Em 1971, o futuro parecia muito torto para o Mott The Hoople. A banda tinha contrato com a Island, que lançara os três primeiros discos da banda. Mas a gravadora parecia não saber o que fazer com um grupo de hard rock classe operária, que parecia cada vez mais longe do estrelato. Por algum motivo, David Bowie tornara-se fã do disco Mad shadows, o segundo deles, de 1970, e chegara a oferecer uma música para eles. Era justamente Suffragette city, que o próprio Bowie gravaria em The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars (1972), mas da qual o Mott não gostou muito. “Era uma boa música, mas não sabíamos se era a música certa para nós”, afirmou o baixista Overend Watts em diálogo transcrito no livro Dangerous glitter, de Dave Thompson.

O jogo só virou para o Mott quando Watts ligou para Bowie descompromissadamente e o cantor perguntou se ele gostaria de ouvir outra música que ele havia feito para a banda. Era o futuro hit All the young dudes, que Bowie – após buscar Watts em casa, a bordo de seu Jaguar – tocou para o músico na frente do seu então empresário Tony DeFries. Tony prometeu contratar a banda, tirar o grupo da Island e mudar a história do grupo liderado pelo cantor e compositor Ian Hunter. Cumpriu a promessa: o Mott foi contratado pela CBS e acumulou sucessos nos seus últimos anos de vida. Dudes virou o maior hit da banda e ganhou ares de hino de geração.

Mas essa introdução é só para avisar que alguém jogou no YouTube um trecho de show, gravado para a TV, do Mott ainda em fase pré-sucesso, pouco depois do lançamento do quarto disco, Brain capers, de 1971. Gravado no Taverne de L’OLympia, em Paris, em novembro daquele ano, o vídeo mostra o grupo numa fase bem diferente, mais pesada, e com tecladeria lembrando Deep Purple. No roteiro, The moon upstairs, Walking with a mountain, Rock, roll queen e Keep a knockin.

Apesar da boa qualidade, Brain capers foi considerado pelo próprio grupo como “o som da banda se desfazendo”, não vendeu nada e rendeu shows melancólicos. Com All the young dudes, as coisas mudaram, mesmo que a ligação da banda com DeFries não tivesse durado muito. O empresário se encheu com o fato de que precisava conversar com todos os integrantes da banda para que todos chegassem a uma decisão – bem diferente de Bowie, que decidia tudo sozinho. A banda assinou com o empresário de Lou Reed, Fred Heller, e permaneceu na CBS até terminar.