Frank Black, estreia solo do vocalista dos Pixies (1993), até aquele momento conhecido como Black Francis, foi um disco feito no estresse. E Charles Thompson, o homem por trás do codinome, é (ou era) um sujeito esquentado. Num papo com a Uncut em 2013, revelou que tinha feito terapia para lidar com isso (“na minha família não somos pessoas violentas, mas quebramos coisas, pisamos forte, gritamos”, contou). E disse que na época do debute, ficou tão envolvido com o trabalho que passou vários dias sem dormir.

Frank Black simpaticão, lançando o primeiro disco numa loja da Austrália

“Fiquei dois dias escrevendo e cantando. Isso, se você não é um louco por velocidade ou cocaína, é muito tempo. Então eu dormi em uma rede. Minha esposa – ex-esposa – disse que eu dormi com a saliva seca no meu rosto, como uma pasta branca. Uma coisa que é constante em todas as minhas composições e gravações é o elemento de privação de sono. Quando você fica animado com o que está fazendo, você trabalha deliberadamente com menos e menos sono”, confessou.

E essa introdução foi só para dizer que achamos no YouTube um dos shows mais intimistas e bacanas que estavam na agenda de Frank Black na época do lançamento de seu primeiro disco. A apresentação de voz-e-violão na loja Sam The Record Man, em Vancouver, Canadá. Frank estava numa onda bem-humorada e irônica no primeiro disco, falando de discos voadores, situações bizarras de inadequação (Los Angeles, maior hit do álbum, falava de uma cidade com esse nome, só que localizada no sul da Patagônia) e personagens malucos (como a homenagem ao lado piloto do cantor John Denver em Czar).

No show, fez piadas entre as músicas, divertiu o público berrando o refrão de 10 percenter (“sou um punheteiro!”) e contou algumas histórias das músicas do primeiro disco, como a de que Fu Manchu (cujo título foi roubado de uma homônima de Desmond Dekker) teria sido inspirada pelo bigode do personagem de quadrinhos. Também pôs óculos escuros e brincou: “Sou o Bono!”. Vale cada minuto. Repertório: Old black dawning, Czar, Brackish boy, I heard Ramona sing, Ten percenter, uma releitura irônica do hit romântico Duke of Earl (um sucesso de Gene Chandler gravado depois por The Platters, New Edition e mais uma porrada de gente), Don’t ya rile’em, Fu Manchu.

Ouça e veja aí.

E se você está lembrando de Sam The Record Man de algum lugar, talvez você tenha visto essa cadeia de loja de discos popularíssima no Canadá no documentário Rock-A-Bye, do qual falamos aqui. Sam Sniderman, o dono da empresa, conseguiu segurar a marca no mercado até 2007.