Vimos outro dia aqui no POP FANTASMA que o “espírito de Woodstock” tomou conta até da galera gospel – com direito a um festival, a Explo 72, que chegou a ser chamado de “Woodstock de Cristo”. No caso do Harlem Cultural Festival, que rolou também em 1969 como o de Woodstock, é até (muita) sacanagem chamá-lo de “Woodstock negro”, ou “Woodstock do soul”. Primeiro porque ele começou pouco antes da feira de música jovem de Nova York, e terminou pouco depois (foi de 29 de junho a 24 de agosto). Segundo porque a escalação incluiu pelo menos um nomão (Sly & The Family Stone) a cantar nos dois eventos.

O line-up trouxe, além do grande Sly e sua banda, Stevie Wonder, Nina Simone, 5th Dimension, Mahalia Jackson, Hugh Masekela, o reverendo Jesse Jackson (e o espírito cristão da Explo 72 não estava tão distante assim, ora essa), Gladys Knight and The Pips e outros. Olha o cartaz aí.

Harlem Cultural Festival

Os shows do Harlem Cultural Festival rolaram às tardes no Mount Morris Park, no Harlem, e contaram com a segurança dos Panteras Negras. A ideia era promover a cultura negra numa época de racismo e conflitos MUITO intensos, que culminaram em mortes como as de Malcolm X (fevereiro de 1965) e Martin Luther King (abril de 1968). O site Voices Of West Anglia, que desencavou a história, conta que os concertos rolaram de forma pacífica, com mais de cem mil presentes, e que a polícia de Nova York se recusou a cuidar da segurança do festival – daí a presença dos Panteras na segurança.

Ao que consta, o produtor Hal Tulchin cobriu todo o Harlem Cultural Festival e tentou vender o material para estações de TV, mas não houve interesse. Tem mais de 50 horas de filmes que nunca foram vistos. Mas rolam alguns vídeos na web. Olha aí um trecho do show de Sly & The Family Stone.

Quando a palavra “empoderamento” é acompanhada de música sublime: o show de Nina Simone no festival.

UPDATE EM 2019: A Rolling Stone recentemente publicou uma reportagem detalhada comemorando os 50 anos do evento. Contou toda a história do festival, e revelou que Tony Lawrence, o organizador, tinha a ideia de fazer uma segunda edição em 1970, e transformar o Harlem Cultural Festival num evento itinerante. Não deu certo, por total falta de verba, e porque logo em seguida Lawrence estaria envolvido numa história pra lá de mal contada sobre supostas trapaças e puxadas de tapete que levou dos seus sócios. Por fim, vai sair um documentário sobre o festival em 2020, finalmente aproveitando as imagens feitas por Tulchin.