O sempre atento canal Polyphonic soltou um vídeo enfocando um dos períodos mais bizarros da vida de David Bowie. Tá lá no fim do texto, mas vamos contextualizar antes. Entre 1975 e 1976, Bowie adotou como sua nova persona o Thin White Duke.

À primeira vista, o novo personagem de Bowie – associado em especial a seu disco Station to station, de 1976 – era uma espécie de “cantor romântico sem emoção”. Um artista com visual de cantor de cabaré, surgido logo após o encantamento do camaleão com a música negra e o som da Filadélfia.

O Thin White Duke surgia numa fase de egolatria extrema de Bowie – um sujeito que, em 1975, cheirava cocaína em doses industriais, via seu casamento desmoronar, encrencava-se com seus empresários e cercava-se de aspones. Entre as novas obsessões de Bowie estavam interesses por ocultismo e fascismo. O cantor já se interessava havia anos pelo ocultista britânico Aleister Crowley, e encartou referências a ele em letras como a da faixa-título. Station to station, a música, volta e meia falava em “white stains” e outros nomes encontráveis na obra de Crowley.

O site Flashbak reuniu uma boa memorabília da época em que Bowie começava a demonstrar um estranho interesse por esses assuntos. Em 1976, o cantor foi visto fazendo uma suposta saudação nazista para a multidão que o aguardava na estação Victoria, de Londres. No mesmo ano, em setembro, deu uma entrevista à Playboy em que falava que “astros do rock são fascistas. Adolf Hitler foi uma das primeiras estrelas do rock”. Dois anos antes, tinha declarado que “a Grã-Bretanha está pronta para um líder fascista”.

Esse tipo de flerte não era exclusividade de Bowie: nunca se lidou tanto com religiões e seitas de todo o tipo quanto nos anos 1970. Roqueiros como Jimmy Page e Steven Tyler, e cantoras folk como Judee Sill também se interessaram por ocultismo. No fim da década anterior, Pete Townshend voltou-se para a filosofia oriental do guru Meher Baba e gravou discos e músicas em sua homenagem.

Isso sem falar no exército de artistas que se tornaram discípulos de Anton LaVey e da sua Igreja de Satã, estabelecida em 1966. A turma incluía gente como o pianista Liberace e o comediante Sammy Davis Jr, que em 1973 chegou a fazer uma espécie de sitcom satânica exibida pela NBC, Poor devil. Olha o especial inteiro aí.

No caso de Bowie, o desespero da “década do eu”, além de uma boa dose de drogas e adulação desmedida, entravam como ingredientes na história. Anos depois, Bowie chegou a se desculpar, afirmando que seu interesse pelo nazismo “era pelo fato de supostamente terem vindo à Inglaterra antes da guerra para encontrar o Santo Graal em Glastonbury”. Em 1977, pouco depois da suposta saudação nazista, declarou que estava apenas acenando, e que tinha feito “duas ou três observações teatrais sobre a sociedade inglesa” e “a única coisa que posso fazer agora é afirmar que não sou facista. Eu sou apolítico”.

O vídeo tá aí em cima. Se você nunca escutou Station to station, um dos melhores e mais experimentais discos de David Bowie, ele segue abaixo.

Infos também de NME e Open Culture.