Em 2005, o Animation World Network achou ninguém menos que Heinz Edelmann (1934-2009), o cara que fez os desenhos da animação Yellow submarine, dos Beatles. O artista checo foi a Nova York receber um prêmio da Escola de Artes Visuais local e recordou um pouco de sua carreira. E revelou que não tinha experiência com animação antes de encarar o filme dos Beatles.

Heinz morava na Alemanha nos anos 1960 e tinha se envolvido com um projeto maluco de protesto chamado A saudação nazista como símbolo fálico, que envolvia animações curtas e “pessoas de um braço só, carregando o braço num estojo de violino”, como lembra. “O projeto nunca nem foi realizado, filmei um minuto e vi que não tinha experiência”, conta.

Quem levou Heinz para trabalhar no filme foi o diretor de efeitos especiais, Charles Jenkins. Ele era casado com uma garota alemã que viu o trabalho de Heinz como ilustrador em revistas do país. Edelmann diz ter sido procurado pelo chefe de Jenkins, George Dunning. Ele disse a Edelmann que o filme já tinha personagens e cenários criados, e que fora isso, ele faria tudo, responsabilizando-se pelas “coisas estranhas que ele já fazia”.

O problema é que na época, fim dos anos 1960, era enorme o desgaste das relações em qualquer coisa que envolvesse os Beatles – com direito a sumiços de profissionais contratados, grana entrando e saindo a rodo, gente completamente desfocada, demandas pessoais tomando o espaço de questões de trabalho, etc. Edelmann diz ter passado dois meses frustradíssimo porque ninguém tomava uma providência em relação ao roteiro. “Eles começaram a fazer um storyboard e o abandonaram, e consideraram dezenas de pessoas para fazer um novo roteiro. Finalmente o dia da apresentação ao produtor rolou. Só que como eram todos ingleses arquetípicos, eles seguiram religiosamente a tradição do fim de semana longo”, contou ao site.

Ou seja: no fim de semana, havia muito trabalho pela frente. “Me falaram: ‘Faça algo no fim de semana, faça Davy Jones Locker (uma sequência que mais tarde evoluiu para o Mar de Monstros)‘. Por alguma razão, achei que era uma ideia muito odiosa. Há um personagem similar da cultura alemã chamado Klabautermann (um espírito que protege navios) que eu sempre odiei. Eu simplesmente não gostei da ideia”. No lugar, Edelmann preferiu concentrar-se na criação dos Blue Meanies e da luva voadora. “Dei a ela propulsão de jato. De alguma forma, para seu crédito, o produtor (Al Brodax) gostou”, contou.

Na época, recorda Edelmann, havia a ideia de fazer com que Yellow submarine fosse um filme em live-action (“nunca gostei disso, animação e ação são coisas separadas”, afirma). A equipe queria aproveitar o fato de Jenkins ter uma câmera especial para fazer isso. Difícil imaginar esses avanços no caso de uma produção tão caótica e mal mapeada. Para resolver o que considerava como furos do roteiro, Heinz projetou Yellow submarine como vários filmetes interligados.

“Eu me demitia a cada duas semanas, até que ninguém levasse mais a sério as demissões. Acho que metade do orçamento do filme foi para um pub no qual os animadores antigos bebiam bastante. Escreveu, não leu, todos estavam no pub às três. Todo mundo voltava ao trabalho e às seis, shoop, todos eles magicamente desciam. Eles quase não comiam, eles apenas bebiam”, recorda. “Não havia roteiro, o que foi um pouco enervante. Eu tive que fazer tudo da minha cabeça. Eu nunca poderia voltar e refazer nada. Ele só tinha que ficar daquele jeito. Isso, depois de um par de semanas, provou ser bastante tenso”.

Por causa do trabalho em Yellow, Heinz passou noites e noites sem dormir, desenvolveu problemas circulatórios e precisou baixar hospital assim que terminou o trabalho. Em meio aos trabalhos, misturou referências malucas (o discurso do chefe dos Blue Meanies foi inspirado nas arengas do Grande ditador, de Charlie Chaplin) e espantou-se com o desinteresse dos próprios Beatles pelo filme.

Heinz Edelmann: o criador de Yellow Submarine num papo sobre o filme

A banda tinha um contrato de três filmes com a United Artists (dos quais fizeram parte Help! e A hard days night) e precisava basicamente encerrar o acordo. Na busca por um projeto, chegaram a falar num faroeste chamado A talent for loving e num filme bizarro chamado Shades of personality, em que um infeliz interpretado por John Lennon sofre de tripla personalidade (com os outros três beatles dando vida a cada uma delas). Para se livrarem da obrigação, fizeram o desenho e filmaram aquela sequência pequena do final em que os quatro aparecem.

“Durante a produção, eles estavam mais ligados a Magical mystery tour. Eu vi parte do filme na sala de corte. Eu percebi que não era algo para ser tão bem sucedido. Eles eram garotos brilhantes, mas você simplesmente não faz um filme como esse, você não entra em outra profissão”, recorda Edelmann, que foi criando Yellow submarine inteirinho sem ter algo para mapear, e quando deu por si, não havia edição: tudo o que ele fazia estava sendo aproveitado, numa espécie de experimento de improvisação com métodos avacalhados. Anos depois, Yellow submarine foi restaurado e reeditado em VHS e DVD com um monte de cenas que o próprio Edelmann tinha tirado.

E é isso. Depois do filme dos Beatles, Edelmann fez diversos trabalhos e chegou a montar uma empresa com Jenkins. E também desenhou anúncios para os pianos elétricos Fender Rhodes. Olha aí dois deles.

Heinz Edelmann: o criador de Yellow Submarine num papo sobre o filme

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