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Cultura Pop

Entrevista: Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá e a turnê de “Dois” e “Que país é este”

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Entrevista: Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá e a turnê de "Dois" e "Que país é este"

Sem a Legião Urbana, eu (Ricardo Schott, que faço este site) poderia não ter conhecido: Metal box, o segundo disco do Public Image Ltd, Comsat Angels, Stranglers, It’s alive, disco ao vivo dos Ramones, Young Marble Giants, Grateful Dead, Joy Division, Buzzcocks, Gang Of Four. Eram todos personagens que apareciam em entrevistas da banda. E foram influências na elaboração de discos e músicas que se tornaram verdadeiros clássicos – como Dois (1986) e Que país é este (1987), agora prestes a serem relembrados por Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria) em uma nova turnê.

Dessa vez, a tour de Marcelo, Dado e de Lucas Vasconcellos (guitarra), Roberto Pollo (teclados), Mauro Berman (baixo) e André Frateschi (voz) chega também aos Estados Unidos – têm datas dias 6 e 7 de setembro em Miami. A ideia é comemorar as três décadas de outros dois discos do grupo – como já havia sido feito com a estreia de 1985 -; recolocar a música da Legião e a poesia do vocalista Renato Russo de volta no palco (evidentemente, Eduardo e Monica e Faroeste caboclo, ambas compostas apenas pelo cantor morto em 1996, estão no roteiro) e manter de pé a comunhão entre o repertório e os fãs.

Entrevista: Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá e a turnê de "Dois" e "Que país é este"

Bati um papo com Dado e Bonfá para o jornal O Dia, onde trabalho, sobre a nova tour e sobre outros assuntos – entre eles, a fitinha K7 com o kit-press de Dois, que ressurgiu recentemente no YouTube, e da qual falamos. A ideia é que, em algum momento, o repertório de As quatro estações (1989) seja também relembrado. A íntegra da conversa segue aí.

Você vão fazer um show em Miami nessa nova turnê. Como é levar a música da Legião para fora do país?
DADO VILLA-LOBOS: Fizemos isso na turnê anterior também. É bacana sair daqui e expandir as fronteiras. Dessa vez vamos tocar num teatrinho num hotel lá, um projeto local lá de um amigo de Itaboraí de muitos anos atrás. Ele está com esse projeto, o Sounds of Brazil. E ele tá levando artistas, já foram Vanessa da Mata, Paulo Ricardo, Paula Toller…

Como tá sendo revisitar o repertório do Dois e do Que país é este? Vocês consideram essas músicas atuais? Fábrica falava de direitos dos trabalhadores, uma assunto que está mal resolvido até hoje…
DADO: Acho que são músicas absolutamente atuais, tanto questões mais panfletárias e políticas como Fábrica e Metrópole, ou Índios. A situação de Fábrica e Metrópole não mudou muito ao longo dos anos: as fábricas continuam lançando fumaça, as filas nos hospitais continuam se alongando… Mas tá sendo revigorante revisitar esse repertório. Estamos fazendo as canções ressurgirem de forma intensa.

Vão ter modificações nos arranjos?
MARCELO BONFÁ: A gente não gosta muito de modificar arranjos. Eu e o Dado estávamos no processo de composição desde sempre, e ele era dedicado, intenso. Vamos trazer esse trabalho mesmo. Nossos elementos dentro da música da Legião Urbana já foram estabelecidos e estão muito bem aceitos. O mais claro é que vamos executar os dois discos em comemoração a esse momento da Legião. É uma carga que significa muito para mim e para o Dado, trazemos isso dentro da música. Vamos alinhavar as músicas com o que a gente ouvia na época. Vai ser uma experiência sensorial.

E o que vocês ouviam nessa época?
DADO: Eu estava ouvindo na época João Gilberto e Killing Joke! Mas o Renato um dia me deu um fita K7 com muito Cat Stevens, Neil Young, Paul McCartney… Tudo com muito violão. O propósito dele era: “Vai aprender a tocar violão, porque vai ter muito violão aqui”. Mas ao mesmo tempo tinha muitas guitarras, arranjos harmônicos indo além dos três, quatro acordes. Alguns intervalos de sétimas e décimas, tipo Andrea Doria.

Na época do Dois saiu uma entrevista com o Renato na revista de Domingo, do Jornal do Brasil, e numa foto ele aparecia com um disco que, anos depois, fui descobrir que era do Jonathan Richman, do Modern Lovers (era It’s time for… Jonathan Richman and The Modern Lovers, de 1986).
DADO: Não lembro de ele mostrar isso para a gente, não! Eu conheci Modern Lovers quando os Sex Pistols gravaram Road runner. Mas fui ouvir a banda recentemente.

Dois envolveu muita experimentação. Como foi o trabalho em estúdio?
BONFÁ: O primeiro disco veio meio que pronto, né? Já o segundo é aquele desafio, porque tem que fazer músicas novas. A gente teve expectativas, do tipo: “Vou me violentar?”, “É isso mesmo que tô fazendo?”. E claro que tem o cronograma da gravadora. A gente estava numa rotina completamente desregrada na estrada. E tinha que dar uma parada pra fazer o disco, e não dava uma parada. Aproveitamos todo o tempo no estúdio, nada era desperdiçado. De repente eu fazia uma nota, aquilo virava uma ideia, a gente falava uma coisa e aquilo virava uma letra… Tínhamos dificuldades, mas elas vinham das nossas limitações. A gente vinha do punk, eu estava a fim de ser barulhento e sujo.

Qual foi a daquela fita cassette da EMI com uma entrevista com vocês, em 1986?
DADO: Aquilo foi para apresentar a banda e o segundo disco. Nos apresentávamos, dizíamos quem éramos e discorríamos sobre o disco para todas as rádios. Se uma rádio quisesse apresentar aquilo como se fosse um programa, ela iria divulgar a banda e a essência do disco.

Vocês imaginavam que aquilo fosse virar uma raridade? A apresentação da banda depois virou a Riding song, do disco Uma outra estação, e tinha até demos da banda ali junto…
DADO: Sério que tinha demos? Nem me lembrava.
BONFÁ: A gente nem tinha tempo de pensar nessas coisas. Imagina: “Ah, vamos mudar tudo…”

Tinha na fita um trecho da demo de Andrea Doria, em que vocês apareciam em posições trocadas, cada um tocando um instrumento diferente do que estava acostumado.
DADO: Eu lembro! A gente estava no estúdio Tok, em Botafogo, o estúdio do Chico Batera. Lembro da gente começar a fazer essa música nesse lugar aí. Teve Daniel na Cova dos Leões, a linha de baixo do Negrete junto com uma Lynn drum, um teclado.
BONFÁ: Não se desperdiçava nada. As próprias letras já passeavam no meio das bases.
DADO: O Dois tem muita sobra de estúdio, tem uma versão de Juízo final, do Nelson Cavaquinho…

Era para ser um disco duplo chamado Mitologia e intuição, certo?
DADO: É, e Juízo final não ia caber em nenhum dos lados por conta do espaço de cada lado.

Lembro de ter lido que essa música ganhou uma versão meio Joy Division… Chegou a ser gravado?
DADO: Isso, começava com um violão e depois ia para uma coisa nesse estilo. Tá tudo gravado, tá registrado nos tapes que estão com a gravadora, que hoje é Universal. Tínhamos a ideia de fazer o mesmo projeto que a gente fez no primeiro disco (1985), quando fizemos uma edição comemorativa com outtakes. No Dois, teríamos Juízo final, O grande inverno na Rússia… Tem uma versão de Fábrica em inglês. Não vai rolar porque a companhia de discos se desinteressou. Acho que a gente precisava de mais likes no Instagram para conseguir coisas assim (risos).
BONFÁ: A gente se quiser fazer outras coisas, tem tanta coisa para fazer: festejar o Dois, o três, o quatro…
DADO: A gente pensa em fazer um show também para o As quatro estações, mas aí tem que ver quando, onde, como…

O Que país é esse, por sua vez, foi feito numa época em que a banda entrou em estúdio – o Renato disse isso numa entrevista – e em seguida desistiu porque não queria lançar qualquer coisa…
BONFÁ: O disco cumpre vários papéis. São músicas com as quais a gente convive desde sempre, desde o Aborto Elétrico. Quisemos tentar nos divertir, cumprir um cronograma, ter tempo para respirar, já que a gente sabia executar aquelas músicas como ninguém. Também aproveitamos bastante o estúdio, tivemos tempo de falar: “Vamos botar um delay aqui, essa caixa não é tão simples…”
DADO: A gente entrou em estúdio sem ter energia e força para fazer um disco (Renato estava em crise criativa e o disco que se tornou Que país é este quase foi um álbum chamado Disciplina e virtude, abortado). Aquele era um repertório que a gente já conhecia, Foi divertido e fácil de fazer. Gravamos em 15 dias e mixamos em 15 dias. A gente bateu um recorde, acho. Saiu no Natal.

Como é executar Faroeste caboclo hoje em dia?
BONFÁ: A música tá perfeita, né?
DADO: Tá igual como tá no disco. É a história do Brasil rural e urbano…
BONFÁ: Fui tocar em Brasília esses dias, passei na Rodoviária e meu filho, João Pedro, me perguntou: “Foi aí que o João de Santo Cristo chegou, né?” Respondi: “Pô, deve estar chegando João de Santo Cristo aí todo dia!” Ela rola nos shows porque todo mundo pede. A gente sempre pergunta: ‘O que vocês querem ouvir?’. E respondem: ‘Toca Faroeste!'”.

Na época muita gente perguntava para vocês sobre uma aproximação com o sertanejo via Faroeste, e o estilo não era exatamente um lado A da música brasileira. Como vocês viam isso?
DADO: Sertanejo para a gente era Milionário e Zé Rico, música do sertão, viola de 10 cordas…
BONFÁ: Faroeste tem uma coisa de baião. Isso tá no sangue, apesar de a gente não ser músicos típicos. Eu sou um cara bem limitado, gosto de rock n’roll. A música tem vários elementos rítmicos, tem até reggae. E tudo surgiu naturalmente, não teve um: “Vamos fazer isso, aquilo”. Demos uma dinâmica para a música.
DADO: Ela era só voz e violão!
BONFÁ: Mas eu acho que Faroeste caboclo é Faroeste caboclo, não dá pra comparar com nada.

E como é tocar hoje nessa época em que o jogo virou e o sertanejo agora é meio filho de vocês, já que os novos artistas ouviram muito rock nacional e alguns até tocam sucessos do rock brasileiro nos shows?
DADO: Tocam músicas da gente?

https://www.youtube.com/watch?v=U1NXaVzHrD4

Tocam. Jorge e Mateus também tocam Capital Inicial, Jads & Jadson tocam Pitty…
BONFÁ: Bom, tá faltando música no mercado, né? Na verdade são músicas boas, isso é inegável.
DADO: É que nem o axé. O cara toca Los Hermanos, Anna Júlia, toca Será

E como vão as conversas com o filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, em relação ao uso do nome Legião Urbana?
DADO: A gente tentou acordos em alguns momentos. Desde que o Renato partiu, a gente vem sofrendo de alguma forma nesse sentido, não só da marca como também em relação a lançamentos de discos que estavam na gravadora ainda inéditos… Sempre havia alguma briga, algum desentendimento. Nunca tivemos esse espírito corporativo que outras bandas têm, em que todos vão lá e se preservam. É uma questão menor, o advogados estão resolvendo. Esse negócio de marca… É marca de quê? De telefone?
BONFÁ: Nosso propósito sempre foi música e e hoje a gente precisa de advogados para traduzir esse juridiquês. Essa situações estão no meio de coisas que atingem diretamente minha vida, né?

A música de hoje virou um monte de números, não?
BONFÁ: Bom, primeiramente a gente fazia música para a gente. Tinha um propósito maior aí, que é minha própria individualidade. Você tem que ter boas ideias, estar receptivo, querer alguma coisa. Eu não funciono na porrada, não vem nem impor alguma coisa para cima de mim. Nem ninguém da banda é assim.
DADO: Os nossos números são muito bons. Mas são números que vieram por conta do que a gente foi e continua sendo na cultura musical brasileira, o que representamos para as pessoas que ouvem aquilo nos mais variados momentos da sua vida.

Na turnê de 30 anos do primeiro disco, vocês fizeram show no Circo Voador com matinê para pais e filhos. Vai rolar isso?
BONFÁ: Vamos ver. Isso de ter pais e filhos se repetiu a turnê inteira. Teve show em que duas da manhã tinha criança de dez anos. A gente só não ficava mais preocupado porque a criança estava com os pais. Não tenho como não ficar mais feliz. Eu era turrão, era punk, revoltado, e isso quebra meu coração… E você não viu nosso camarim: era 80% criança.
DADO: Eu adoraria poder tocar num horário mais saudável, tipo dez, nove da noite. É muito cruel subir num palco uma hora da manhã. O público já tá cansado, bêbado…
BONFÁ: Sempre fica nítido que as prioridades são… Bom, o que importa é a grana, vamos botar a turma para beber e a banda para tocar.

Tem um filme vindo aí sobre Eduardo e Monica. O que sabem a respeito?
DADO: Não tô sabendo absolutamente nada.
BONFÁ: Não é uma propaganda de telefone?
DADO: É, tinha a propaganda da Vivo, né?
BONFÁ: É como aconteceu com Faroeste caboclo: o filme já tá pronto na letra. Mas a gente sempre se decepciona no final. A gente entende a visão do Renato, tem uma visão de como a música foi construída, e vem aí um cara querendo colocar um monte de informação extra, tornar a coisa mais hollywoodiana. O cara vai pra um caminho e desvirtua a coisa toda. Espero que não façam isso com Eduardo e Monica. Eu sei quem eles são e já fui muito na casa deles.

(a foto lá de cima é Fernando Schlaepfer/Divulgação)

Cultura Pop

Tao Jones Index: o pouco lembrado projeto drum’n bass de David Bowie

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Lembra do Tao Jones Index? Vamos por partes. Com tanta oferta de festivais, muita gente provavelmente nem sequer se lembra que existiu o Phoenix Festival. Bom, não apenas existiu como foi uma espécie de evento “alternativo” de verdade, realizado entre 1993 e 1997 na Inglaterra – e que servia como contraponto para festivais que começaram como “diferentes”, mas que já estavam começando a virar móveis-e-utensílios do mainstream, como Reading, Glastonbury e Lollapalooza.

O Phoenix não é tido como um grande case de sucesso no mundo dos festivais. Era um evento de quatro dias, mas com duração restrita, em vez da política de quase 24 horas de música e uma-atração-para-onde-quer-que-você-olhasse, que já começava a virar padrão. No primeiro ano, 1993, as principais atrações foram Sonic Youth, Faith No More e Black Crowes. Havia um “palco zine”, com bandas como Buzzcocks, The Men They Couldn’t Hang e Pele (sim, uma banda britânica cujo nome foi inspirado no rei do futebol). Além de um palco “jazzterrania” onde até Gil Scott-Heron fez show. Em 1994 havia um palco com patrocínio da revista Melody Maker e até uma área de stand-up comedy.

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Um show, digamos, inusitado apresentado no Phoenix rolou em 1997 de maneira quase clandestina. David Bowie, anunciado como uma das atrações principais daquele ano, estava em plena turnê do disco eletrônico Earthling e decidiu fazer um apresentação “pirata” de seu projeto de drum’n bass Tao Jones Index na área BBC Radio1 Dance. Ao lado do cantor (voz, guitarra e sax), sua banda na época: Reeves Gabrels (guitarra solo), Gail Ann Dorsey (baixo, vocal, teclado), Zachary Alford (bateria, percussão) e Mike Garson (teclados).

O Tao Jones é um projeto geralmente pouco citado da história de Bowie, que chegou a render um disco – na verdade um single, com releituras gravadas ao vivo em Amsterdâ de duas faixas do catálogo do cantor, Pallas Athena (1993) e V-2 Schneider (1977). A tal apresentação no Phoenix incluiu músicas como Fame e O superman (Laurie Anderson). Foi um set curto, de sete canções, com Bowie e banda na escuridão, envoltos em gelo seco (diz o setlist.com) e pouco destaque para o cantor.

Existem alguns vídeos da noitada. Olha só!

Em 2020, Reeves Gabrels respondeu algumas perguntas no Twitter sobre o Tao Jones Index e matou as curiosidades dos fãs. O nome do projeto é uma brincadeira com o índice Dow Jones (um dos mais conhecidos indicadores do mercado norte-americano) e com o taoísmo – o Jones, claro, vem como referência ao sobrenome verdadeiro de Bowie. Os músicos usavam seus instrumentos sem amplificadores, direto na mesa de mixagem. O Tao Jones durou “por volta de uma meia dúzia” de shows. A brincadeira acabou porque perdeu a graça. “Os fãs preferiam pedir sucessos em vez de dançar”, reclamou Gabrels.

Mais: a versão de O Superman surgiu apenas porque Bowie queria usar os talentos da baixista Gail como cantora. Gabrels conta que o objetivo desde o começo era apenas promover um baile com o Tao Jones, e que nunca houve intenção de lançar um álbum do projeto – até porque o cantor, que vinha se metamorfoseando em artista de música eletrônica em discos como Earthling (1997), voltaria a fazer art rock e art pop em Hours (1999).

O jornalista John Mulvey, num texto sobre o TJI publicado na Uncut, recorda que o principal dessas iniciativas do cantor é que ele não tinha medo algum do fracasso. “O perigo de parecer idiota não era algo que parecesse incomodar Bowie indevidamente: para um homem habitualmente associado a um conceito elevado de cool, ele raramente tinha medo de colocar esse coolness em perigo. Na verdade, na única vez em que ele pareceu tentar se isolar de um possível constrangimento, acabou na Tin Machine”, escreveu.

E essas são as gravações do Tao Jones Index.

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Cultura Pop

Relembrando: New Model Army, “Vengeance” (1984)

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Relembrando: New Model Army, "Vengeance" (1984)

O New Model Army é dessas bandas originalmente ligadas ao pós-punk que, por associações, acabam sendo vistas como ligadas ao rock gótico e até ao metal. O grupo britânico, que acaba de passar pelo Brasil, sempre teve um público banger forte, e até mesmo o Sepultura releu sua música The hunt no disco Chaos AD, de 1993.

Igualmente, a sonoridade deles sempre se prestou várias definições. Esteve também próxima do punk, do pós-punk e até de uma certa renovação do folk-rock britânico. Mesmo que o som do grupo fosse marcado por palhetadas de guitarra e baixo, e por sonoridade ágil, o caráter “de protesto” das letras do vocalista e guitarrista Justin Sullivan sempre apareceu na frente, o que aproxima a banda do tom pastoril dos bardos de voz-e-violão.

Vengeance, primeiro álbum da banda britânica (selo Abstract, 4 de abril de 1984), já trazia todo esse receituário sonoro, além de outros elementos. O instrumento mais ouvido nas músicas do disco, e o que dava até mais identidade à banda na época, era o baixo de Stuart Morrow, principal parceiro de Justin nas composições. Morrow praticamente revirava as canções do avesso, inserindo solos tribais de baixo, e dando um aspecto jazz-funk-disco até mesmo aos momentos mais punk da banda. Ele deixou o grupo em 1985 e até hoje há quem diga que, mesmo com o sucesso que o New Model Army alcançaria depois, sua fase foi a melhor.

Existe certa discussão até hoje sobre se Vengeance é um álbum ou não – por ter duração reduzida e apenas oito faixas, ele foi entendido na Inglaterra como mini-LP até ser acrescido, em 1987, de mais nove faixas de compactos. Como LP curto (e gravado em sete dias!), é cheio de personalidade, feito numa época em que o grupo era um trio – além de Justin e Stuart havia Rob Heaton (bateria) – e com letras que pareciam prever desgraças futuras.

É o caso de Christian militia, de versos como “a milícia cristã está marchando agora/o ódio faz a adrenalina fluir (…)/aí vêm os cristãos, uma multidão histérica/adorando o diabo em nome de deus”. Ou A liberal education, uma pregação contra os anos de Ronald Reagan/Margaret Thatcher, que diz: “tire nossa história/tire nossos heróis/tire nossos valores”. Havia também Spirit of the Falklands, evocando a Guerra das Malvinas (“homens mortos no Atlântico Sul/é para aquecer nossos corações/eles pensam que morreram por você e por mim”).

Musicalmente, o tom punk e ágil das melodias era acompanhado pelo baixo marcial e palhetado de Stuart, e pelos vocais angustiados de Justin – como em Notice me, no punk classudo de Smalltown England, no tom quase folk-punk de A liberal education e no clima de guerrilha urbana de Vengeance e Sex (The black angel). Um disco feito para incomodar poderosos e abrir caminhos. Tanto que o segundo álbum, No rest for the wicked (1985), já saiu pela EMI.

Morrow, depois disso, deixou o grupo, e o New Model Army voltou como quarteto em The ghost of Cain (1986), o disco da famigerada 51st state – uma apropriação feita pelo NMA de uma canção gravada originalmente por uma banda chamada The Shakes, e que mais do que se tornar o maior sucesso do grupo britânico, ofuscou boa parte de seu trabalho anterior e posterior. Mesmo perdendo parte do brilho em discos posteriores (até pelas variadas mudanças de formação), o grupo se tornou com o passar dos tempos uma reencarnação do espírito combativo do punk original – o “rock de combate” do qual o Clash falava, em estado puro.

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Cinema

In-Edit Brasil 2024: 15 filmes que você não deve perder

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In-Edit Brasil 2024: 15 filmes que você não deve perder

Pena que o festival In-Edit Brasil, dedicado a documentários musicais, só rola em São Paulo. A 16ª edição do evento começa nesta quarta (12), vai até o dia 23, e acontece em diversas salas (com sessões gratuitas e até R$ 10), com mais de 60 filmes na programação, de diversos países. Além da variedade musical que sempre acontece todos os anos, muitos filmes só serão exibidos no Brasil graças ao festival, que já entrou para a lista de eventos favoritos de todo mundo que é viciado em música (e em detalhes sobre história da música, que são o combustível do evento).

Você fica sabendo de tudo que rola na edição 2024 do In-Edit aqui. Dá vontade, claro, de assistir aos 60 filmes, mas segue aí uma listinha bem pessoal de 15 produções que ninguém deve perder. Importante: plataformas parceiras do festival irão exibir alguns filmes – confira toda a programação delas aqui. E nem só de cinema vive o In-Edit: o festival tem uma prograação paralela que inclui encontros, master classes, debates, apresentações musicais exclusivas, sessões comentadas, a tradicional Feira de Vinil e, pela primeira vez, uma Feira de Livros, com centenas de títulos sobre música e cinema a preços especiais.

Devo
Chris Smith | Estados Unidos | 2024 | 95’
Poucas bandas conseguiram unir a crítica social e os hits radiofônicos como o Devo. Surgida em Ohio, a banda começou a se infiltrar na cultura pop americana com o hit Whip it. Sua história é contada através de um turbilhão de imagens de arquivo lo-fi, sequências de imagens rápidas e um ritmo vertiginoso. Filme de abertura do In-Edit Brasil 2024.

Black Future, Eu Sou O Rio
Paulo Severo | Brasil | 2023 | 77’
Eu sou o Rio, álbum de estreia do Black Future, esteve em todas as listas de melhores lançamentos de 1988. Sucesso de crítica, foi ignorado pelo público e nunca foi relançado. Com entrevistas feitas aos vinte anos de lançamento do disco, seus ex-integrantes e pessoas próximas esmiúçam a história da banda.

Black Rio! Black Power!
Emílio Domingos | Brasil | 2023 | 75′
Emílio Domingos se debruça sobre a cena dos bailes black surgida no Rio de Janeiro nos anos 1970. Com depoimentos de Dom Filó, figura fundamental no surgimento da cena, e de outros personagens, conhecemos uma história de afirmação que levava milhares de jovens pretos para dançar e cantar: “I’m black and I’m proud!”

Luiz Melodia – No Coração Do Brasil
Alessandra Dorgan | Brasil | 2024 | 85′
Injustamente taxado como “maldito”, Luiz Melodia foi um dos maiores artistas surgidos no Brasil. Através de diversas imagens de arquivo, ele conta sua trajetória, desde a infância nos morros do Rio de Janeiro, o início da música, passando pelo sucesso radiofônico, os conflitos com gravadoras e com o showbiz.

O Homem Crocodilo
Rodrigo Grota | Brasil | 2024 | 84’
Um dos expoentes da Vanguarda Paulistana, Arrigo Barnabé é o foco desse filme-experimento que aborda seus anos em Londrina, antes de se mudar para São Paulo. Com uma mistura de interferência sonoras e visuais, o diretor Rodrigo Grota apresenta o inconsciente estético na obra do criador de Clara Crocodilo.

Germano Mathias – O Catedrático Do Samba
Caue Angeli e Hernani de Oliveira Ramos | Brasil | 2023 | 70’
O paulista Germano Mathias se tornou ícone de um estilo musical que misturava muita malandragem e poesia. No filme, acompanhamos Germano contando sua vida, trajetória e nos trazendo lembranças de uma cidade que, se não existe mais, ainda está oculta de nossos olhares distraídos.

Moog
Hans Fjellestad| Estados Unidos| 2003| 70’
Robert Moog dedicou sua vida a pesquisar e difundir instrumentos eletrônicos, especialmente os sintetizadores modulares. Neste documentário, essa figura lendária compartilha suas ideias sobre criatividade, design, interatividade e espiritualidade. Filme vencedor do In-Edit Barcelona 2004.

Na Terra De Marlboro
Cavi Borges | Brasil | 2024 | 50’
DJ Marlboro é, para muitos, o criador do funk carioca e até hoje é um dos principais divulgadores do gênero. Habitué do In-Edit Brasil, o diretor Cavi Borges conta sua trajetória com depoimentos dados pelo próprio Marlboro e muitas imagens de arquivo.

Carlos
Rudy Valdez | Estados Unidos | 2023 | 87 min
O filme narra a vida do virtuoso guitarrista Carlos Santana, desde a infância até o estrelato internacional, entrelaçando entrevistas com o protagonista e sua família com imagens de arquivo recém-descobertas, além de sua lendária apresentação em Woodstock.

In Restless Dreams: The Music Of Paul Simon
Alex Gibney | Estados Unidos | 2023 | 210’
O diretor Alex Gibney nos convida a uma profunda viagem através do universo de Paul Simon. Enquanto acompanha a gravação do novo álbum do artista, Seven psalms, o filme traz uma longa narrativa sobre sua carreira, iniciada ao lado do cantor Art Garfunkel, e sua vida pessoal.

Joan Baez: I Am A Noise
Karen O’Connor, Miri Navasky, Maeve O’Boyle | Estados Unidos | 2023 | 113’
Joan Baez esteve na primeira linha do folk norte-americano em seu momento mais vibrante. Figura presente nas manifestações pelos direitos humanos, esteve ao lado de Bob Dylan, em uma relação pouco entendida. Aos 80 anos, ela conta suas memórias, faz algumas confissões e fala de sua vida atual.

Karen Carpenter: Starving For Perfection
Randy Martin | Estados Unidos |2023 | 99’
Karen Carpenter ajudou a fazer a banda The Carpenters um dos grupos pop de maior sucesso dos anos 1970. Sofrendo de anorexia nervosa e bulimia, faleceu aos 32 anos. Este filme nos mostra sua busca pela perfeição e a dinâmica familiar que a levou ao seu trágico destino.

Let the Canary Sing
Alison Ellwood | Estados Unidos, Reino Unido | 2023 | 96’
Documentário vigoroso e alegre sobre a estrela pop dos anos 1980, Cyndi Lauper. Desde as suas origens humildes até à criação da sua própria personalidade de palco – excêntrica, desbocada e deliberadamente ingénua – que a catapultou para a fama.

Simple Minds: Everything Is Possible
Joss Crowley | Reino Unido | 2023 | 88’
Simple Minds é um dos ícones do rock dos anos 1980, mas poucos conhecem a história de amizade por trás de tudo. Da infância pobre em Glasgow, aos palcos mais famosos do mundo, Jim Kerr e Charlie Burchill sempre estiveram juntos. Além deles, diversos astros da música contam o impacto do grupo em suas vidas.

The Stones & Brian Jones
Nick Broomfield | Reino Unido | 2023 | 93′
Brian Jones tinha muitas facetas e ninguém ficava indiferente a ele. Neste documentário, o aclamado diretor Nick Broomfield desvenda a história do ícone dos Rolling Stones que terminou misteriosamente seus dias no fundo de uma piscina, com apenas 27 anos de idade.

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