Em 1977, ano em que o punk se levantou de vez, já havia uma banda lançando as bases para o hardcore. Era o (talvez você saiba) Fear, de Los Angeles. Fazendo um som bastante agressivo, o grupo até hoje é liderado pelo casca-grossa Lee Ving, que é seu único integrante constante. E em outros tempos, deu emprego a ninguém menos que Flea, antes de ele ir tocar baixo no Red Hot Chili Peppers.

Não era especificamente o tipo de grupo que faria bastante sucesso na TV e venderia milhares de cópias, mas o Fear até hoje é lembrado por vários fãs da antiga por sua aparição no… Saturday night live em 1981, no episódio de Halloween. Sucesso massivo na telinha, exibido pela NBC, o programa acabou recrutando o Fear por causa de um dos nomões da atração, John Belushi, que ficou fascinado pelo som e pelas letras deixa-que-eu-chuto da banda. E como isso foi acontecer?

Se estiver sem saco de acompanhar o texto, tem esse pequeno vídeo aqui, com legendas em inglês, explicando toda a história. Se quiser continuar lendo, só seguir.

Um dia, a diretora de cinema Penelope Spheeris esbarrou com Ving colando cartazes de shows em postes telefônicos de Los Angeles e acabou convidando o músico (e o Fear) para participar de um documentário sobre a cena punk de Los Angeles, The decline of Western Civilization. A cineasta era casada com o chefe do selo Slash, Bob Biggs, que acabou contratando o Fear. O grupo lançou seu primeiro disco, The record, por lá, em 1982.

Belushi, por acaso, viu o filme e se tornou fã da banda. Tão fã que passou a seguir os shows do grupo e, depois de várias apresentações, chegou neles e propôs uma parceria. O ator estava trabalhando com destaque na comédia Estranhos vizinhos, de John G. Avildsen, e propôs a eles que fossem ao Cherokee Studios gravar músicas para serem usadas na trilha sonora. O material do Fear, com Belushi nos backing vocals, foi sumariamente rejeitado pelos produtores do filme e ficou inédito até 2016, quando saiu em single.

Puto da vida com a recusa, Belushi disse a Ving – que se tornara seu amigo – que usaria sua influência para escalar a banda num especial de Halloween do SNL, para “assustar” o público. Mas não foi só o público que ficou assustado, não.

Primeiro porque o Fear não foi sozinho: a banda recrutou uma turma de amigos para subir no palco e dançar como se dançava nas festas punks de LA. Estavam lá chegados como Ian Mackaye (Minor Threat), Harley Flanagan (Cro-Mags) e o próprio Belushi. Essa turma, pra lá de Bagdá, tocou o zaralho não apenas no palco como nos bastidores, destruindo uma das câmeras, duas das salas e causando prejuízos de mais de dois milhões de dólares. Belushi, que não estava programado para subir no palco com o grupo, se propôs a dançar com eles para dar uma cara mais familiar (ai) ao número.

Segundo porque a banda já abriu sua performance berrando “é muito bom estar em Nova Jersey” (o programa, evidentemente, era gravado em Nova York), o que horrorizou os caciques da emissora. O grupo tocou três canções: I don’t care about you, Beef Bologna e New York’s alright if you like saxophones. Quando um integrante da comitiva gritou “Nova York é uma merda”, num dos microfones, cortaram a transmissão. O Fear desceu do palco banido do programa. Mais: alguém da turma jogou uma das abóboras que enfeitavam o palco num dos diretores do programa – justamente um sujeito que não queria que Belushi estivesse no palco.

“Foi uma performance musical nossa, nada desastrosa. Se não fosse por John, nunca teríamos tido essa oportunidade”, alegrou-se anos depois Ving. Sei lá: o New York Post publicou um relatório na época dizendo que a equipe do programa ficou com medo do Fear (opa). “O produtor Dick Eversol tentou levar os músicos à Sala Verde, na esperança de reprimi-los. Em vez disso, eles destruíram o local”, escreveram lá. No artigo, havia também citações de um técnico anônimo da NBC: “Estou nesse ramo há anos e nunca vi nada assim. Era um caso de risco de vida. Eles enlouqueceram. É incrível que ninguém tenha sido morto”, afirmou.

“Tem como ver o vídeo?”, você pode estar se perguntando. Claro que tem. Não dá uma vontade enorme de estar ali e sair com uma perna ou um braço quebrados?

Via Far Out Magazine