Aconteceu o que os fãs dos Smiths queriam: o disco The Queen is dead, lançado em 1986 e um dos maiores clássicos do grupo, acaba de sair em edição turbinada, com músicas bônus e conteúdo original remasterizado. São três formatos. O mais humilde é duplo e tem o CD remasterizado, além de um disco de demos, takes alternativos e B-sides. O mais luxuoso tem 3 CDs + DVD, e tem o álbum remasterizado, o tal CD de extras, um CD Live In Boston (gravado no Great Woods Center for the Performing Arts em 5 de agosto de 1986) e um DVD com a remasterização nova do disco, além do famigerado The Queen Is Dead – A Film By Derek Jarman. E ainda tem mais um com cinco LPs. O conteúdo já foi jogado nos streamings.

Apesar dos Smiths geralmente serem apontados como uma banda “limpinha” musicalmente, e de Morrissey ser considerado o grande poeta das desilusões por muita gente, tinha bem mais do que isso em The Queen is dead – e também na própria discografia da banda. Johnny Marr, guitarrista, se deixou influenciar bastante pelo rock pesado de Detroit. Morrissey, que desde o começo da banda já vinha pegando em fios de alta tensão na hora de escrever as letras, fez do disco o retrato de uma era bastante pesada da Inglaterra e carregou no discurso irônico e afiado em Frankly mr. Shankly, e outras do disco. Seguem aí dez fatos que explicam um pouco a respeito de The Queen is dead, da época em que ele surgiu e do que andava rondando as mentes de Morrissey e Marr em 1986.

1) O título do disco foi tirado de um capítulo do livro Last exit to Brooklyn, do americano Hubert Selby, Jr.. Lançado em 1964, o livro tinha exatamente esse título no rascunho original de Selby, The queen is dead. O filme foi levado ao cinema em 1989 (no Brasil, se chamou Noites violentas no Brooklyn) com trilha de Mark Knopfler.

2) O livro de Selby provocou polêmica por causa de sua visão crua da vida no Brooklyn. O capítulo The queen is dead fala de um transexual chamado Georgette, que é posto para fora de casa pela família, e se apaixona por um rapaz. Selby curte escrever histórias pesadas: também foi autor de Requiem for a dream, levado às telas em 2000 por Darren Aronofsky (Réquiem para um sonho, no Brasil).

3) The boy with the thorn in his side é tida por Morrissey como sua música preferida no repertório dos Smiths.

4) Músicas de bandas pré-punk pairam silenciosas sobre o repertório do disco: o “driving in your car” de There is a light that never goes out foi surrupiado de Lonely planet boy, dos New York Dolls. I need somebody, dos Stooges, foi a inspiração de Never had no one ever.

5) Já The queen is dead, a música, teve como inspiração a distorção do rock de garagem de Detroit, do MC5 e dos próprios Stooges. Em papo com o NME em 2011, o guitarrista Johnny Marr disse que a canção surgiu por causa de um feedback captado acidentalmente com seu pedal de wah-wah. “Estava tentando fazer essa coisa de garage rock de Detroit e deu tudo errado – mas quando isso acontece, você tem sorte se começa a parecer consigo mesmo de qualquer jeito”, disse.

6) Na época da gravação do disco, o grupo estava descontente com o tratamento recebido pelo selo Rough Trade Records (“nada nos Smiths foi realmente trabalhado”, chegou a dizer Morrissey) e estava sendo assediado pela grandalhona EMI. A cruel Frankly Mr. Shankly teria sido dedicada a Geoff Travis, chefão da Rough Trade.

“Entendi a letra como um recado de Morrissey, uma manifestação de que ele queria ir para outro lugar. Colocar essa música entre a canção-título e I know it’s over foi inclusive uma boa sacada”, chegou a afirmar Travis. No fim da canção, a segunda de The Queen is dead, Morrissey insere até um “oh, give us money”.

7) O tema Take me back to dear old blighty, cantado pela atriz e comediante Cicely Courtneidge, que abre o disco, foi tirado de um dos filmes preferidos de Morrissey, o britânico A mulher que pecou, de Bryan Forbes. A cena em que Cicely canta a música é a festa de Natal da pensão insalubre em torno da qual gira a história.

8) A foto interna do disco, com a banda, tem a fachada do Salford Lads’ Club no fundo. Recentemente o local chegou a abrigar um exposição de fotos do autor da imagem, Stephen Wright, em homenagem aos Smiths.

A foto interna de "The Queen is dead", dos Smiths

9) A era de The queen is dead não estava sendo fácil para a Inglaterra. Em 2010, Jon Savage escreveu no diário britânico The Guardian que em junho de 1986 o país “estava próximo do fim do segundo mandato do governo conservador de Margaret Thatcher. Os mineiros foram vencidos (referência à greve dos mineiros, reprimida na porrada pela Dama de Ferro) e a nova direita triunfava. A acid house (gênero da música eletrônica) estava ainda no underground. O Live Aid (realizado um ano antes) teve como efeito a difusão de valores classe média em todo rock. Surpeendentemente, havia certa dissidência expressada na cultura popular, como uma onda retrô inaugurada pelo começo da era do CD”.

10) Num artigo da revista Mojo, Savage foi mais direto, dizendo que 1986 foi um ano cinzento. “O pop estava num dos seus pontos baixos. O disco saiu antes do arranque do acid house, e o grande boom do synth pop estava reduzido a soul genérico. A escolha na época era entre Born in the USA, o bombástico disco de Bruce Springsteen, e Brothers in arms, do Dire Straits, hoje popular em sebos”.

Tá, mas ouve The queen is dead aí. Um dos melhores discos da história do rock. Se bem que dos Smiths eu prefiro Meat is murder.

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