentiu os ventos e resolveu tascar gel nas cabeleiras do grupo. O modelo que a gravadora seguiu para reembalar a banda não foi, vale citar, o do Blondie. A RCA, segundo Hodo, queria que os rapazes extravagantes do Village People se parecessem com a turma do Spandau Ballet. Ou com Adam Ant.

O single do disco, 5’o clock in the morning, foi bastante fiel a essa proposta, com guitarrinhas econômicas que poderiam estar num disco da fase anos 1980 do Ultravox. Mas não deu muito certo, não. Renaissance permanece hoje em dia mais como uma esquisitice cult do que como um disco realmente memorável.

https://www.youtube.com/watch?v=OBW68VG5M8A

Os fãs saudosos poderiam respirar aliviados a partir de 1982, já que tudo voltou a ser como era antes. O Village People gravou o disco Fox on the box, que retornava ao som de antes e até tirava uma casquinha da emergente cena do hip hop, com Play Bach.

O grupo recolocava na formação o primeiro vocalista, Victor Willis – o policial (ou marinheiro) do grupo, coautor de clássicos como Y.M.C.A. Hodo, que já costeava o alambrado havia tempos (ele queria ter saído antes de Renaissance e topou ficar), finalmente deixou o grupo. Tentou voltar para o teatro mas encarou o preconceito de vários agentes por ter participado do Village People. Até que em 1987 topou voltar com a banda, para uma turnê de recordações. O show abaixo é dessa época.

https://www.youtube.com/watch?v=tOYFdQtEAtk

Epa, o Village People existe até hoje, com formação bastante modificada (Hodo, por exemplo, já se pirulitou há um tempão). Olha eles aí em 2019.

https://www.youtube.com/watch?v=Y858vtoRfcY

E, surpresa, a foto principal do Village People no Spotify, vai entender o motivo, é da fase de Renaissance.

Lembra da fase punk do Village People?

Cultura Pop

No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

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No nosso podcast. Rita Lee (e Roberto de Carvalho) entre 1980 e 1983

No começo dos anos 1980, se bobear o Brasil tinha bem poucos seres humanos vivos que nunca tinham sequer ouvido falar de Rita Lee – uma cantora que, ao lado do marido Roberto de Carvalho, vendia muitos discos, tinha música em abertura de novela e ganhava especiais de TV no horário nobre. E como se não bastasse, era contratada do verdadeiro canhão de comunicação que era a Som Livre daquela época. Mesmo com a censura do fim do governo militar no contrapé, foi um período de shows inesquecíveis, muitos hits, álbuns lançados um atrás do outro, e uma verdadeira ritaleemania tomando conta do país.

Hoje no nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, damos um sobrevoo na trajetória de Rita e Roberto no começo dos anos 1980 – a época dos álbuns Rita Lee (mais conhecido como Baila comigo, 1980), Saúde (1981), Rita Lee & Roberto de Carvalho (mais conhecido como Flagra, 1982) e Bom bom (1983). Ouça em alto volume e escute os discos depois.

Século 21 no podcast: Jane Penny e Bel Medula.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (fotos: reproduções das capas dos álbuns de Rita entre 1980 e 1983). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Alan Vega, “Insurrection”

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Ouvimos: Alan Vega, "Insurrection"

Alan Vega e sua ex-banda Suicide não eram apenas “rock industrial”. Eram música infernal, mostrando para todos os ouvintes que situações assustadoras eram vividas não apenas em filmes de terror, mas no dia a dia. No contato com vizinhos perturbados, na violência nossa de cada dia, na vida fodida dos debandados do capitalismo – que é o verdadeiro assunto de Frankie Teardrop, música assustadora lançada no epônimo primeiro disco da dupla formada por ele e Martin Rev, de 1977.

Vega viveu no limite: antes do Suicide ter qualquer tipo de sucesso, passou fome e enfrentou dificuldades. No palco, era do tipo que se cortava e saía sangrando dos shows. Seu som sempre teve ideais radicais, inclusive politicamente – ele chegou a ser atacado pela polícia ao participar de passeatas, e o Suicide homenageou Che Guevara na música Che. Dos dois integrantes do Suicide, hoje só Martin Rev vive para perturbar os ouvidos dos outros com som pesado, distorcido e sintetizado. Alan, que prosseguiu por décadas como lenda viva do punk e da música eletrônica, lançando discos e fazendo exposições de arte, teve um derrame em 2012 e morreu durante o sono em 2016.

Seu material como compositor, ironicamente, devia bastante às raízes do rock, e à postura de “herói” do estilo. O novaiorquino Alan era fanático por Iggy Pop e Stooges, e seu vocal variava entre dois uivos – o de Elvis Presley, cujo visual inicial trabalhado-no-couro passou a imitar, e evidentemente o de Iggy. Os primeiros álbuns solo de Alan variavam entre o synth-pop nervoso e uma espécie de rockabilly aceleradíssimo e violento (o melhor exemplo é a estreia epônima de Vega, lançada em 1980). Não custa lembrar que o som do Suicide, de fato, chegou a impressionar até mesmo Bruce Springsteen, que já disse ser (pode acreditar) fã da dupla.

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Insurrection é uma coletânea de gravações inéditas que estavam no baú de Alan. São músicas industriais e infernais feitas no fim dos anos 1990, todas falando sobre morte, sofrimento e contagem de mortos como se fosse algo natural, do dia a dia – e pensando bem, olhando os jornais e andando pelas ruas, é meio isso. É “bom de ouvir” dependendo do seu humor: é o disco das dançantes e góticas Sewer e Crash, do synth pop monocórdico Invasion, do pesadelo selvagem Cyanide soul e do lamento sonoro (de quase dez minutos) de Murder one.

Mercy é um estranho e assustador pedido de clemência, falando em gritos, anjos sangrando e tempestades sombrias. E nessa música o vocal de Alan lembra de verdade o de Elvis Presley, o que soa mais estranho ainda. Os beats são dados por uma percussão intermitente e tribal, seguida por uma batida eletrônica mais próxima do “dançante”. Soa mais insociável do que qualquer coisa lançada pelo Ministry ou pelo Alien Sex Fiend, por exemplo. Chains soa como entrar numa bizarra ressonância magnética de distorção. E Fireballer spirit oferece a mesma sensação, só que acrescida de barulhos eletrônicos.

Nota: 7,5
Gravadora: In The Red

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Cultura Pop

4 discos: Joy Division e seus “the best of”

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

O material não-lançado pelo Joy Division em LP dá (como aliás deu) um número considerável de coletâneas. Ainda que o grupo tenha só dois LPs para contar história (Unknown pleasures, de 1979, e Closer, de 1980). Mesmo que não seja um número maluco de coletâneas como acontece com o Who – que tem um monte de “the best ofs” com poucas diferenças entre um álbum e outro – quem quiser se abastecer de discos com faixas de singles, ou melhores sucessos do grupo, não fica sem opções. Pode achar por aí discos unindo músicas do JD e de sua continuação post-mortem, o New Order. Ou sets variados com gravações da BBC, faixas ao vivo, compactos e músicas mais conhecidas dos dois álbuns.

Comemorando os 46 não-redondos anos de Unknown pleasures (lançado em 15 de junho de 1979), tá aí uma lista condensadíssima – só quatro discos – de coletâneas que em algum momento valeram a pena para futuros fãs do grupo.

“WARSAW” (1981, RZM). Apesar do título, esse disco não traz só as sessões do grupo com seu primeiro nome. Dependendo da edição, tem as demos do Warsaw que depois foram lançadas já como Joy Division no EP An ideal for living (1978), as gravações feitas no período breve em que o Joy Division quase foi contratado pela RCA (igualmente em 1978) e o lado B As you said. As primeiras edições traziam as ondas de rádio da capa de Unknown pleasures ocupando quase toda a arte. Em Portugal, o disco chegou a ser lançado semioficialmente pelo selo Movieplay.

“SUBSTANCE (1978-1980) (1988, Factory). O correspondente do Substance do New Order levava para vinil e CD oficiais faixas obscuras de singles do grupo, incluindo material do pirata Warsaw. Além de faixas mais conhecidas lançadas em compacto, como Dead souls, Atmosphere e Love will tear us apart. O principal era que o disco mostrava, de maneira cronológica, o Joy partindo do punk para a quase neo-psicodelia, indicando que a banda talvez se tornasse uma ótima concorrente de grupos como Echo and The Bunnymen, Teardrop Explodes e Cocteau Twins caso o vocalista Ian Curtis não tivesse morrido (falamos desse disco aqui).

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“PERMANENT” (1995, London). Lançada quando o antigo selo Factory já havia declarado falência e seu material estava nas mãos da London Records, essa coletânea teve grande valor quando lançada. Pelo menos por aproveitar o então recente retorno do New Order com o disco Republic (1993) e o hit Regret, e o começo da revalorização do rock inglês via Oasis, Blur, Elastica, Suede e vários outros nomes. Love will tear us apart aparecia em duas versões: a versão gravada no Pennine Studios, mais rara, lançada até então apenas no lado B do single original (e depois resgatada para uma versão expandida de Substance), e um novo mix.

“HEART AND SOUL” (1997, London). Para fãs extremamente roxos do JD, essa caixa quádrupla tem praticamente todo o material de estúdio que havia surgido do grupo até então. Nos dois primeiros CDs, Unknown pleasures e Closer surgem expandidos com material de compactos e coletâneas. O terceiro CD traz faixas de compactos, demos e sessões de rádio – incluindo as demos de Ceremony e In a lonely place, gravadas um mês antes da morte de Ian Curtis (essas músicas seriam depois gravadas pelo New Order). O quarto CD tem só material gravado ao vivo.

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