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Cinema

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

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O humor da era da abertura, no começo dos anos 1980, tinha varias caras e turmas. Tinha a galera do jornalismo (O Pasquim), das revistas e jornais humorísticos (Casseta Popular e Planeta Diário), os grupos de rock e MPB (Ultraje A Rigor, Blitz, Premeditando O Breque) a turma do teatro besteirol – e essa profusão de galeras e projetos que provocavam e testavam limites estendeu-se até bem recentemente, com a turma do Hermes & Renato, na MTV. Foi com a intenção de reportar esse período em que a censura estava chegando ao fim e parecia não haver limites para a gozação, que o “seu casseta” Claudio Manoel, ao lado de Álvaro Campos e Alê Braga dirigiram o documentário Rindo à toa.

O filme chegou aos cinemas trazendo entrevistas com boa parte da geração que fez o Brasil rir a partir dos anos 1980: Casseta & Planeta, Angeli, Laerte, Regina Casé, Evandro Mesquita, Roger Moreira (Ultraje), Marcelo Tas, Marisa Orth, Pedro Cardoso. Além de muitas imagens de Bussunda (1962-2006). E a produção mexe num tema que faz muitos humoristas, novos e antigos, rirem de nervoso: e aquelas piadas politicamente incorretas que o Casseta & Planeta fazia nos anos 1980? Como seria, hoje, mexer naquele tipo de vespeiro? Mais: como ver aquilo com os olhos de hoje em dia?

Bati um papo com Claudio Manoel para o jornal O Dia – onde trabalho – a respeito do filme. Segue aí o papo na base do pingue-pongue, com todas as motivações por trás da história, e toda a contextualização que o humor daquele período, feito numa época em que o número de bundas a chutar parecia interminável, merece.

POP FANTASMA: Afinal, como começou esse filme?
CLAUDIO MANOEL: Bom, comecei a discutir esse projeto com o Álvaro Campos a partir de um convite da Globo Filmes. Depois chamamos o Alê Braga e o projeto deve gerar uma trilogia sobre o humor. O primeiro filme foi sobre a época do regime militar, o outro vai ser sobre o humor de hoje, e ainda não entrou em produção. O conceito básico do Rindo à toa é que a gente tinha saído da ditadura militar e não havia nenhuma ferramente de controle – que sairia e ficaria na mão da sociedade, o que é um troço até muito vago. Só que grande parte da sociedade, naquela época, queria mais era tirar a tampa, botar para fora o que estava sufocado ou guardado durante tanto tempo. Começamos de cara com a intenção de mostrar que no Brasil nunca houve uma época tão livre, todo mundo queria testar os limites do humor.

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

Cartaz do filme

E o filme não se limita a mostrar o humor puro e simples, ele vai para a música da época… Sim. Juntamos com o rock da Blitz, do Ultraje A Rigor. Dentro da cena paulista tinha o Premeditando o Breque, a turma do Lira Paulistana, o teatro besteirol que era o pós-Asdrubal. Essa turma já vinha chutando seus baldezinhos, radicalizando o negócio do humor do cotidiano, comportamental. Você tem também uma cena de cartum, de quadrinhos, fortíssima. E tem a coisa da TV, mesmo que seja no mainstream – a Globo é até hoje o maior produtor de audiovisual, mas na época ela queria ser vanguarda. Não que hoje não queira. Mas é diferente o querer estar na moda hoje e o querer estar na moda naquela época. Você naquela época queria chutar o balde da moda, queria incomodar. Havia uma ideia de que incomodar era legal. Parecia meio pretensioso, mas era aquela coisa de respirar um pouco. Quando o certificado de censura sai de cena – e a gente sabia até o nome do censor, Solange Hernandez, Coriolano Fagundes, parecia coisa de cinema – fica um vácuo de controle, rola de tudo e depois chegam os controles de novo. Primeiro dentro da mídia, com os feedbacks diretos: “Ah, não sou eu que estou proibindo, o povo que não gosta”. Todo mundo fala em nome de uma audiência, de uma massa, que começa a dar like e deslike e dependendo do peso que tiver, ela derruba.

Isso tá cada vez mais claro com o Twitter… Tem trollagem dos dois lados. Tem o camarada anônimo que fica trollando até conseguir irritar a celebridade, o alvo. E tem a ideia de programa em que você fica sendo atacado. Tem o que aconteceu com o Woody Allen, uma coisa em que você tem que dar o benefício da dúvida e o julgamento não tem fim. Antes você tinha o julgamento por calúnia, duração da pena. E tem esse julgamento da internet. Você tem um coisa de hiperliberdade pro criador e tem a hiperliberdade pro consumidor. Todo mundo é mídia, até mesmo o cara que te assiste e tem 50 mil seguidores. Isso tudo mudou pro bem e pro mal. O bom é que um jovem comediante do Piauí pode ficar famoso, vitorioso e rico. Ele pode fazer um vídeo no quarto e usar todas as ferramentas. Já pro mal, tem o controle: “Não pode, não deixo”. Você querer interditar o outro. Pô, você discordar de fulano já é discurso de ódio.

No filme tem uma fala do Hélio de La Peña em que ele diz que as pessoas estranham o que a turma do Casseta fazia naquela época, queriam que fosse diferente, que as piadas não fossem tão politicamente incorretas, mas o contexto era diferente. Falando nisso, como você vê o humor feito hoje. Ainda há limites a testar, como naquele período? Por partes: sempre teve, de uma geração sobre outra, esse olhar de superioridade. É da idade, você olha os caras mais velhos como ultrapassados. Até um chimpanzé bem treinado pode fazer um julgamento. O complicado é você julgar antes, ou querer olhar com a régua de hoje a criação daquela época. Havia pautas que simplesmente não existiam, a conversa não era essa. O discurso que existe hoje é importante. Tem muita pauta evolutiva e muita pauta involutiva, muito discurso que fica interditado. Tem muito mais “não pode” do que na nossa época e talvez até mais do que na própria época da ditadura militar.

Rindo À Toa: o humor no pós-abertura em documentário

Reinaldo e Hubert no filme

Vem de todos os lados. E ainda tem uma mitologia, uma autopropaganda de que o pior “não pode” vem de cima, dos poderosos. Você acaba se sentindo mais heroico. Mas porra nenhuma. Sempre houve isso, desde o teatro grego. O cara ia lá e te avaliava na sua cara. Só que hoje o cara que nem te assistiu fica puto contigo. Desafios e limites têm sim, mas no humor você tá sempre no fio da navalha, porque tem o quanto você tá esgarçando os limites da caretice e o quanto você tá sendo escroto. O melhor parâmetro pra isso sempre foi a risada. O problema é que às vezes você é escroto, o cara fica envergonhado da risada que deu e fica puto contigo (risos). Mas um humor que não pode incomodar ninguém, que tem que ser macio, sem arestas… Isso é muito infantil e infantilidade tem limite de idade. Você tem que ser adulto. Todo mundo quer muita proteção. Fica todo mundo doido: “Ahá, peguei uma ofensa!” Pô, tem um negócio chamado microagressão. Brother, microagressão na história da humanidade chama-se frescura! Tem muitas coisas nisso de falar de identidades, de nichos. É algo que cria muitas regras e muito antagonismo em relação a outro nicho. Fica muito fracionado. É difícil agradar a todos. A gente ficou 20 anos no ar e desses anos, uns 17, 18, a gente era não o programa de maior audiência de humor. A gente era o programa de maior audiência da Globo. Muita gente fala que comentava a piada no dia seguinte na escola…

Isso não existe mais. Não existe mesmo, é mais fracionado. Os americanos vivem isso há mais tempo por causa da TV a cabo. Não existe mais o “tá passando na telinha”. A telinha hoje é o celular.

Falando nisso, vocês lançaram um canal no YouTube. Como ele tá indo? Olha, nem posso falar muito porque sou um dos mais bissextos. Só não perco pro Reinaldo porque ele se aposentou. Para mim é mais uma forma de encontrar os amigos, jogar uma pelada, falar besteira. Você está numa seara de concorrência enorme, com gente que é 40 anos mais nova que você. Na Globo, a gente tinha muita força de produção, né? Escrevia um texto na sexta-feira e na segunda já tinha 40 cangaceiros e 50 cavalos esperando a gente. Isso distorce o ser humano. O canal tem ainda uma base de inscritos pequena, a plataforma tem uma faixa etária diferente. Mas é um lugar pra encontrar os fãs. A gente fez a série do Multishow (Procurando Casseta & Planeta) que teve duas temporadas e foi muito legal, fez um livro sobre história do Brasil – cada um na sua casa. Eu fui fazer documentários e eles ficaram mais unidos. O Marcelo Madureira é que é o apaixonado pela área da internet, tem uma empresa de internet, faz o canal do Pastor Arnaldo…

E essa turnê de 30 anos que vocês vão fazer? Na verdade esses trinta anos… Tem vários “começos” aí: quando juntou Casseta & Planeta, quando começou a fazer show, a gente parou de fazer show há uns 20 anos, quando o programa passou de mensal para semanal. E nós somos o único grupo de humor em que redação e elenco eram a mesma coisa, o que fez com que a gente imediatamente parasse de fazer show. Não tinha mais tempo.

Verdade que o Reinaldo não vai participar dessa turnê? Você falou lá atrás que ele se aposentou… Sim, sim. O Reinaldo é um veterano, foi editor do Pasquim, e ele sempre tinha deixado claro o desejo de que, quando parasse tudo, fosse ficar apenas como músico, tocando jazz, que era o que ele realmente queria fazer. Ele topou participar da série do Multishow como ator, recebia o texto e um abraço. Quando fizemos um projeto de TV (para a Rede TV!, cuja viabilidade comercial ainda não foi aprovada pelo canal), ele deixou bem claro que o lance dele agora era música. Ele toca na noite e se diverte, mas turnê nem pensar. Convencemos ele a fazer uma participação em vídeo no nosso show, mas viajar pra fazer show de humor… o véio não está mais nessa.

https://www.youtube.com/watch?v=UVb4NAH00rw

Aliás, são trinta anos da gravação do LP Preto com um buraco no meio. Quais são as lembranças que você tem dessa época? Foi tudo ótimo. A gente pegou o último ano da isenção do ICMS para indústria fonográfica. Isso significava em outras palavras que não tinha orçamento, tinha um monte de isenções fiscais. Conseguimos fazer um puta time, cada faixa gravada pelo creme da música: Djavan, Carlinhos Brown no primeiro disco do qual ele participou quando veio pro Rio. Minha ex-mulher era produtora do disco, eu chegava cedo no (estúdio) Nas Nuvens para gravar e encontrava lá Arthur Maia, William Magalhães, Celso Blues Boy… Nenhum de nós era cantor, a gente fez até uma aulinha, mas era bacana. Na época do Preto, já culmina ali um show que vinha fazendo sucesso pra caralho que era o Eu vou tirar você desse lugar. Começamos no Jazzmania, fomos para o Canecão e isso gerou o convite da Warner para gravar, e do Boni pra fazer o camarote da Globo no Carnaval 1990.

https://www.youtube.com/watch?v=RKs_NCX3HFk

Foi a primeira vez em que aparecemos na frente das câmeras. Até então a gente era autor e fazia show, tinha aberto para o Barão Vermelho no Circo Voador. O show começou a ficar cult. Cazuza foi nos bastidores, ele foi ver a gente bem doentinho com a Maria Zilda, o Caetano. E o André Midani chamou a gente para fazer o disco. Ele estourou com duas músicas. Uma delas foi Mãe é mãe, a paródia do Tim Maia que a gente fazia, e que tinha um refrão que hoje seria completamente proibido. Mas nem era uma coisa anti-mulher, era uma discussão de casal. Fizemos até uma versão chamada Pai é pai, com “homem é tudo viado”. Tocava só no show, não tocava palavrão no rádio… Mas teve Tô tristão, um “samba exaltação” sobre um cara que se fodeu. Essa tocou pra caralho em rádio, foi a primeira vez que rolou “eu me fodi” e “caralho” em rádio.

Tô tristão teve uma versão censurada, com “tô sofrendo pra cacete”, não teve? Teve. A gente começou a ser chamado pra tocar em TV e a única que dava pra tocar no Xou da Xuxa – ela adorava o disco – era o Tributo a Bob Marley. Quando a gente começou a ter demanda de programa, a Warner pediu para a gente fazer uma versão palatável de Tô tristão. Era algo como “tô sofrendo pra canário” (risos). E a gente tocou isso no programa da Angélica (o Misto Quente, na Manchete). Uma coisa de bastidores dessa gravação é que o produtor levou a fita junto, só que levou uma fita que tinha a música original, com os palavrões. E ficaram todas aquelas crianças ali, a gente achando que ia entrar a versão “família” (risos)… O título do disco foi porque a gente estava gravando, os repórteres iam lá perguntar como estava o disco, e a gente falava que era “preto com um buraco no meio”. Levantaram que o nome do disco era uma questão racial, alusão ao negro baleado…

O Tim Maia ficou puto com o título do disco, não? Disse que ia fazer uma música chamada Branco com um buraco na testa. Ele ficou puto mesmo por causa da imitação que o Bussunda fazia dele. Uma vez o Tim deu bolo no Domingão do Faustão e ele chamou a gente pra tocar, e ficou o programa inteiro falando: “O Tim Maia vem, hein? O Tim Maia vem!”. Na hora em que anunciaram o Tim, entrou o Bussunda. Quando acabamos o número, a produção estava de olho arregalando dizendo que o Tim ia lá dar um tiro na gente e matar o Bussunda. O Bussunda falou: “Mas ele garantiu que vem? Então ele vai faltar!” (risos)

Como você se descobriu documentarista? Eu estava com comichão de trabalhar com coisas fora do humor e da TV. Comecei a fazer o documentário do Wilson Simonal (Ninguém sabe o duro que dei, com Micael Langer e Calvito Leal) e começou como uma coisa que me interessava, uma puta história que nunca tinha sido contada. Se eu partisse para a ficção ia ser mais demorado: você tem que ter um roteiro de ficção bom, diálogos bons, treinar o elenco… Nem eu nem quase ninguém no Brasil sabe fazer isso. Documentário já seria mais fácil. Foi uma loja que eu abri, mostrei que podia fazer uma coisa diferente do humor. Só foi penoso por causa da legislação brazuca, direito de imagem. Uma coisa é você filmar gente na rua e pegar a autorização. Outra é fazer sobre a vida de um cara. Direito de imagem no Brasil é hereditário, você passa pro neto, pro tataraneto do cara. A imagem é tida como algo diferente do privado, às vezes a imagem foi feita à força… E meu maior medo era a legalização do uso da imagem da Sarah Vaughan, que tem no filme.

Como foi? Eu fui pro escritório que a representava em Nova York, um representante ficou jogando pro outro, até que um cara me respondeu que eu tinha que comprar a imagem do producer. Eu falei: “Mas eu já fiz isso!”. E o cara: “Então por que você tá me procurando? A imagem é do produtor!” Eu tinha comprado a imagem do espólio da Rede Tupi e morreu aí. Aqui você tem que comprar a imagem e ver todo mundo que aparece na imagem para autorizar. Dá uma falta de saco de fazer. Na hora pensei: “É o primeiro e último!”

Complicado… Mas com a Lei Carmen Lucia, o “cala a boca já morreu”, me animei de novo. Achei que o tema da cena de humor seria um facilitador, porque não tô correndo atrás de podre da vida de ninguém, não é uma biografia. É um documentário-comentário sobre o assunto, e me deu motivação de começar a fazer. Logo depois pintou a oportunidade de fazer um documentário sobre o Chacrinha, que fiz com o Micael Langer. Mas tenho uma produtora e tenho projetos tanto de streaming com outras produtoras, desde programas científicos até série documental.

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

Se você era adolescente no final dos anos 1980, quando as videolocadoras se alastraram pelo Brasil afora e se tornaram uma verdadeira febre, você há de lembrar de pelo menos um filme com a palavra “kickboxer” no título: Graças ao sucesso no Brasil de Kickboxer – O desafio do dragão, um dos trabalhos mais famosos do Jean Claude Van Damme por aqui, as distribuidoras enxergaram ali uma galinha dos ovos de ouro e saíram colocando “kickboxer” em tudo quanto fosse possível, espremendo a laranja até o bagaço (com o perdão da metáfora hortifrutigranjeira)

E mesmo películas que não tinham nada a ver com o assunto ganharam títulos escalafobéticos como por exemplo American Ninja 4 (série que fazia razoável sucesso por aqui), que foi lançado nos cinemas e em VHS como O grande kickboxer americano – A aniquilação dos ninjas (!!!) ou a divertida série Operação Condor estrelada pelo Jackie Chan, que era uma espécie de versão bem humorada do Indiana Jones e que aqui se tornou Um kickboxer muito louco. Mas o que pouquíssima gente lembra é que até o Brasil tentou entrar nessa onda, com o obscuro A gaiola da morte (1992).

Quem teve a ideia foi Fauzi Mansur, produtor e diretor de diversas pornochanchadas sem noção na mítica Boca do Lixo, mas que, com a decadência de lá, se viu obrigado a atirar pra todos os lados na tentativa de ganhar uma sobrevida. Primeiro partiu pros filmes de sexo explícito, o que não deu muito certo porque, com o advento do VHS, o pessoal passou a preferir ver sacanagem na privacidade do seu lar. Percebendo que havia errado no timing, dirigiu um filme de terror em inglês para o mercado exterior chamado Ritual of death que também não deu em nada. Já bastante preocupado tanto com a saúde financeira quanto com a falta de perspectivas para o cinema nacional (Collor assumiu e extinguiu a Embrafilme), tentou sua última cartada aproveitando o filão do momento, produzindo um filme de pancadaria.

Para o papel principal, foi chamado Paulo Zorello, que na época era tricampeão mundial de kickboxing pela WAKO (World Association of Kickboxing Organization). OK, ele não tinha nem metade da fama e do reconhecimento que um Anderson Silva ou Vitor Belfort têm hoje em dia, mas era respeitado no meio e volta e meia era capa e/ou dava entrevistas em publicações voltadas às artes marciais. Esse foi seu único trabalho como ator e, assistindo A gaiola da morte é fácil entender o porquê, já que ele era tão expressivo quanto um poste, mas isso não vem ao caso; afinal, era um filme de artes marciais e nisso ele se garantia muito bem.

No elenco temos ainda várias pessoas que quase ninguém se lembra e. como maior “estrela”, Ênio Andrade, que se notabilizou por participar de obras como O olho mágico do amor e Onda nova (filme esse que viralizou no Youtube graças a uma cena onde uma mulher chega para o ex-jogador Casagrande e solta a pérola “eu sou virgem e queria que você me descabaçasse”). Na direção, foi escalado Waldir Kopesky, e isso pra mim beira o incompreensível, haja vista que tudo que ele dirigiu antes foram filmes pornôs de títulos como A noite do troca-troca e Minha égua favorita. Algo assim tinha tudo para não dar certo… e foi o que aconteceu.

O roteiro praticamente inexiste: um certo professor Yago sequestra lutadores de artes marciais dos quatro cantos do Brasil para gravar lutas numa gaiola (daí o nome, dããã!) repletas de armadilhas onde, como diria o Master Blaster em Mad Max 3, “dois homens entram e um homem sai”. Depois ele lucrava vendendo cópias das fitas no mercado negro. Desesperada com o sumiço de seu irmão, que foi raptado pelo tal Yago, uma mulher (interpretada pela atriz Claudia Abujamra) vai na academia do Paulo Zorello e pede ajuda a ele (não, você não leu errado; Paulo interpreta a si mesmo!) para descobrir o que houve.

Aposto que você que está lendo essas mal redigidas linhas e consumia filmes de artes marciais nos anos 1990 deve ter achado essa sinopse familiar, não é mesmo? Acredite, há uma razão para isso: Ela é um plágio descarado de O rei dos kickboxers, filme de 1990 que fez um enorme sucesso nos cinemas brasileiros. A única diferença é que na versão americana era um policial quem ajudava a irmã da vítima; já aqui, tudo parece ser um veículo para tentar transformar Paulo Zorello numa espécie de Van Damme tupiniquim.

Nesse momento você amigo(a) leitor(a) deve estar se indagando “tá, mas e a pancadaria? Funciona?” e eu, com muito boa vontade, vou dizer que sim, embora A gaiola da morte tenha defeitos tão gritantes que às vezes tenhamos que fechar um olho pra conseguir relevar. Os cenários são paupérrimos (parecem saídos do Chapolim ou do Chaves) e os efeitos sonoros, exageradíssimos (Os socos soam como tiros e os chutes parecem chicotadas) Porém, quando o assunto é a porrada propriamente dita, a coisa não deixa nada a dever para seus co-irmãos da época. Zorello, embora seja um desastre atuando, sabia muito bem o que estava fazendo na hora de distribuir sopapos e, quando o bicho pega, ele não faz feio.

A coreografia das sequencias parece um pouco desengonçada, mas se pararmos para pensar que ninguém envolvido na produção tinha experiência anterior com filmes do gênero, até que não está tão mal. E os últimos 30 minutos são simplesmente inacreditáveis, um verdadeiro festival de sopapo para tudo quanto é lado com direito até a um capoeirista que consegue desviar de tiros (!!!!) É insano demais, e, por isso mesmo, hilário!! É ver para crer!!

A lamentar, somente o fato de essa obra ter sido esquecida da maneira que foi. Além de ter passado em poucos cinemas, ainda foi lançado em VHS por uma empresa bastante obscura chamada Key Art e, se mesmo nos anos 1990, era difícil pra caramba encontrá-lo nas videolocadoras, imagina só achar um exemplar dando sopa por aí hoje em dia…para piorar, também nunca saiu em DVD, entretanto uma alma caridosa resolveu colocá-lo na íntegra no Youtube. A cópia não está das melhores, mas quem se importa? Vale mesmo assim como registro de uma época em que o cinema nacional não tinha lá muitos recursos e mesmo assim não tinha medo de ousar!

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Jane Birkin, atriz britânica

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Jane Birkin, atriz britânica

Vai que alguém esqueceu, mas a já saudosa Jane Birkin, apesar de ter sido popularizada por causa de sua relação com a música e a cultura da França, era uma atriz inglesa. Veio de Londres, era uma figura ligada à swinging London sessentista, e nem sabia falar francês quando apareceu em Slogan, comédia romântica de 1969 na qual contracenou com Serge Gainsbourg, que passou a namorar. Teve duas horas pra aprender o básico do idioma e, quando estava esperando para fazer o teste, bateu aquela crise. “Ouvi outra atriz dizendo todas as linhas do roteiro lindamente, e pensei: ‘Ela é perfeita’. A atriz era Marisa Berenson. Mas (o diretor) Pierre Gimblat me quis para o papel”, contou.

Seu irmão Andrew Birkin era outra figurinha proeminente da mesma turma londrina, como diretor e roteirista de cinema. Em 2014 Andrew lançou o livro de memórias fotográficas POV: A life in pictures, relembrando como foi conviver com uma gama de famosos que incluía dos Beatles (foi assistente de direção do famigerado telefilme Magical mystery tour) a Walt Disney (Andrew migrou para Hollywood em 1964 e teve contato com o pai do Mickey Mouse).

No livro e em entrevistas, Andrew documentou, entre outras coisas, o começo do relacionamento entre a irmã Jane e o autor de trilhas de filmes John Barry, “contra o conselho combinado de familiares e amigos em comum que consideravam John um compositor brilhante – e um péssimo marido”, afirmou Andrew. Anos depois, Jane disse que topou fazer uma cena de nu frontal no filme Blow up – Depois daquele beijo, de Michelangelo Antonioni, justamente por causa de Barry, que havia falado pra ela que ela não teria coragem de fazer isso. “Me ofereceram um papel em Blow Up e ele disse que eu não teria coragem de ficar nua, então pensei: ‘Bem, eu vou fazer e isso vai deixá-lo animado”, contou ao Daily Mail.

E, bom Blow up foi um dos filmes que Jane fez naquilo que, forçando um pouco… Aliás forçando muito, mas a gente faz isso às vezes, dá pra chamar de fase psicodélica da carreira cinematográfica dela. Eram filmes que se aproximavam bem mais de uma linguagem revolucionária, artística e pop – que gerou filhotes como Chelsea girls, de Andy Warhol, e Performance, de Donald Cammel e Nicholas Roeg, com Mick Jagger. Uma fase que estava bem longe de ser a mais gloriosa da carreira dela, já que Jane seguia aquele mesmo esquema de atores iniciantes: poucas cenas, personagens que pouco apareciam e nome que nem aparecia no elenco.

Começou com a comédia Lições de sedução (1965), dirigida por Richard Lester, que fez os filmes dos Beatles. Era a história de Colin (Michael Crawford), um professor meio esquisitão que quer aprender a conquistar garotas. Barry fez a trilha sonora, mas a personagem de Jane aparecia pouco e nem sequer tinha um nome. Seguiu com The idol, filme de 1966, dirigido pelo canadense Daniel Petrie, que narra uma história bem dramática envolvendo estudantes de arte e a vida burguesa e boêmia de Londres nos anos 1960. Esse filme tá inteirinho no YouTube. Procura Jane aí.

Kaleidoscope, filme de 1966 dirigido por Jack Smight, tinha Warren Beatty e Susannah York nos papeis principais e contava uma história mais proxima do universo dos anti-heróis da nova Hollywood do que do dia a dia da psicodelia britânica, envolvendo mesas adulteradas de cassinos e traficantes de drogas. Jane Birkin, ainda em clima de total início de carreira, aparece bem pouco no filme, lá pela uma hora de duração, como uma moça chamada Exquisite Thing, que é cliente de uma butique jovem sessentista, que pertence à personagem de Susanna York. Uma outra novidade é que ela aparece contracenando com Pattie Boyd, modelo, atriz e então esposa do beatle George Harrison, numa cena rápida – Pattie é uma das vendedoras e o personagem dela nem tem um nome.

1966 foi também o ano de Blow up, de Michelangelo Antonioni, um filme tão redefinidor e tão ligado ao rock e a à cultura pop da época que merecia um texto só pra ele. Não foi um momento tão glorioso assim do comecinho de Jane, que apareceu numa cena de nu frontal e mais nada – mas tornou o nome dela bastante discutido por causa da, digamos assim, ousadia. Agora, o melhor viria depois com Wonderwall, filme de1968, dirigido pelo norte-americano Joe Massot, baseado na paixão e no voyeurismo do nerd cientista Oscar Collins (Jack McGowran), vizinho da modelo Penny Lane (Jane Birkin, aí sim com um papel bacana). A trilha sonora do filme também se tornou ilustre: foi o primeiro disco solo de George Harrison (Wonderwall music) e foi igualmente o primeiro álbum lançado pela Apple, gravadora dos Beatles.

E Wonderwall também está inteirinho no YouTube. Pega aí. Depois disso, Jane teria papéis melhores, participaria de produções divididas entre dois, três países (o ousado La piscine, de 1969, era franco-italiano, e trazia a atriz contracenando com Alain Delon e Romy Schneider). E faria sucesso como cantora. Saudades dela.

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Já ouviu o Ghost cantando “Stay”, das Shakespears Sister?

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Já ouviu o Ghost cantando "Stay", das Shakespears Sister?

Lembra de Stay, hit romântico de 1992 das Shakespears Sister? Esse clássico do pop tá de volta, na releitura de um grupo que volta e meia reaparece com releituras inusitadas. O Ghost regravou a música para a trilha de mais um filme da franquia Sobrenatural (A porta vermelha, de Patrick Wilson, já em cartaz). Estreando como diretor no filme, Wilson estava ansioso para ter a música do Ghost na trilha sonora. Ao ouvir Spillways, a colaboração do Ghost com Joe Elliott (Def Leppard) lançada no início deste ano, teve a ideia de fazer um dueto com a banda.

Tobias Forge, líder do Ghost, já estava trabalhando num cover de Stay, que fez bastante sucesso na Suécia, país do grupo, conhecido por sua aparência pesada e satânica, mas também pela disposição para lidar com melodias bastante amigáveis. Wilson disse em comunicado que considera o Ghost uma das bandas mais exclusivas que existem, e que o grupo se comunica com a música que ele ouvia em sua infância e adolescência. “Sou uma criança dos anos 80, quando vozes altas e guitarras ardentes eram tocadas em todos os bailes, todos os estacionamentos de lanchonetes e todos os dias em minha casa. Ghost tinha a mistura certa de metal, melodia e uma imagem inesquecível. Isso vindo de um cara que colecionava figurinhas do Kiss nos anos 70… então eu reconheço uma boa marca e imagens de rock quando as vejo!”, afirmou.

A versão do Ghost mantém o mesmo clima pop-gótico do original, mas dá a canção um aspecto mais sombrio e meio gospel-satânico, digamos assim. Olha aí como ficou.

E esse é o original. Por sinal, a música já tinha um clipe bem funéreo, digamos assim.

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