Nos anos 1960 e 1970, tinha muita gente em busca de gurus, de guias espirituais. A moda hippie e a onda psicodélica criaram um enorme interesse por esoterismo, espiritismo, meditação, filosofias orientais – e até pelo bom e velho cristianismo. Tanto que de uma hora para outra voltou a fazer sentido ler a saga O senhor dos anéis, de J. R. Tolkien. Lançada nos anos 1950, a triologia retornou com força total nos malucos anos 1960, a ponto de os Beatles consideraram seriamente a hipótese de fazer um filme com a obra.

O tal filme dos Beatles nunca aconteceu. Mas de qualquer jeito, a obra foi abraçada pela contracultura a ponto de surgirem pixações como “Frodo vive!” e “Gandalf para presidente!” nas paredes de estações do metrô de Nova York, nos anos 1960. E de Marc Bolan ter como parceiro, na primeira fase do T. Rex, a figuraça underground Steve Peregrine Took (cujo nome foi tirado do hobbit Peregrine Took, ou Pippin, ou Pipinho, na zoada tradução publicada no Brasil em 1974).

Gandalf The Grey: um astro psicodélico saído do mundo do Senhor dos Anéis

E tinha também essa figura aí de cima, que gravou um disco em 1972 e se intitulava Gandalf The Grey. The grey wizard am I, disco autobancado, trazia sons folk-rock à moda do (olha só), T Rex. E canções psicodélicas e pretensamente visionárias como The home coming (The sun is down), The future belongs to children e Sunshine down the line.

O cara que incorporava o mago era um sujeito chamado Chris Wilson, que vinha da cena roqueiro-psicodélica de Nova York dos anos 1960. Liderou uma banda chamada The Other Half – mesmo nome daquele grupo que fez relativo sucesso com Mr. Pharmacist, gravada nos anos 1980 pelo The Fall. Chris também fez algum sucesso como “trovador solitário” em clubes e chegou a ser contratado por um tempo pela Columbia, mas não estourou. Em 1972, adotou o pseudônimo de Gandalf The Grey, gravou seu primeiro (e único) disco em seu quarto no Greenwich Village e mandou prensar mil cópias, com distribuição pequena.

Diz esse site aqui que Wilson era tão fã do universo do Senhor dos Anéis, que tinha um quadro com um mapa da Terra Média em seu quarto, pertinho de onde o disco foi gravado. Wilson parecia meio atrasado para meter psicodelia e magia no mercado do rock. Mas levando em conta que na época já tinha o Black Sabbath falando de magos e demônios, e que o maior astro pop (David Bowie) personificava um estranho que tinha vindo do espaço (Ziggy Stardust), até que a mania dele pelo universo de Tolkien tinha a ver.

Tem pouca info sobre Wilson rodando por aí. O que o Allmusic revela sobre ele é que ele montou no fim dos anos 1970 uma companhia de produção multimídia chamada The Grey Wizard. E que em dezembro de 1982 a firma lançou o primeiro vídeo single do mercado, de um sexteto chamado Wizard. A ideia parecia boa: era um VHS de dez minutos da banda, com duas músicas. Saiu até na Billboard.

Gandalf The Grey: um astro psicodélico saído do mundo do Senhor dos Anéis

Se você tem vontade de ter um desses em casa, sem problemas: The grey wizard am I foi reeditado em CD por um selo chamado Gear Fab, com faixas bônus.