O rock, aquele inimigo da família e dos valores cristãos. Ex-fã de astros do rock como Jimi Hendrix e Jim Morrison, o apresentador, palestrante e pastor Eric Holmberg lançou em 1989 – por intermédio de seu ministério Reel to Real – o VHS Hell’s bells: The dangers of Rock n’roll.

O objetivo da fita de vídeo, que virou discussão imediada em escolas e igrejas nos Estados Unidos, era mostrar o quanto as culturas do rock e do heavy metal estavam impregnadas de valores anticristãos. E de satanismo. E de suicídio, violência, sadismo e outros temas. A novidade é que alguém pegou esse VHS e jogou inteiro no YouTube, em diversas partes. Tá aí.

Antes de qualquer outra coisa que justificasse (para seus idealizadores) o VHS, os anos 1980 foram uma época em que o heavy metal virou discussão mundial. E não apenas no Brasil, país em que Ozzy Osbourne teve que assinar um contrato (com o Rock In Rio!) em que era terminantemente proibido de comer morcegos no palco.

Cinco anos antes de Hell’s bells ser feito, dois garotos de Long Island, Richard Kasso e James Troiano, tinham sido acusados de matar e torturar outro garoto, Gary Lauwers, num alegado ritual satânico. A discussão a respeito de satã, drogas e heavy metal pegou fogo quando Kasso, ao ser preso, foi fotografado usando uma camiseta do AC/DC. Rolaram discussões parecidas a respeito do Slayer, por causa do single de Mandatory suicide (1988), cuja capa traz um adolescente enforcado no quarto. Ou quando Ozzy Osbourne foi processado por causa de Suicide solution, uma música sobre sua própria relação suicida com o álcool. Somado a isso, o rock era uma baita indústria e movimentava muita grana – algumas cifras são inimagináveis para os dias de hoje.

A marcação cerrada do documentário não foi só com o metal. Dependendo do seu grau de envolvimento com cultura pop e com música, Hell’s bells pode servir como sua introdução para uma série de novos artistas. Ou como uma demonstração do quanto rock, no auge da MTV e de astros pop como Madonna e Prince (jogados no meio do bolo), fazia soar um sinal de alerta na cabeça de muitas pessoas. Ali, tinha de tudo.

O AC/DC dava nome ao doc com sua Hell’s bells, mas ainda tinha o punk do Agnostic Front, a música sombria de Diamanda Galás, a rebelião de Alice Cooper. E até sons bem inofensivos, como Phil Collins – visto como uma espécie de isentão da música, “mais destrutivo que a maldade do rock”. Chris de Burgh, tadinho, popularizou-se com o hit pop The lady in red – mas precisou ouvir poucas e boas por causa da contracapa de um disco seu de 1975, Spanish train, que tinha uma mão fazendo o sinal do chifre (popularizado pelos bangers).