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Cultura Pop

4 discos: Foo Fighters (no século 21)

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A proximidade do ano 2000, pode acreditar, causou medo em muita gente por causa de assuntos como o bug do milênio. Também deixou muita gente da música mais assustada do que o normal – enfim, o que viria depois da pirataria de CDs? E como fazer pra ganhar grana num “espaço livre” como o da internet liberada pra todo mundo? E (bom, isso é um problema de sempre) como lidar com o fato de que seu público estava crescendo, estava ficando mais preocupado em pagar as contas do que com a compra de discos, e havia uma turma nova chegando para conquistar fãs mais novos?

Seja lá o que tenha acontecido a Dave Grohl no começo dos anos 2000, mil questões e problemas surgiam não apenas na mente dele como também no caminho dos Foo Fighters (a banda dele, você deve saber) naquela época. Depois de três discos de sucesso, não apenas o quarto disco também deveria ser um sucesso, como a banda de uma hora para a outra teve que trocar de gravadora (da Capitol para a RCA, por causa da saída do presidente Gary Gersh).

O Foo Fighters, na prática, não havia começado como uma banda – era o projeto do ex-baterista do Nirvana que virou banda. O grupo vivia dilemas típicos de banda-com-líder-carismático – entra e sai de gente, uma ou outra disputa interna, tédio. E esteve bem próximo do fim no começo do novo século. O que talvez, na prática, indicasse apenas a troca de alguns integrantes e um hiato para descanso do nome. Mas a banda, como você sabe, tá aí até hoje – e esses aí são apenas quatro discos que vêm marcando o século 21 dos Foo Fighters.

“ONE BY ONE” (Roswell/RCA, 2002). Taylor Hawkins, baterista dos Foo Fighters morto ano passado, era indiscutivelmente um grande amigo de Dave Grohl e um pilar do grupo. Na época do quarto álbum da banda, o clima andava tão ruim que os dois brigavam o tempo todo, Taylor reclamava que aquilo “não era uma banda”, integrantes ameaçavam sair e uma versão inicial do quarto disco foi descartada assim que FF e gravadora viram que não havia nada de tão brilhante assim ali. Grohl deu um tempo no estresse para se juntar aos Queens Of The Stone Age na época da gravação do disco Songs for the deaf (2002). Por causa disso, o baixista Nate Mendel confidenciou a ele que teve medo que Grohl largasse o grupo e não voltasse mais.

Após um tempo de indecisão, novas gravações e pelo menos uma participação de peso (Brian May, do Queen, toca guitarra em Tired of you, única faixa restante das sessões originais) deram uma mudada no cenário. One by one, o quarto disco, saiu finalmente em 22 de outubro e revelou o hit All my life. Tinha Low, definida por Grohl como “o tipo de música que todo mundo reza para ser um single, mas não dá porque é estranha demais” (mas teve até clipe, proibido pela MTV). E Times like these, o relato das incertezas na banda. Um disco de sucesso, bem mais sombrio e berrado que o comum do grupo. Mas para muita gente foi o começo da fase mais formulaica dos FF.

“IN YOUR HONOR” (Roswell/RCA, 2005). Os críticos já não embarcavam na onda dos Foo Fighters tinha um bom tempo. Dave Grohl não parecia ter muito a provar para ninguém. Que tal um disco duplo, cheio de letras confessionais, com um dos CDs indo na onda acústica? E que tal se o CD acústico incluísse uma bossa nova grunge com Norah Jones nos vocais (Virginia moon)? A “parte elétrica” de In your honor, por sua vez, mantinha o foco nas emoções fortes, e era puxada por uma canção que abria com o verso “eu tenho outra confissão a fazer” (Best of you) e parecia falar de amor. Não para Grohl, que chegou a machucar seriamente a garganta durante as gravações dos vocais da faixa, e encarava a canção como “uma música sobre a luta diante da adversidade”.

Mesmo tendo bons momentos, In your honor ampliou a temporada de má vontade dos críticos com os Foo Fighters – a longa duração e o roteiro meio incerto do disco ajudaram nisso. A divulgação ampliou os limites do grupo, com o FF sendo headliner nos festivais de Reading e Leeds, e subindo no palco ao lado de convidados como Brian May, Roger Taylor (Queen) e Lemmy Kilmister (Motörhead).

“WASTING LIGHT” (Roswell/RCA, 2011). O sétimo disco dos Foo Fighters foi feito pela banda como um retorno não apenas aos primeiros anos do grupo, como a métodos de gravação antigos. A banda ensaiou bastante antes de gravar para reduzir erros, usou apenas equipamentos analógicos e até o produtor Butch Vig (aquele, de Nevermind, do Nirvana, no qual Grohl tocou) precisou voltar no tempo, cortando fita com gilete, e desesperando-se porque não havia computadores no estúdio. O disco marca o retorno definitivo de Pat Smear à guitarra solo – ele havia saído em 1997 por estar de saco cheio dos estresses dentro do grupo, embarcou em trabalhos como produtor e foi voltando devagar.

Sim, dá para perceber a diferença: fincado em riffs e palhetadas, Wasting light é mais prazeroso de ouvir do que One by one (por exemplo), sem aquele design sonoro que se assemelha a várias crianças brincando (e berrando) no playground. Em músicas como These days, Dear Rosemary (essa com Bob Mould cantando e tocando guitarra) e Arlandria, dá para perceber mais o lado “canção” do que em discos imediatamente anteriores. Tinha até o ex-colega de Nirvana Chris Novoselic em I should have known. Já White limo lembra a berraria de Weenie beenie, do primeiro álbum epônimo do grupo. Mas, enfim, não é o FF de antigamente porque a banda já era um quinteto e Grohl nem chegou perto da bateria.

“MEDIUM RARE” (Roswell/RCA, 2011). Poucos dias após o lançamento de Wasting light, saía – com distribuição exclusiva em vinil para o Record Store Day – o disco de covers dos Foo Fighters. Uma das raras novidades era a versão de Bad reputation, do Thin Lizzy. O restante já havia saído em coletâneas e B-sides, como a versão de Band on the run (Wings) e a de Darling Nikki (Prince), as melhores e mais instigantes do álbum. O disco é “meio raro” mas tá longe de ser um item barato: cópias pode chegar a uns 800, 900 reais no Discogs.

Cultura Pop

Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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Cultura Pop

No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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Crítica

Ouvimos: Samuel Rosa, “Rosa”

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Ouvimos: Samuel Rosa, "Rosa"
  • Rosa é o primeiro disco solo de Samuel Rosa, ex-cantor e principal compositor do Skank. O disco foi produzido por ele e Renato Cipriano. Na capa, há uma pintura de Stephan Doitschinoff, que faz referência a várias músicas do disco. 
  • A banda solo de Samuel é formada por Doca Rolim (violão e guitarra), Alexandre Mourão (contrabaixo), Pedro Kremer (teclados) e Marcelo Dai (bateria e percussão). Alexandre é amigo de infância de Samuel e tocou com ele no Pouso Alto, grupo que ele teve com outro ex-Skank, Henrique Portugal, nos anos 1980.
  • No material de divulgação, Samuel diz não ter procurado se diferenciar do legado que o Skank deixou. “Eu não queria agora buscar compulsivamente fazer algo que eu nunca fiz. Quero exercer o que eu sou”, afirma Samuel Rosa. “Minha marca é meu patrimônio”.
  • Boa parte do material foi feita entre janeiro e fevereiro, em sessões matinais que duravam de três a quatro horas (e que Samuel chama de “composição induzida”). “Era disciplina mesmo, eu me comprometi a chegar todos os dias com uma música nova de tarde e mostrar para banda, ainda que fosse ruim, boa, média, sem julgamentos”, conta ele.

Eu (eu, Ricardo Schott, autor desse texto), esperava que a estreia de Samuel Rosa como solista corresse para dois lados distintos. A partir da capa, que lembra a de discos de Jorge Ben como A tábua de esmeralda e Solta o pavão, cheguei a pensar que o ex-Skank fosse cair dentro da experimentação rítmica que marcou discos do grupo, como O samba Poconé, ainda que sob um viés 2024. O outro lado: Samuel voltaria com cara beatle, unindo as mesmas influências e referências de Paul McCartney e Wings que marcaram sucessos de sua ex-banda, como Mandrake e os cubanos, Amores imperfeitos, Vou deixar e Mil acasos (e eu esperava mais ainda por isso).

Pois bem: Samuel voltou com um disco de MPB-pop. Ou de pop adulto contemporâneo com uma ou outra influência de rock dos anos 1960 e MPB das antigas. É o que – analisando bem – era mais provável que fosse acontecer, e era o que já dava para vislumbrar pelo single Segue o jogo.

Se tinha um lado do Skank que seria lembrado num eventual disco solo dele, seria o mais tranquilo: o de músicas como Balada do amor inabalável e Resposta. Por outro lado, falta uma pérola MPBística-rock-pop como Dois rios no disco. Os achados do álbum são bossas pop como Não tenha dó (essa, lembrando BASTANTE a Balada), Bela amiga (a faixa mais bonita do disco) e Segue o jogo, além do britpop anos 2020 Rio dentro do mar, e da disco music discreta de Flores da rua. Uma pista: segundo matéria do O Globo, uma playlist com bandas como Shins e Wilco rolou na época da elaboração do álbum.

Curiosamente, Rosa abre com duas canções que soam familiares para fãs antigos do Skank: o reggae folk Me dê você e o reggae brasileiríssimo Ciranda seca (Dinorah). A já citada Não tenha dó, por sua vez, ganha uma continuação na valsa-pop Aquela hora – parceria com Rodrigo Leão, e a música do disco que mais transparece influências de Lô Borges. Marcada por um pianinho suingado e de poucas notas na abertura, Tudo agora, por sua vez, parece uma sobra de discos mais recentes do Skank, como Velocia (2014).

No fim das contas, é um disco que reúne várias caras diferentes de sua ex-banda, e nem poderia ser diferente no caso de um grupo no qual o próprio Samuel era o maior arquiteto sonoro. Faz falta uma certa esquisitice (no bom sentido) que o Skank tinha, até mesmo quando estourava músicas em trilhas de novela ou levantava multidões.

Nota: 7
Gravadora: Sony

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