Exibida entre 1984 e 1985, época em que havia ainda novelas das oito (hoje, você sabe, elas são das 21h), “Corpo a corpo”, de Gilberto Braga, marcou época na teledramaturgia da Rede Globo por algumas razões. Foi a primeira novela de Selton Mello na emissora do Jardim Botânico, tinha como casal “jovem” uma adolescente Malu Mader (em sua segunda novela, aos 17) e um veterano Lauro Corona (com quase uma década de carreira e 26 anos), obrigou o telespectador a encarar a questão do preconceito racial (nas peles de Marcos Paulo e Zezé Motta, um dos principais casais da novela), muita coisa.

O enredo tinha uma receita básica que Gilberto Braga repetiria em “Vale tudo” (1988), de falar de personagens que teoricamente fazem de tudo para se dar bem. Por acaso as duas novelas tinham Antonio Fagundes como nervo exposto dessas situações. Em “Vale tudo”, ele era o ambicioso Ivan. Em “Corpo a corpo”, ele era um sujeito mais tranquilo, Osmar Pellegrini, casado com Eloá (Débora Duarte). Ambos eram engenheiros e trabalhavam na mesma firma, mas Eloá (que está em um cargo inferior ao do marido) deseja MESMO subir na vida. Tanto que não hesita em fazer um pacto com um suposto emissário do coisa-ruim para chegar lá.

Você pode não lembrar disso, mas marcou época: o tinhoso da novela era um sujeito enigmático chamado Raul, intepretado por ninguém menos que Flavio Galvão. Com o tempo, tudo vai se revelando uma enorme cascata, mas graças a uma série de situações difíceis de explicar (mortes misteriosas, brigas em família, etc), o personagem de Flavio Galvão acabou convencendo muita gente de que ele era mesmo o sete-peles. Até mesmo Eloá, que é promovida a presidente da empresa onde um dia esteve em um cargo subalterno (obviamente ela não só já não estava mais com o marido, como ele já tinha ido para o olho da rua), mas depois – e só bem depois – resolve ver qual é a do Raul e porque é que ele tinha tanta influência sobre ela e sobre mais um monte de gente.

Àquela altura, já tinham aparecido personagens bem estranhos, como Teresa (Glória Menezes), uma mulher mais velha que um dia havia sido desprezada por Osmar e que havia jurado vingança. Raul, o catiço, promete que vai fazer Osmar se apaixonar de novo por ela, desde que ela mate o empresário Alfredo Fraga Dantas (Hugo Carvana), dono da firma em que Eloá trabalha. Vale citar que, indo para o aspecto musical da trama, a abertura tinha uma boa versão pós punk de “Tão beata, tão à toa”, do repertório de Angela Ro Ro, gravada por Marina Lima.

Uma das pessoas sobre as quais o demônio começou a exercer grande influência na trama foi Jalusa, que era interpretada por Rosane Gofman. A lembrança que eu tenho da novela é que Jalusa era uma pessoa normal, que depois ia se tornando cada vez mais místico – e adotava um visual gótico-black metal BEM de acordo com a época. Caindo direitinho naquela história de que Raul era realmente o diabo, ela virava, talvez, o mais próximo que os telespectadores de uma novela das 20h da Globo poderiam chegar de ver alguém possuído na tela da TV. O último capítulo da trama, então, meteu medo em muita criança na época, graças a um diálogo pra lá de maluco entre Jalusa e Zoraide (Renata Fronzi).

Olha aí, ó.

Um sujeito teve o trabalho de pegar a abertura da novela, colocar ao contrário e subir no YouTube.