O que levava um bando de gente que, na vida real, jamais chegaria perto de um skate, a passar horas no quarto, com amigos, vendo um VHS importado de manobras no carrinho? Ou a esse mesmo bando de gente copiar o VHS e ficar assistindo? Para entender o que significava isso, você teria que voltar no tempo e assistir a uma exibição de Shackle me not, VHS lançado há trinta anos pela H-Street. Alguém jogou o vídeo inteiro no YouTube. Garante uma hora de diversão com as manobras de nomes até então pouco populares, como Matt Hensley, Brian Lotti e Mike Carroll.

A H-Street tinha sido fundada em 1986 por Tony Magnusson e Mike Ternasky. A ideia que movia os dois era que uma empresa de skate deveria ser orientada por skatistas. E não por gente trancada em escritórios. Na época, o meio ficava de olho nos vídeos, que eram disputados a tapa por esportistas e seguidores. No caso da H-Street, eles eram feitos sem grandes recursos. Usavam apenas uma câmera barata e uma edição feita no equipamento mais básico possível. Quanto mais parecido com um vídeo caseiro, melhor.

Em vários casos, o que importava mesmo era a trilha sonora. Mesmo se você não tivesse saco pra skate – meu caso – um vídeo desses botava você em contato com novidades do skate punk, do pós-punk, do hardcore. E, em alguns casos, da música eletrônica e do hip hop. No caso aqui, a trilha eram bandas como Black Dress Theory (com a punk e experimental Greedy), Johnny Monster (Witch doctor), Wonderful Broken Thing (Is this what you wanted), etc.

E a novidade era que Shackle me not tinha dois clássicos do pós-punk brasileiro na trilha: Teu bem, da Patife Band, e O homem que eu amo, dos Voluntários da Pátria. Vá direto aí embaixo para conferir esses dois momentos.

Teu bem (aquela mesma música que, poucos anos depois, seria regravada por Cássia Eller) aparece logo no começo do vídeo, quando skatista Matt Hensley faz suas manobras. Matt, que viraria depois acordeonista do grupo de punk celta Flogging Molly, disse nesse papo aqui não ter nem participado da entrada da música na trilha.

“A música era influência do roommate de Mike Ternasky. Ele era fã de hip hop, tipo eletrônico. Havia algumas bandas realmente ótimas lá”, recordou. “Não escolhi a música da minha parte. Para ser honesto, naquele primeiro vídeo, ninguém sabia o que ia acontecer. Talvez Mike soubesse”.

Aliás, juntaram as trilhas sonoras dos principais vídeos da H-Street num vídeo só. Confere aí.