Inspirado no programa americano Jukebox Jury, o Juke box jury da BBC foi ao ar entre 1958 e 1967, sempre com uma premissa absurdamente simples. Músicas recém-lançadas eram mostradas a um júri de convidados (cantores, atores, produtores musicais, celebridades). Essa turma avaliaria as canções e decidiriam o potencial de sucesso de cada uma delas, na base do pegar-ou-largar (“hit” or “miss”, enfim).

Anos 1960 adentro, o programa revelou sucessos e montou configurações bem criativas de jurados. Os quatro Beatles já compuseram um júri inteiro, bem como os cinco Rolling Stones da formação sessentista (o malvadão Keith Richards lembrou da experiência em sua autobiografia Vida e disse que o grupo “detonou todos os discos que foram apresentados”).

Como a atração andava mal de audiência no final da década, a BBC resolveu tirar o Juke box jury do ar. Só que ele ainda batia uma bolinha a ponto de ter sido reavivado pelo canal algumas vezes. Em 1979, com o mauricinho Noel Edmonds à frente, a atração retornou ao canal, com time renovado de participantes, e os hits do período sob fogo cruzado. Numa das edições mais célebres, reuniram um time eclético a ponto de incluir a atriz Joan Collins e ninguém menos que o debochado John Lydon (Sex Pistols, PiL).

Olha aí. Tem legendas em inglês (razoáveis).

Para entender o significado do Juke box jury, basta dizer que hoje em dia um programa desses jamais iria ao ar. Seria inimaginável numa época em que artistas acumulam “feat.” em discos alheios, nomões imploram para participar de singles de estrelas ascendentes, e best sellers do sertanejo entregam que o segredo do sucesso do estilo musical “é que os artistas são unidos, ao contrário do _____” (preencha como quiser). No Juke box jury, com os hits rolando, o julgador poderia falar o que quisesse. Inclusive (muito) mal do que ouvia.

Em 1979, o rock ainda era sinônimo de “pop” e de “música jovem”. Só que, nas paradas de sucesso, ele passava por uma fase de retorno da era do bubblegum, via powerpop. E era constantemente humilhado pela disco music e seus derivados. No programa acima, caíram para o time de Lydon e Joan – que ainda incluía a atriz Elaine Paige e o DJ da BBC Alan Freeman – canções como a chicletuda Sweet little rock´n roller (do grupo pop Showaddywaddy), o clássico disco-music Bad girls, da Donna Summer e Angel eyes, do ABBA.

Lydon faz cara de tédio a cada música, classifica Bad girls de “lixo” (muita maldade…) e ao ser perguntado sobre o que achava de Angel eyes, revira os olhos e diz “nada, é horrível”. Num dado momento, Edmonds não se aguenta e pergunta a Lydon que tipo de música ele aprecia. “Música decente”, responde o vocalista, causando risos na plateia. O apresentador insiste e pergunta se ele pode dar um exemplo. “A minha própria música, por exemplo”, diz.

Aliás, a pérolazinha abaixo também foi apresentada a Lydon & cia: C’est sheep, de Adrian Munsey, música eletrônica que misturava batidas e mugidos (!). Munsey era um produtor de TV envolvido com música, e Sheep tinha sido produzido pelos dois irmãos do Sparks, Ron e Russel Mael.

A música provoca verdadeira aflição nos convidados, que têm que falar suas opiniões na frente do próprio Munsey, presente no estúdio. Lydon não nega fogo e diz que a música é “a Virgin Records (sua própria gravadora!) tentando faturar uns trocados e falhando miseravelmente”.