Cultura Pop
Ave Sangria: baú dos anos 1970 aberto no novo disco

Dizem por aí que se você lembra dos anos 1960 e 1970, é porque não esteve lá. Marco Polo, vocalista do Ave Sangria, clássica banda de rock nordestina dos anos 1970, bateu um papo com o POP FANTASMA e citou exatamente essa frase. De qualquer jeito, muita coisa da época ficou nas memórias dele, de Paulo Rafael (guitarra solo) e Almir de Oliveira (guitarra), os três remanescentes do grupo. O repertório de Vendavais, segundo álbum do Ave Sangria (o primeiro, epônimo, havia saído em 1974), foi todo composto nos anos 1970 e ficou guardado nas cabeças dos músicos durante todo esse tempo.
Formado originalmente por Marco Polo (vocal), Ivinho (guitarra solo), Paulo Rafael (guitarra base), Almir de Oliveira (baixo), Agrício “Juliano” Noya (percussão) e Israel Semente (bateria), o grupo começou com o nome de Tamarineira Village – era uma referência ao bairro no qual ficava um hospital psiquiátrico conhecido no Recife. Conseguiram sair do circuito recifense e gravaram um primeiro disco pela Continental, mas a censura dos anos 1970 acabou atrapalhando o grupo. Seguidores de uma mistura de referências que incluía Led Zeppelin e Jackson do Pandeiro, os roqueiros estouraram justamente com um samba, Seu Waldir, que narrava a história de amor e desilusão de uma pessoa pelo personagem-título.
O problema é que a música, que já tocava no rádio, era cantada justamente por Marco Polo. A canção acabou censurada e o disco foi recolhido das lojas. O grupo achou mais seguro encerrar atividades. Marco foi se dedicar ao jornalismo, profissão que já tinha antes da banda, e os outros integrantes foram tocar com Alceu Valença – boa parte do Ave Sangria pode ser ouvida em Vivo!, disco ao vivo de Alceu lançado em 1976. Paulo Rafael, você deve saber, é guitarrista de Alceu até hoje.
Batemos um papo com Marco para lembrar histórias do grupo e saber um pouco da gravação do disco novo. Sabe aquelas lendas de que os músicos andavam armados com peixeiras e se beijavam na boca no palco? Lê aí que tem tudo explicado.
POP FANTASMA: O repertório do novo disco foi quase todo feito nos anos 1970. Ele estava guardado como? Nas memórias de vocês?
MARCO POLO (AVE SANGRIA): Tava na memória. Nenhum de nós deixou de fazer música. A gente se dedicou a outras atividades para sobreviver, mas continuamos fazendo pequenos shows. O repertório estava vívido na nossa cabeça e nunca morreu. A ditadura nos censurou mas não nos destruiu. É isso que a gente quer demonstrar.
Tem músicas que estavam censuradas? Não, porque a maioria delas não chegou nem a ser apresentada em shows. Só teve uma que foi censurada, Dia a dia, porque a censura achou que ela falava de posições sexuais. Depois de meia hora discutindo, convenci a censura de que se tratava de uma música feminista, que falava do homem por cima, a mulher por baixo, a mulher por cima, depois os dois iguais… (risos). Bom, tinha as duas coisas.
Você já trabalhava como jornalista antes do Ave Sangria gravar? Já, comecei até muito cedo, com 18 anos. Eu fiz muita coisa: já fui artesão, trabalhei na Feira Hippie de Ipanema, vendia bolsas, cintos, tapetes. Depois fui tradutor de livros de bang bang, aquelas edições que vendiam em bancas de jornal. Fui jornalista free lancer da editora Bloch, na Fatos e Fotos. Trabalhei na Fair play, acho que foi a primeira revista masculina que teve no Brasil. E fiz shows também. Fiz Projeto Pixinguinha, fiz um show de abertura para a Nara Leão no Teatro do Parque no Recife, uma turnê com Belchior por vários estados…
Isso já solo? Sim, como artista solo. Passei com ele por Rio de Janeiro, Salvador, Ilhéus, Recife, Maceió, Fortaleza. A partir de 2008 houve uma redescoberta do nosso trabalho através da internet. Os jovens começaram a descobrir o trabalho do Ave Sangria e começaram a querer shows da gente, Em 2008 a prefeitura do Recife convidou a gente para fazer um show no Pátio São Pedro, e a partir daí… Em 2014 conseguimos reunir a banda para um show comemorativo de 40 anos do nosso show de despedida, no Teatro Santa Isabel. Na verdade os sobreviventes da banda, que éramos eu, Paulo Rafael, Almir e Ivinho (que morreria em 2015). Daí já pulou para a ideia de fazermos o nosso disco novo, que foi gravado em 2018 no Rio de Janeiro.
Como foi fazer os últimos shows com o Ivinho? Ele fez o show do Santa Isabel e fez outro com a gente no Festival Psicodália em Santa Catarina. E logo depois infelizmente, morreu. Pelo menos ele voltou para a banda antes disso e teve o prazer imenso de ser ovacionado como o grande guitarrista que ele era. O povo adorava o Ivinho, ele era a estrela maior da banda.
Ele não vinha tocando antes disso, né? Sim, tava meio parado. Ele teve problemas, tomou muitas drogas, isso deixou o Ivinho meio perturbado, com lesões cerebrais sérias. Ele bebia muito também. Só quando conseguimos frear um pouco isso, ele voltou a produzir satisfatoriamente, voltou a tocar de forma genial. Mas estava muito lesionado em termos de saúde.
Vocês chegaram a tocar no Paebiru, o disco do Zé Ramalho e do Lula Côrtes? Não, não… Eu sou um dos poucos que não participaram daquele disco. Aliás, nem entendo o motivo, já que todo mundo participou. Eu não lembro em que circunstâncias isso aconteceu, até porque eu era amigo tanto de Zé Ramalho quanto de Lula Côrtes. Mas não sei o que houve. Como dizem por aí: se você viveu bem aquela época e lembra de tudo, é porque não viveu, não é mesmo? (risos).
Nesse período, mais ou menos, vocês entraram na Continental. Como vocês entraram na gravadora? Bom, o Secos & Molhados tinha estourado, vendido acho que um milhão de discos, e rendeu uma grana preta. As gravadoras principalmente a Continental, que era uma das raras gravadoras 100% brasileiras, descobriram que rock dava grana, dava lucro. Eles enviaram olheiros para o país todo, para ver se tinha uma banda com potencial para estourar. O olheiro deles que veio aqui nos descobriu, viu que a gente lotava os teatros, as praças onde a gente se apresentava. Nos indicou e assinamos o contrato.
Tinha muita lenda em torno de vocês, que vocês se beijavam na boca no palco, etc. Isso é verdade? A gente tinha consciência de que precisávamos questionar o status quo. Gostávamos de provocar. Eu usava batom, sempre usei. Hoje não uso mais, mas na época, usava por pura provocação mesmo. Teve um show em que nosso baterista, o Israel – ele era um cara muito emotivo – viu que a gente tinha tocado tão bem uma música, que pulou da bateria e me deu um selinho (risos). Isso deixou todo mundo chocado! E eu gostei: “Vamos continuar a fazer isso aí!” (risos). Era para chocar, tinha esse sentido de provocação, de ir contra ao que se chamava de quadrado, a coisa reacionária. Que está de volta hoje em dia, né? É uma coincidência incrível: surgimos na ditadura e voltamos não numa ditadura, mas num período extremamente direitista, conservador, reacionário.
É, o ciclo se repetiu… É ridículo mas é verdade.
Tem aquela lenda de que vocês, quando foram gravar o primeiro disco no estúdio Haway, foram armados com peixeiras. Aconteceu de verdade? Olha, o Ivinho usava peixeira. Ele era bem machão, e era casado com uma mulher muito bonita. O gerente do estúdio começou a dar em cima da mulher dele e ele ameaçou o cara: “Para de dar em cima da minha mulher, senão eu vou te furar, seu filho da puta!” (risos)
Quando vocês perceberam que a atitude era tão importante quanto a música? Bom, até a década de 1960, o jovem não tinha vez nem tinha voz. Quando ele dava uma opinião, escutava que tinha que ouvir os mais velhod, que eles é que sabiam o que era melhor… Só que a partir dessa década, no mundo inteiro, apesar de não haver celular nem internet, houve união entre todos os jovens do mundo. Eles começaram a se rebelar contra isso . Houve protestos nos Estados Unidos contra a Guerra do Vietnã, que era uma guerra criada pelos velhos, mas os jovens é que foram pro front morrer. E principalmente teve a eclosão do maio de 1968 na França, quando os estudantes foram para as ruas e quebraram o pau com a polícia, para mudar tudo. Tinha os slogans da época: “é proibido proibir”, “seja realista, exija o impossível”. E eu sempre fui um cara rebelde a vida toda, tinha esse temperamento. O temperamento junto com a consciência gerou essa atitude da gente, de que rock não era somente música, era atitude. A descoberta dos jovens pelo nosso trabalho veio por causa disso. Eu falo até que as letras do disco novo são antigas mas são atemporais, falam de rebeldia, de liberdade.
Afinal como foi trabalhar com o Marcio Antonucci, um cara da Jovem Guarda, como produtor do primeiro disco de vocês? O Marcio não entendia pica nenhuma de rock´n roll. Mas era uma pessoa muito gente fina, legal, aberta. Ele dizia: “Ué, vocês têm certeza que vão querer gravar essa música aqui?” E gente: “Temos!”. A gente tinha diálogo. O som do disco ficou muito polido, muito limpo, a gente queria um som mais visceral, mais próximo do que a gente fazia no palco. E a gente não podia gravar nenhuma música com mais de dois minutos, porque não tocava no rádio. Graças à qualidade das letras, das interpretações e dos arranjos, conseguimos fazer um bom disco, mas não era o que a gente queria. O Marcio atrapalhou mas não atrapalhou muito. Ele cedeu muito, se abriu, tentou entender a gente. Eu mesmo tinha uma relação boa com ele. Não foi algo traumático. Mas a gente gravou tudo em cinco dias e eu botei todas as vozes num dia só!
O Haway, por sinal, era um dos estúdios mais usados do Rio naquela época. Chegaram a ver alguém famoso lá? Sim. Teve um dia em que o Zé Rodrix esteve lá para pegar um teclado que tinha esquecido lá, ouviu uma música nossa e perguntou se poderia colocar um teclado nela. Era Cidade grande. Ele colocou um órgão lá, sem cobrar nada e ficou lindo.
Quais eram as referências musicais de vocês? Daqui do Brasil eram Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro – que por sinal estaria completando cem anos. Lá fora, Beatles, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Rolling Stones. Os discos chegavam atrasados ao Brasil, a gente tinha que conversar com marinheiros americanos e comprar deles. Ou trocar por calças jeans (risos). Tem ainda o detalhe que aqui no Recife não existia nada. Era uma pasmaceira total. Ninguém tomava conhecimento do que acontecia lá fora.
Como era arrumar LSD no Recife naquela época? Cara, não tinha nem ácido, era maconha mesmo. Ácido, só fui tomar em São Paulo depois. Agora, a maconha era boa, a gente até chamava de massa. A do Rio era ruim, era chamada de palha. A maconha do Recife era a chamada manga-rosa, que o pessoal enterrava na terra com mel de cana e deixava ficar lá um tempo. Era muito doido, muito forte.
Tem uma história de que vocês pediram uma indenização. Como foi isso? Pedimos, mas com esse governo novo, não tem nem chance, né? A gente nem pediu tanto isso, nem estávamos interessados na grana, mas na questão moral. Achávamos que a gente merecia ser ressarcido, pela interrupção da nossa carreira.
Isso aconteceu porque o primeiro disco de vocês foi tirado das lojas, por causa de Seu Waldir, não foi? Depois o disco foi relançado sem a música, não? Sim, mas aí não adiantou nada, porque essa era justamente a música que estava tocando no rádio.
Na época tinha uma onda glam no ar, justamente por causa do Secos & Molhados. Como resolveram gravar essa música? Ela foi feita na verdade para ser gravada pela Marília Pêra. Ela estava fazendo uma peça, um musical, e teve um dia em que um produtor da Som Livre foi ver a peça e a convidou para gravar um disco. Eu namorava uma das atrizes da peça, a Marilia sabia que eu era compositor e me pediu uma música. Fiz Seu Waldir para ela dentro do espírito paródico do personagem que ela fazia na peça, que era uma comédia. Ela gostou muito da música, só que ela desistiu de gravar o disco e eu fiquei com aquela música na mochila, sem saber o que fazer com ela. Cheguei a pensar em chamar uma cantora para gravar, mas tem aquela coisa do machismo pernambucano que era e é ainda muito acirrado, e eu pensei: ‘Quer saber de uma coisa? Vou cantar essa música só pra peitar esse machismo’. E deu certo!
Você sofreu homofobia na época por causa disso? Olha, alguns amigos deixaram de falar comigo. Cheguei a ouvir: “Não sabia que o Marco Polo era viado, não!” (risos). Na minha família não aconteceu nada disso, sempre me aceitaram como eu era. Aliás eu nem sou homossexual, mas digo isso só pra estabelecer fronteiras. O que eu fiz foi só uma provocação.
Foto lá de cima: Divulgação/Flora Negri
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.



































