Parece que foi feito hoje. Dirigido por um italiano chamado Alberto Pieralisi, que viveu bastante tempo no Brasil e fazia produções para a Vera Cruz, O 5º poder, filme de 1962, se passa no Rio, tem um elenco formado basicamente por atores que depois se tornariam veteranos (Eva Wilma, Oswaldo Loureiro, Augusto Cesar Vanucci, Sebastião Vasconcelos) e é um exemplar raro de filme nacional antigo de ficção científica. Conta a história de um grupo de alemães que espalha a violência e a discórdia no Brasil por mensagens subliminares (!) em rádio e televisão.

A ideia da turma é tomar todas as riquezas do Brasil, aproveitando que o país inteiro entrou no caos. Estaria tudo resolvido para os inimigos, se um dos agentes não tivesse pego por acaso uma carona com uma química (Eva). Na pressa, acabou esquecendo um envelope com negativos no Fusca dela. O vacilo do sujeito o coloca no caminho dela e de um jornalista (Oswaldo) que resolve investigar a história. O filme todo mostra imagens do Rio de Janeiro na época – e já vale ouro por causa do resgate do período.

As histórias envolvendo O 5º Poder são tão malucas quanto a própria possibilidade de haver uma pérola perdida da ficção científica nacional. Para começar, além de Alberto, havia mais uma figura louca envolvida na parada. O espanhol Carlos Pedregal, produtor do filme, se tornou mais conhecido como um marketeiro de grosso calibre, e grande estudioso desses assuntos de mensagens subliminares.

Um texto do site Metrópoles dá conta de que Pedregal, um cara sanguíneo e sem papas na língua, atuou nas campanhas de Adhemar de Barros, que foi prefeito, governador de São Paulo e concorreu duas vezes à presidência da República (1950 e 1960). Pedregal foi o responsável pela criação do slogan bizarro “rouba mas faz”, ligado a Adhemar, e que se espalhou feito praga de piolho em creche.

Não era só isso. Uma reportagem da Vice entrega que ao chegar no Brasil, vindo da Argentina, Pedregal resolveu explorar os caminhos da quiromancia, apresentando números em boates de Copacabana, usando o nome Professor Baskarán. Em abril de 1951 passou a comandar o programa Revelações do Subconsciente, na Rádio Globo, e também assinava colunas em publicações como Última Hora e Revista do Rádio.

Na Tupi, Pedregal apresentou programas que exploravam a história das mensagens subliminares, como Psicologia experimental e A mais arrojada experiência do século. Costumava dizer que “um governo tendo na mão emissoras de rádio e televisão pode em 30 dias mudar a opinião pública, levando uma população inteira a agir a seu modo”. O texto da Vice não toca no assunto do filme, por acaso.

Mais: dá até medo (o sentimento é exatamente esse) imaginar que um filme revelador como O 5º poder ficou desaparecido até 2006. Os negativos sumiram e só uma cópia restou: a que foi exibida no Festival de Berlim em 1963. Há doze anos, foi exibido no Festival de Brasília na presença de Pedregal, que morreria em janeiro de 2016. Luiz Zanin, do Estadão, esteve por lá cobrindo o festival e assistiu à fala do produtor, que classificou de “fantasiosa”:

“Segundo Pedregal, o filme, de 1962, participou do Festival de Berlim e várias pessoas entraram em contato com ele, querendo comprar os direitos de exibição. Mais tarde, continua Pedregal, ele descobriu que essa pessoas não eram ligadas ao cinema, mas eram sim agentes secretos, a serviço de potências estrangeiras. Estariam interessadas na tal da mensagem subliminar e o filme a teria retratado tão bem que queriam exibi-lo para os seus serviços secretos (…). E, por delirante que possa parecer a trama, o filme tem raras virtudes cinematográficas. Há cenas de perseguição de carros, cenas de ação em geral, muito bem realizadas. E, no final, um combate entre os alemães e os brasileiros, em cima da estátua do Cristo Redentor, que é de tirar o fôlego. Não sei se hoje um diretor de cinema teria capacidade de dirigir uma cena como essa. A influência óbvia sobre Pieralisi é o Hitchcock de Correspondente estrangeiro e Intriga internacional. O trabalho de câmera é sofisticadíssimo”.

Na época, O 5º poder deu a Pedregal o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor roteiro. Merecido, por sinal. É uma grande pena que o filme nunca tenha sido resgatado para DVD, por exemplo. Mas está pelo menos disponível no YouTube.