A banda mineira Sepultura ganhou o mundo, e tudo mudou no heavy metal brasileiro. Em 1988, o guitarrista e vocalista Max Cavalera fingiu que era funcionário de empresa aérea para conseguir ganhar uma passagem de avião. Em seguida, foi a Nova York levando 30 LPs da banda. Bateu de porta em porta oferecendo o trabalho.

A RoadRunner, uma das gravadoras que receberam o material, não estava muito certa sobre se aquela banda (que vinha se destacando em publicações nacionais e estrangeiras) tinha mesmo algo a oferecer, mas pegou assim mesmo. Ofereceu um contrato de sete discos e sugeriu o produtor americano Scott Burns, que cuidou da gravação de Beneath the remains (1989, primeiro disco do Sepultura pelo selo) a um preço mais ou menos acessível.

Arise, que sairia em 25 de março de 1991, já trazia o Sepultura mais experiente em turnês pelo mundo e mais escolado no trato com produtores estrangeiros. Inicialmente a banda anunciou que seria um disco “rápido e pesado”, na linha do hit Inner self, de Beneath. Max, Iggor Cavalera (bateria), Andreas Kisser (guitarra solo) e Paulo Jr (baixo) trancaram-se no estúdio e saíram de lá com um disco que deixava transparecer influências de hardcore, de metal lento à moda do Black Sabbath e que misturava tons épicos à batida do thrash metal. Arise e Dead embryonic cells, os dois primeiros singles, mostravam bem isso.

O público brasileiro, por sua vez, queria conferir Arise tão rápido que chegou a sair uma edição de rough mixes, para comemorar o show da banda no Rock In Rio, em janeiro de 1991. O Sepultura gerava tanta mídia (e parecia tão disposto a que todo mundo conhecesse o som deles), que fez um turbulento show para 30 mil pessoas na Praça Charles Miller, em São Paulo, antes da turnê europeia daquele ano. Por sinal, o Ratos de Porão também foi contratado pela Roadrunner e lançaria dois discos pelo selo, mas não chegou a conquistar o mesmo sucesso (“só havia lugar para uma banda de jungle boys”, reclamou João Gordo).

O sucesso do Sepultura beneficiou o selo mineiro Cogumelo (que continuava vendendo os primeiros álbuns da banda, num espelho do que aconteceria com os pequenos selos da onda de Seattle) e provocou uma pequena revolução no rock brasileiro. No começo dos anos 1990, uma espécie de nova onda de metal tomou conta do país, com vários grupos cantando em inglês, pelo menos um nome pesado contratado por um selo grande (a banda carioca X-Rated, que gravou um LP pela Polygram em 1991) e várias outras bandas de som alternativo também dedicadas ao idioma. Quanto ao grupo mineiro, impossível não saber, já existe há mais tempo com Derrick Green nos vocais do que com Max, e passou por boas reinvenções de carreira até hoje.

Outros discos de 1991 aqui.
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