Magie d’amour, música creditada ao compositor (francês?) Jean-Pierre Posit, é a queridinha de muitos sonoplastas de rádio e TV desde os anos 1970. Cai bem em orações de rádio AM, choradeiras televisivas, momentos que vão da emoção mais pura à total pieguice. Com certeza você já ouviu. Saca aí.

Quem tem idade para lembrar de novelas como Pecado capital (1975) e O astro (1977), se recorda que essa música aparecia sempre em momentos lacrimejantes das novelas. E aliás, não só dessas, como de outras. Matérias do Fantástico e do Globo Repórter (além de choraminguices da Record e da Band) também já lançaram mão da mesma canção. Isso deve ter rendido uma boa grana para Jean-Pierre. Que também é bastante conhecido por Shopping au boulevard, jazz fusion instrumental usado em comerciais de motéis, de casas de ferragens, de shoppings, vídeos motivacionais, etc.

O tal compositor “francês”, que gravou cinco álbuns entre 1975 e 1990, na verdade nunca nem existiu. Jean-Pierre Posit foi um nome criado pelo tecladista, produtor e compositor italiano Claudio Gizzi. Ele é o bigodudo da foto lá de cima, ao lado da menina oriental.

Claudio é um sujeito cujo currículo inclui discos de easy listening, experimentações com música eletrônica, e trilhas para filmes de terror como Blood for Dracula (1975), dirigido por Paul Morrissey e produzido por Andy Warhol. Che?, comédia de 1972 de Roman Polanski, também tem trilha de Gizzi.

Tem uma entrevista com Claudio aqui, na qual ele afirma ter deixado de fazer música para cinema porque a sétima arte passou a viver momentos ruins na Itália. “Depois da segunda guerra mundial, chegamos a um tempo menos favorável às nossas produções. O chamado ‘cinema de estilo’ desapareceu e a maior parte dos filmes italianos acabaram sendo comédias, ou obras divertidas e dramáticas. Isso além do trabalho de Fellini e alguns outros”, contou.

A solução que Gizzi arrumou foi fazer música mais comercial, que poderia ser usada em trilhas de TV. Daí surgiu o pseudônimo Jean-Pierre Posit, para rubricar uma fornada de “música romântica clássica, sonhadora e elegante”. Aliás, ele também se juntou com um amigo chamado Romano Musumarra e ambos também arrumaram outro pseudônimo, para fazer música eletrônica mais “agressiva”. O Automat foi um grupo de proveta que se uniu em torno do MCS70, sintetizador analógico monofônico desenhado, construído e programado pelo engenheiro italiano Mario Maggi, e que lançou um único disco há quarenta anos. Olha aí o álbum inteiro.

Cada metade do Automat ficou com um lado do disco. O lado A, com a longa faixa-título dividida em três partes, foi pra mão de Gizzi. Romano se encarregou das três músicas do lado B. Uma delas, Droid, virou tema do Jornal Eletrônico da Rede Globo, nos anos 1970.

Aproveite e fique aí com E la luce fu, composta por Claudio para o LP Atmosfere E Suoni Della Natura, com compositores italianos compondo temas progressivo-ecológicos.