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Cultura Pop

Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

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Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

Existe – e deve ganhar uma série de animação em breve – uma personagem da Marvel Comics chamada Dazzler. Ela, na verdade, se chama Alison Blaire, descobriu seus super-poderes ainda na escola, e passou a usar o nome “Dazzler” quando foi tentar uma carreira no mundo da música.

Nos quadrinhos Marvel, Dazzler teve altos e baixos. De 1980, ano de sua criação, para cá, ela ganhou revista própria, foi integrante do X-Men em vários momentos, retornou em 2015 como um dos personagens principais da série A-Force, etc. Ganhou versões diferentes: foi integrante da organização paramilitar Thor Corps, se tornou a primeira presidente mutante dos EUA na HQ X-Men: Battle Of The Atom, etc. No Brasil, é mais conhecida como Cristal.

O que talvez muita gente não se lembre é que Dazzler originalmente era uma estrela da disco music.

Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

De acordo com a ideia original da turma, a personagem se chamaria Disco Queen. Depois o nome foi trocado para Disco Dazzler e simplificado para Dazzler. O nome fazia referência aos feixes de luz emitidos pela personagem, e às luzes intermitentes de uma boate disco. Por acaso a K-Tel chegou a lançar em 1978 uma compilação chamada Disco dazzler, mas bem antes da personagem e nada a ver com ela.

Tom DeFalco e John Romita Jr., estrelas da Marvel, criaram a personagem a pedido de um dos chefes da casa, Jim Shooter – que por sua vez, atendeu a um pedido de Alice Donenfeld, VP de negócios da empresa, que queria atrair uma gravadora como parceira no projeto. Deu certo: a Casablanca Records, lar de boa parte dos artistas de disco music de sucesso nos anos 1970/1980, adorou a ideia, e quis inicialmente apostar num especial de animação de meia hora.

(e sim, a Marvel já havia lançado a tal HQ do Kiss impressa “com o próprio sangue da banda” – a maquiagem da Dazzler nas primeiras HQs lembra a do “homem espacial” Ace Frehley)

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Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

A história narrada por Shooter a respeito de como Dazzler começou (leia tudo aqui, em inglês) mostra bem como andavam as coisas na Casablanca Records na época. Neil Bogart, mitológico comandante da gravadora, tinha problemas de saúde, a empresa afundava-se num mar de cocaína e abuso de poder (ficou famosa a história da secretária encarregada de anotar os pedidos de pó dos executivos e entregá-los a um dealer), e a única condição para se esbanjar dinheiro com qualquer projeto era a possibilidade de lucro rápido. Bogart animou-se com a história da Dazzler, sugeriu que “isso dá um filme de ficção!”, mas como a gravadora – isso segundo Shooter – estava no vermelho, nada foi feito.

Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco
Dazzler no Brasil

A Marvel agiu como pôde: Alice foi ao Festival de Cinema de Cannes em 1980, esbarrou com Bo Derek – uma das atrizes mais bombadas do mundo naquela época – e mostrou o roteiro. Bo adorou a ideia, quis fazer a personagem e a coisa começou a andar de novo. Não andaria por muito tempo, mas deu uma animada.

“Há uma foto de Bo e seu marido, John, tirada em Cannes, que apareceu na capa da People. Se você olhar de perto, você pode ver que John está segurando uma pilha de revistas da Marvel. No topo, aparece a primeira edição da She-Hulk“, diz Jim Shooter.

Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

A história acabou envolvendo a chegada de um roteirista de Hollywood. Shooter tinha feito um roteiro inicial, mas o consenso geral era de que se tratava de um trabalho para alguém do mundo do cinema, não dos quadrinhos (“naquela época, apesar do sucesso razoável do primeiro filme do Superman, os quadrinhos ainda eram considerados tolos e exagerados”, reclama, com razão, Shooter).

E mais: já que Bo Derek estava na parada, o filme deveria ser dirigido por seu marido John Derek. Conhecido por filmes softcore, John estava bem longe de ser o diretor dos sonhos da turma que queria levar Dazzler às telas. Não deu muito certo e o casal se afastou. Fim da ideia do filme – embora a Marvel tenha adaptado o roteiro para uma graphic novel.

Dazzler: quando a Marvel criou uma heroína da era disco

Rola uma história paralela (contada por Romita em entrevistas) de que, em um dado momento, Dazzler deveria se inspirar no visual da cantora Grace Jones, mas com a chegada de Bo Derek, ela foi adaptada para virar uma menina branca.

Se você pegar o texto de Shooter linkado lá em cima e rolar a barra de navegação, tem um comentário do próprio executivo dizendo que “não sabe quem disse a Romita que deveria ser Grace Jones, mas é uma ótima ideia”. Mais tarde, com um roteiro pronto nas mãos e sem possibilidade de vendê-lo, a Marvel tentou levar a história às telonas com Daryl Hannah no lugar que poderia ter sido de Bo Derek. Ninguém se interessou em investir e o lance não saiu do plano das ideias.

Seja como for, Dazzler ganhou seu espaço no mundo dos quadrinhos e permanece tendo fãs até hoje. Seu gosto musical já variou da disco ao trance, passando pelo punk rock. Fizeram até cosplay dela na Comic-Con em 2015.

Via Reprobate Press.

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Ricardo Schott é jornalista, radialista, editor e principal colaborador do POP FANTASMA.

Cultura Pop

O 1967 dos Beatles no podcast do Pop Fantasma

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Da mesma forma que uma década muitas vezes não começa no ano em que ela se inicia (já havia um “anos 1990” encartado no fim da década anterior), as mudanças vividas pelos Beatles em 1967, ano do disco Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, começaram pelo menos uns dois anos antes.

Mas para todos os efeitos, foi há 55 anos que John, Paul, George e Ringo lançaram um dos discos mais desafiadores da história da cultura pop, tramaram sua volta ao cinema, fizeram duas aparições significativas na televisão (numa delas, lançaram um telefilme que deixou sensação de entalo nas gargantas de muitos fãs), realizaram montes de experiências de estúdio, perderam tragicamente seu empresário e começaram a dar passos rumo à independência. E, ah, graças a um certo composto químico de três letras, sintonizaram dimensões bem diferentes das que os pobres mortais estavam acostumados naquela época.

O último episódio da segunda temporada do Pop Fantasma Documento levanta os causos de uma das épocas mais movimentadas do dia a dia dos quatro de Liverpool. Aumente o volume, ligue-se e sintonize!

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Turn Me On Dead Man, Trudy and The Romance, Dario Julio & Os Franciscanos.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração: Ricardo Schott. Arte: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Estamos aqui toda sexta!

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Cultura Pop

Devo: no YouTube, tem versão “rascunho” do filme The Men Who Make The Music

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Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

Raridade por vários anos para muitos fãs do Devo, o filme The men who make the music (1981), realizado pela banda, foi lançado sob o rótulo maluco de “vídeo-LP”. A produção combina imagens de shows do Devo (focando bastante na turnê de 1978) com textos irônicos sobre a indústria da música, além de aparições do controverso personagem General Boy (interpretado por Robert Mothersbaugh Sr, pai dos irmãos Mark e Bob).

Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

O tal conteúdo “anarquista” do vídeo fez com que ele ficasse arquivado por uns dois anos, já que The men who make the music foi terminado em 1979. O lançamento deveria ter acontecido em paralelo com o disco Duty now for the future, tanto que o LP original anuncia um endereço para os fãs comprarem um produto chamado Devo-vision, que sairia pela Time-Life (empresa responsável por arquivar o filme por dois anos, irritada com as mensagens anti-indústria da música do vídeo).

O material ainda aparece intercalado com imagens bem antigas do Devo. O grupo aparece tocando Jocko homo em 1976, em imagens do primeiro curta do Devo, The truth about de-evolution – que também incluía o clipe do grupo em 1974 tocando Secret agent man, igualmente incluído em The men. Nessa época, o Devo tinha uma formação bastante variável. Com pelo menos cinco ou seis músicos gravitando em volta (incluídos aí três irmãos Mothersbaugh), a banda virou quarteto no clipe de Secret agent man.

The men who make the music, por sinal, teve ainda uma versão demo, feita com produção amadora, em 1977. Tá no YouTube. Foi dirigida por Jerry Casale e produzido por Marina Yakubic, que era namorada de Mark na época.

O vídeo (sim, é vídeo, produzido com câmeras de TV) tem diferenças nos diálogos, nos cenários, na qualidade de som e de imagem (bastante rascunhadas) e no fato de que as músicas não aparecem em clipes. Todas são gravadas em versões extremamente cruas, ao vivo num palco.

Uma surpresa para os fãs é que, originalmente, a versão do grupo para (I can’t get no) Satisfaction, dos Rolling Stones, era quase um blues maníaco e lembrava Captain Beefheart. Muito diferente do que se imagina do Devo.

Aproveita e pega The men who make the music, a versão oficial, que também tá no YouTube.

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Cultura Pop

The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz

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The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz

Você provavelmente não conhece Adrian Munsey. Dono de uma carreira de sucesso como produtor de TV, o britânico trabalhou em canais como BBC Worldwide, ITV, Universal, e dirigiu dois longas, além de uns 45 documentários. Também tem uma extensa carreira como produtor musical e dono de gravadora. A vida dele tá aqui.

Agora, um detalhe que garantiu bastante popularidade a ele no fim dos anos 1970 foi ter aderido à mania sempre em alta dos novelty records – discos feitos para vender por uns tempos, com piadas ou assuntos da moda. Em 1979, ele soltou o single The lost sheep, creditado a “Adrian Munsey, ovelha, sopros e orquestra”. Essa pérola aí.

Lançado pela Virgin, o single trazia, segundo o site World’s Worst Records, ” uma fatia medíocre de monotonia sub-clássica que apresenta um cordeiro balindo enquanto uma pequena orquestra – repleta de baixista e baterista – toca a música mais sentimental que você já ouviu”.

Se você já acha pitoresco escutar isso em áudio, olha aí o próprio Munsey tocando a peça ao vivo no Russel Harty Show, na London Weekend Television. Munsey levou para o palco uma ovelha (“é uma fêmea”, esclarece) e a mãe do animal – além da orquestra, para tocar ao vivo. Só que o bichinho ficou meio amedrontado e não “cantou” nada. Sobrou para Munsey fazer o “béééé” ao vivo. A plateia ri, os músicos de orquestra não movem um músculo das faces.

Russel fica indisfarçavelmente de boca aberta ao ouvir  Munsey contar como foi que surgiu a ideia de fazer música com ovelhas. Ele fez uma viagem e passou por um anfiteatro que estava cheio delas, balindo. “Acho que as pessoas às vezes se sentem como ovelhas perdidas um dia”, contou, já anunciando que sairia um single em ritmo de discoteca. Saiu sim: C’est sheep, lançado também em 1979, e produzido por Ron e Russell Mael, os dois irmãos da banda Sparks. Essa música, mais tarde, foi incluída na compilação da Virgin Methods of dance.

Ah sim, tinha o lado B de The lost sheep. Era Echoing spaces, essa maravilha pós-prog relaxante aí.

Um detalhe bem louco a respeito de C’est sheep, o tal single disco de Munsey, é que ele foi detonado por um colega de gravadora do cantor. John Lydon, já cantando à frente do Public Image Ltd, foi participar do Juke box jury da BBC, programa no qual uma turma de jurados comentava lançamentos recentes. A canção, cheia de balidos com beats dançantes, foi apresentada e provocou verdadeira aflição nos convidados, que precisaram dar suas opiniões na frente do próprio Munsey (!), mais perdido que cebola em salada de frutas. Lydon diz que a música é “a Virgin Records  tentando faturar uns trocados e falhando miseravelmente”.

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