Em outubro de 1969, o rockstar Gene Vincent, de hits dos anos 1950 como Be-bop-a-lula, tinha recém saído de uma barafunda de álcool, shows vazios e fracassos. Resolveu fazer uma turnê para alavancar as promoções do disco I’m back and I’m proud, lançado pelo selo do DJ John Peel, Dandelion. Arriscou uma chegadinha na França para uns shows em Paris e deu azar: sua bagagem foi extraviada e a banda de franceses que escalou para tocar desistiu do trabalho no último minuto. Sua produção chamou outros músicos, que não tinham a menor familiaridade com seu trabalho. Podia piorar mais? Podia: Gene e seu road manager foram assaltados no quarto do hotel e os contratantes fugiram sem pagar.

Era nesse clima que Gene chegava na Inglaterra, depois de vários anos sem ir até lá, para continuar a turnê. A BBC não perdeu tempo e botou uma equipe para correr atrás do astro. A turma saiu de lá com o doc Rock and roll singer, que alguém subiu para o YouTube – tem legendas automáticas (boas) em inglês. Logo no começo, o DJ Emperor Rosko faz uma breve entrevista com Gene e pergunta a ele sobre o que ele mais ama ou odeia. O astro ama sua mulher e seu cachorro, e odeia… bandas francesas. “Elas nunca comparecem ao trabalho”, diz, numa sinceridade que hoje faria mal ao cantor e compositor.

O filme vai atrás de Vincent em quatro dia de shows e ensaios. Gene é recebido por fãs com visual rockabilly no aeroporto (um deles lembra fisicamente Dave Vanian, vocalista do The Damned), ensaia com sua banda para shows na Inglaterra, Wild Beasts, em muquifos disfarçados de estúdios, e parece extremamente cansado. Todos fazem uma visita bizarra ao longevo The today show, da Thames Television, em que o cantor é ensanduichado na grade da atração, após o apresentador dar notícias sobre preços de produtos alimentícios (!). Ao longo do filme, Gene e sua turma frequentam salas de shows diminutas e hotéis baratos. Em alguns momentos, o cantor é flagrado reclamando de cachês recebidos pela metade.

Fica claro que se trata de uma despedida de Gene, que vinha sofrendo de problemas de saúde havia alguns anos e morreria em 1971. Na época, ele estava um tanto esquecido, até pelos antigos fãs. Um problema que atingia boa parte dos roqueiros dos anos 1950, considerados ultrapassados pela juventude dos 60 – muito embora os Beatles fizessem questão de ressaltar o quanto amavam as primeiras gerações do rock. No meio de tantos problemas, um respiro dessa tour pela Inglaterra foi o show final do filme, com Vincent aplaudido de pé por uma plateia jovem e mal conseguindo acreditar nos pedidos de bis. Está tão atordoado que seu produtor o leva pela mão até o palco.