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Cultura Pop

Humor em discos: de Ronald Golias a Dercy Gonçalves – descubra!

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Humor em discos: de Ronald Golias a Dercy Gonçalves - descubra!

Quem tem entre 35 e 45 anos com certeza lembra BASTANTE desses discos – ou ouviu escondido dos pais em algum momento. A fórmula, em vários casos, era simples: um/uma humorista reúne uma galera num estúdio, ou grava o áudio de um show, lança em um disco sem muitos requintes de produção e… pronto, venda garantida. No máximo rola uma vinheta musical – que poderia ser um fonograma de outro disco, licenciado – e acabou. Deu certo por muitos anos (hoje essa turma estaria lançado webséries e fazendo vídeos especiais para o YouTube, ou podcasts) e vendeu LPs a rodo, com muita demanda.

Muitos deles jamais foram reeditados em CD, e só conhecem uma entidade chamada “formato digital” por causa do YouTube. E claro que alguns desses LPs não fariam ninguém nascido após 1985 ou 1990 mover um músculo sequer da face (fora que muitas das piadas seriam vistas como machismo, homofobia, bullying etc). Mas dá para descobrir muita coisa legal aí: vários desses discos apelam para um tipo de humor que ainda dá muita audiência (“A Praça É Nossa” e até modernidades como o “Tá no Ar: A TV na TV” vivem disso), têm herança direta do rádio (de programas clássicos como “A turma da Maré Mansa”) e, para quem se liga nesse tipo de coisa, fizeram história. Descubra aí.

“Jacinto, o donzelo” – Jacinto (1973). Humor ingênuo e puramente radiofônico em disco – cortesia do humorista campinense Murillo de Amorim Correia, que foi do elenco da “Praça da Alegria” e da “Turma da Maré Mansa”.

“O peru da festa” – Costinha (1982). Humor 100% politicamente incorreto, de fazer uma estátua de pedra rolar de rir. Entre as melhores piadas: o português que cruzou sua vaca com o boi de um amigo; uma freira, um padre e um camelo perdidos no deserto; o rapaz que foi transar com uma garota, teve um desarranjo e passou a noite no banheiro. E a épica morte da “bichinha” (sic) Odete. Saiu em CD.

https://www.youtube.com/watch?v=YbMYuQCgtPA&t=18s

“Ao vivo” – Juca Chaves (1972). Para entrar no clima: logo na abertura um “porra” faz a plateia cagar de rir. Vendeu tanto – e foi escutado, escondido ou não, com tanta intensidade nos anos 1970 e 1980 – que algumas piadas viraram memes, como a das “putas das batatinhas” e a da moça dadivosa que presenteava os garotos com canivetes suíços. O refrão de “Sou sim, e daí?” marcou época (“essa é a vida que eu sempre quis/eu sou cornudo mais eu sou feliz”).

“Ninguém segura este nariz” – Juca Chaves (1974). Espécie de continuação do “Ao vivo” de 1972, desta vez gravado ao vivo num show, não num estúdio. Na época, virou assunto de mesa de bar por causa de “Take me back to Piauí”, fazendo referência a uma briga de casal envolvendo uma famosa jornalista (hoje deputada) e um conhecido diretor de cinema (“manga não, manga é um perigo, quem provou quase morreu”).

“Eu sou o espetáculo” – José Vasconcelos (1960). O mais próximo que um disco de piadas lançado nos anos 1960 consegue chegar do conceito de stand-up comedy, com causos, imitações (como a série dedicada a dubladores do cinema) e depoimentos pessoais.

“As anedotas do Pasquim” – Golias, Zé Vasconcelos, Ziraldo e Chico Anysio (1980). O disco inteiro foi gravado com uma claque igual à dos programas humorísticos, meio chatinha, e boa parte das piadas você já ouviu em ceias de Natal e demais festas em família, mas vale a menção.

“Alta rotatividade” – Agildo Ribeiro e Rogéria (1981). O “Sgt Pepper’s” dos discos de humor. O mestre de cerimônias Luiz Pimentel entrevista Rogéria, pergunta se a ordem dos fatores altera o produto e ouve dela: “Dependendo do produto perco a ordem e agarro todos os fatores”. Agildo conta histórias da época em que morava num apartamento tão pequeno que quando entrava, já caía na cama. E zoa impiedosamente o colunista social Ibrahim Sued, que ficava extremamente puto com as imitações.

“Dercy espertacular” – Dercy Gonçalves (1983). Para quem ama loucamente humor repleto de palavrões. E, assim como acontecia no disco de Juca Chaves lá em cima, expressões amigáveis como “foda-se” ou “puta que pariu” ainda faziam sucesso com a plateia no começo nos anos 1980. Dercy chama “noite de núpcias” de “noite do embucetamento” e arranca uivos do público. O mais engraçado estava na capa: o aviso de “proibida a venda para menores de 21 (!) anos”. Saiu em CD.

“Roberval Taylor”- Chico Anysio (1976). Um clássico, com as vinhetas e locuções do radialista do programa “Chico City”, patrocinado por várias marcas de cachaça como a raríssima “Donzela do Leblon”. Roberval agradece no início: “Muito obrigado a vocês e muito obrigado a nós mesmos!”. Tem participação até da zebrinha do “Fantástico”.

https://www.youtube.com/watch?v=-ioMGUr0swo

“Escolinha do Golias” – Ronald Golias e Carlos Alberto de Nóbrega (1968). Sim, teve isso: um LP da “Escolinha do Golias”, que anos depois faria sucesso nas tardes do SBT. Foi relançado várias vezes. Um sujeito pôs no YouTube a edição de 1974, em duas partes. O lado A, com o hoje homem da “Praça é Nossa” sabatinando o humorista, rende muitas risadas.

https://www.youtube.com/watch?v=GJMGN1E-P6w

https://www.youtube.com/watch?v=xXj2jWaC5fs

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Relembrando: Nile Rodgers, “Adventures in the land of the good groove” (1983)

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Relembrando: Nile Rodgers, "Adventures in the land of the good groove" (1983)

Nile Rodgers vivia uma espécie de estresse pós-traumático no começo dos anos 1980. O ex-guitarrista do Chic, um dos maiores gênios musicais que o planeta Terra conhece, tinha sido quase cuspido para fora do mainstream por causa do preconceito com a música dançante e com a disco music, no fim dos 1970. Um alegado desvio ultra-comercial da música feita para dançar, além de um evento-bizarrice chamado Disco Demolition Night (em que LPs de disco e de black music foram quebrados pelo público, numa ação que o próprio Nile compararia à queima de livros pelos nazistas) aumentaram mais ainda esse isolamento.

  • Temos episódio de podcast sobre a fase 1980-1983 de David Bowie.
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Em meio ao fim do Chic, ao excesso de drogas e à desilusão com o mercado fonográfico, Nile simplesmente desistiu de fazer hits. Ou esqueceu como se fazia, pelo menos por uns tempos. Começou a produzir outros artistas (fez Koo koo, estreia solo de Debbie Harry, do Blondie, lançada em 1981, que fez sucesso moderado) e reuniu material para seu primeiro voo solo, lançado logo após às ultimas investidas do Chic. Ainda sem ter certeza de que a estreia seria um sucesso de verdade.

Adventures in the land of the good groove, estreia solo de Nile Rodgers (11 de março de 1983) não estourou. Azar de quem não deu atenção para a estreia do músico, um disco com oito módulos dançantes, sem refrãos fáceis, primo da house music e até do jazz. Na época, fez sucesso com a crítica – Nile já estava escalado para produzir Let’s dance, de David Bowie (1983) e a revista Smash Hits chegou a afirmar que “se o disco de David tiver metade da qualidade, será excelente”.

Acaba servindo como um elo nada perdido entre a fase do Chic e as produções que Nile fez para Bowie e Madonna, em faixas como a afro-latina The land of the good groove, o pré-rap safado Yum yum (“dormi com as mãos sobre ele/me dê um pouco desse yum-yum antes de dormir nesta noite”), o funk-rock dançante de Beet (provavelmente a música do álbum que mais impressionou Bowie, já que realmente tem muito do groove do álbum Let’s dance) e Rock bottom.

Nile, em sua autobiografia Le freak, queixava-se (com toda razão) de que artistas brancos fazendo balanço invadiam as paradas de pop e r&b. Escreveu também, complementando, que negros que faziam sons dançantes ficavam restritos à parada de r&b (se fizessem misturas com new wave e rock em geral, perdiam mais terreno ainda). Adventures, heroicamente, era o disco que repatriava sons que Nile e seu parceiro Bernard Edwards haviam criado no Chic – e que haviam sido chupados por uma turma que incluía Queen, Blondie e uma galera enorme.

O design sonoro de Get her crazy, por exemplo, era análogo ao de Another one bites the dust, do Queen. Most down e It’s all in your hands eram o que o álbum entregava para quem era fã de David Bowie – mas Bowie foi outro que ficou de olho na música dançante dos anos 1970 e pôs tudo em seus discos, do seu jeito. Era o jeito do próprio Nile trazer de volta o que sua própria turma havia criado, e que estava “nas mãos” dos músicos para os quais frequentar as paradas de rock e new wave era rotina frequente. Tinha ainda a balada romântica My love song for you, uma das canções mais prototípicas do álbum.

Nile, que já tinha uma carteira considerável de hits com o Chic, conseguiu mais sucesso como produtor (e ajudou a fazer hits!) e como criador de trilhas sonoras do que como artista solo. Adventures e o segundo álbum, B movie matinée (1985) não venderam muito. O músico fez Madonna estourar com o álbum Like a virgin (1984), uniu-se a Bill Laswell para ajudar a bombar o primeiro disco solo de Mick Jagger (She’s the boss, 1985). Fez várias outras colaborações e produções, e até lançou em seu selo Sumthing Else trilhas para games (em DVD, o que era uma novidade para o mercado). Hoje mantém uma versão nova do Chic, que já veio até no Rock In Rio, em 2017.

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Relembrando: Julian Cope, “Saint Julian” (1987)

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O cantor e compositor galês Julian Cope costuma ser mais lembrado como o músico genioso que brigou com um (ex) amigo, Ian McCulloch, e o expulsou de sua banda, A Shallow Madness. Com outra formação (e sob a liderança de Cope), essa banda se transformou no Teardrop Explodes, grande grupo da região de Liverpool, cidade para onde Cope migrara. Ian, por sua vez, talvez estivesse em condições de mandar um “valeu, parceiro, é isso aí” para o ex-amigo (e o resto da história de Ian, você talvez já saiba – se não sabe, temos um podcast a respeito).

  • Temos um episódio do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, também sobre o Teardrop Explodes.
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Julian, como líder de banda, nunca foi um sujeito fácil: vivia doidão, tinha fama de tirano, sempre foi dado a ranços e rancores de morte. “Costumo fazer as entrevistas porque eu sou o único que realmente tem algo a dizer”, chegou a falar sobre seus colegas de Teardrop Explodes.

O grupo durou apenas até 1983. Após o fim, Cope precisou de um tempo para se livrar dos excessos (numa época em que muita gente já achava que ele tinha virado um Syd Barrett do pós-punk) e embarcou numa ótima carreira solo, que demorou alguns anos para fazer sucesso de verdade. Saint Julian, o primeiro álbum de Cope que muita gente escutou (lançado em 2 de março de 1987) já era seu terceiro álbum.

Saint Julian é mais conhecido por duas canções bem populares, Trampolene e World shut your mouth (mesmo nome do primeiro LP solo dele, de 1984, mas a música só saiu no terceiro álbum). O disco veio de um verdadeiro bombril que Julian topou passar em sua carreira: assinou com a Island, cortou o cabelo, adotou uma imagem mais positiva de rockstar, vestiu-se de couro da cabeça aos pés e passou a gravar canções com arranjos mais “épicos”.

O lado mais dark do seu trabalho anterior estava lá ainda, mas sob a forma de verdadeiros hinos, como Shot down, Saint JulianEve’s volcano e outros. Além de pelo menos um clássico punk-psicodélico, Pulsar. E de uma canção de oito minutos, arrastada e sombria, e de teor quase medieval: A crack in the clouds. Já Screaming secrets é uma das faixas mais associáveis ao Teardrop Explodes, com toda a carga dramática da ex-banda de Cope na letra (“preciso questionar/todas essas coisas que são bons conselhos”).

O disco também representava uma volta às origens: Julian estava encantado novamente com o lugar na Inglaterra onde passara a infância (Tamworth, uma cidade de 74.272 habitantes) e incluíra a bandeira da localidade até mesmo no logotipo do LP, publicado no encarte. Enxergava ligações até mesmo entre o design da bandeira e a criação do famoso microfone “de três andares”, com apoios para o pé, que Cope vinha usando nas turnês desde 1986.

Numa entrevista da época (lançada num single que foi incluído em algumas edições do disco), Julian admitia que Saint Julian apostava suas fichas no vermelho e no preto simultaneamente. Interessado em temas como paganismo e ocultismo – e portador da pecha de “guru do ácido” da geração pós-punk – Cope atraía um rebanho de freaks que chegava a peregrinar até sua casa.

Ao mesmo tempo, o cantor zoava o culto aos astros, e o que chamava de “me siga, vou liderar você”, ou “agitar bandeiras” (talvez uma referência cruel ao bandeirão branco que Bono, do U2, agitava no palco na época da turnê do disco War). “Nunca nem me ocorreu que eu teria que falar com pessoas. Eu era um grande fã de John Cale, fui vê-lo em Birmingham, e nunca me passou pela cabeça a ideia de dizer um ‘olá, como vai?’ a ele”, brincou.

A carreira de Julian Cope ainda teria altos e baixos imediatos logo após Saint Julian – um disco do qual (incrivelmente!) ele já declarou não ser muito fã. Seu contrato com a Island prosseguiria com o bom My nation underground (1988), mas sofreu abalos quando ele resolveu gravar um disco quase pirata dentro da gravadora, Skellington (lançado só em 1989). Cope vem lançando discos até hoje, equilibrando-se entre psicodelia, pós-punk e até folk pagão, e divide seu tempo com a carreira de escritor – tendo lançado livros importantes como Krautrocksampler, com a história (resumida) do rock experimental alemão. E tem que ser mais ouvido.

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No nosso podcast, Prince na fase 1982-1986, incluindo “Purple rain”

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A partir de 1982, com o disco 1999, Prince redefiniu os parâmetros da palavra “revolução” em música. Se você ainda não conhecia Prince, estava obrigado a prestar atenção nele. Você iria acabar notando aquele gênio musical que compunha praticamente tudo sozinho, produzia seus próprios discos, tocava todos os instrumentos (mas liderava uma turma bem legal no palco, a banda The Revolution), apresentava hits como When doves cry, 1999, Little red corvette, Raspberry beret. E ainda migraria para o cinema, com o megasucesso da tela Purple rain.

Prince era pop. Mas apesar disso – e talvez por causa disso – incomodava. Era um músico preto liderando uma banda, era um cara de visual andrógino atuando nos conservadores anos 1980, foi o autor de músicas extremamente ativas sexualmente, foi o compositor que deixou uma turma indignada com o conteúdo de suas letras. E no segundo episódio da temporada 2024 do nosso podcast Pop Fantasma Documento, a gente viaja na fase 1982-1986 de Prince – aquele período em que o título de “rei do pop” concedido a Michael Jackson ficou severamente ameaçado.

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Black Pumas e Yoùn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas!

Arte: Aline Haluch em cima da capa de Parade.

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