Tudo considerado, dá para dizer que o heavy metal nasceu aí: o Blue Cheer, trio psicodélico da Califórnia que aterrorizou geral em 1968 com seu violentíssimo primeiro disco, “Vincebus eruptum” (o clipe da versão deles para “Summertime blues”, de Eddie Cochran, passava até na MTV brasileira nos anos 1990) gravou em 1967 uma demo, bancada por uma amiga chamada Nancy Winarick.

Essa demo foi parar nas mãos de um DJ da Califórnia: era Abe “Voco” Kesh, armênio radicado nos EUA, o da foto abaixo. Kesh trabalhava na KSAN AM, uma das primeiras rádios da região a valorizar o que era conhecido como “hippy music” e a tocar artistas relacionados à psicodelia e a sons da cultura black.

A rádio era completamente diferente da KSAN FM que existe hoje na Califórnia, vale dizer. Um dos DJs mais ilustres da KSAN foi um sujeito chamado Sylvester Stewart – que, você deve imaginar, depois se tornaria mais conhecido como Sly Stone, líder do grupo Sly & The Family Stone. Olha ele e sua banda aí, no festival de Woodstock em 1969.

Encurtando a história: Abe curtiu bastante a demo, que trazia basicamente material que estaria no primeiro disco da banda – eram três canções, “Second time around”, “Doctor please” e a própria “Summertime blues”, em vinte minutos repletos de improvisos, urros, distorções e microfonias. Gostou tanto que tocou a demo inteira na rádio, ficou amigo da banda e tornou-se empresário, produtor e guru de Dickie Peterson (voz, baixo), Leigh Stephens (guitarra) e Paul Whaley (bateria), que até aquele momento eram um sexteto, com teclados, gaita e mais um guitarrista – e haviam resolvido deixar só o essencial. Abe também arrumaria um contrato da banda com a Philips, por onde o Blue Cheer gravara toda a parte essencial de sua discografia – que vai até 1971.

E a novidade é que alguém achou a demo e colocou no YouTube. O mais aconselhável é ouvir esse som no último volume, antes que alguém tire a gravação de lá. Essa sonoridade, adorada pelos motociclistas de Los Angeles (especialmente os Hells Angels, já que Gut, um dos primeiros empresários do grupo, foi integrante do clube), gerou todo o rock pesado que viria depois. Não duraria muito tempo, já que o Blue Cheer cairia de vez na psicodelia e iniciaria certo namoro com o rock progressivo nos discos subsequentes – e viraria um grupo de hard rock mais formal a partir do quarto disco, o epônimo “Blue Cheer”, de 1969.

E o site Past Daily contextualiza um pouco o som que você ouve na demo. Não perca nenhum minuto.