Do Charlie Brown Jr – cujo líder Chorão morreu há cinco anos – uma coisa pode ser dita: a banda tinha videoclipes bem interessantes e que fugiam bastante da média do clipe nacional. Isso graças ao próprio vocalista, que se responsabilizava pessoalmente pelos roteiros e tentava contar histórias que iam além da música. Em alguns casos, a música era trilha sonora para uma história maior.

Foi o caso do clipe de Hoje eu acordei feliz, do disco 100% Charlie Brown Jr. – Abalando a sua fábrica, de 2001, dirigido por André Abujamra. Lançado em alta rotação na MTV, tinha como trilha principal a música, e ainda usava outras faixas do grupo, como a gritalhona T.F.D.P. e Sino dourado. No clipe, que contava uma história de roubo e traição que acabava mal, todos os integrantes do grupo morriam assassinados. Por uma infeliz coincidência, Chorão e o baixista Champignon, ambos mortos em 2013 (o primeiro de overdose de cocaína, o outro suicidou-se), são os últimos da fila e morrem juntos, abatidos a tiros.

Na época, a MTV fez um especial do programa Produzindo o clipe com Hoje eu acordei feliz, mostrando André dirigindo a banda, junto com vários atores – Antonio Abujamra, Theo Werneck e Graziella Moretto entre eles. No vídeo, que dura uns 22 minutos – e foi tirado de uma fita VHS sem muita conservação – André explica a Champignon as diferenças entre “uma morte verdadeira, uma morte falsa e uma morte meio verdadeira, meio falsa”. Também dirige a banda em cenas de troca de tiros na entrada do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. E o grupo aprende como fazer cenas de briga com convicção, mesmo que ninguém ali seja ator. Numa das cenas, André pede para a banda levar a sério o uso de armas na gravação. “Mesmo que elas estejam descarregadas, eu vou pedir pra vocês não brincarem com elas, porque o pessoal ali dos efeitos especiais tem uma puta responsabilidade…”, conta, embora o grupo não esteja muito disposto a seguir suas instruções (dá pra ver na sequência).

“O clipe é a história de quatro malucos que são contratados pra fazer um assalto. Eles são bem sucedidos nesse assalto, se disfarçãm de polícia. Quando trocam o produto do furto pelo dinheiro – que era uma coisa pra eles ganharem um dinheiro – eles são surpreendidos porque os malandros que eles contratam para fazer o assalto tentam ser mais malandros. Isso gera uma coisa meio ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, diz Chorão.