Despediu-se na semana passada um dos nomes mais misteriosos da história do rock. Danny Kirwan, que foi guitarrista e um dos principais compositores do Fleetwood Mac entre 1968 e 1972, morreu dia 8 de junho aos 68 anos, de causas ainda não anunciadas.

A fase casa-da-sogra do Fleetwood Mac (1969-1974) em nove músicasO músico londrino estava desaparecido da música desde o fim dos anos 1970, quando desistiu de uma carreira solo que durou poucos discos. E não era mais encontrado por seus ex-colegas de banda desde então. Tinha chegado a viver nas ruas de Londres nos anos 1990. Em 1998, quando o Fleetwood Mac entrou para o Rock And Roll Hall Of Fame, ele também foi entronizado. Nem sequer se deu ao trabalho de ir à cerimônia.

A história de Danny, dentro e fora do grupo, foi barra pesada. O baterista e fundador Mick Fleetwood lembra em sua autobiografia Then play on que o uso de drogas e álcool (esse, em particular) foi detonando a saúde mental do músico. A ponto de ele começar a ficar violento e perigoso. Certa vez, imediatamente antes de um show, após reclamar do som da guitarra do colega Bob Welch, simplesmente bateu com a cabeça contra a parede, ficando todo ensanguentado. Depois quebrou sua guitarra e se recusou a subir no palco com a banda.

Após a apresentação (que correu sem ele, com Welch, guitarrista-base, tentando cobrir suas partes), os colegas, crentes de que Kirwan já estava no hotel, tiveram uma surpresa. O guitarrista estava no camarim, com a maior cara de santo, como se nada tivesse acontecido. Disse que tinha assistido ao show e aproveitou para fazer uma resenha do show para Mick Fleetwood. Disse que não tinha sido “nada mal” e que “havia espaço para improvisações, mas você, Mick, poderia ter tocado muito melhor”. Mick, chocado e irado com a cara de pau do amigo, teve que demiti-lo.

Quem conhece um pouco da história do Fleetwood Mac – uma banda que, até estabelecer-se no quinteto que gravou o disco Rumours, de 1977, teve mudanças consideráveis de formação – sabe que o período em que Kirwan esteve na banda foi bastante movimentado. Contratado pela Warner após dois álbuns de blues, o Fleetwood precisava gravar discos que vendessem, fazer turnês extensas e resolver um dilema bizarro entre manter a integridade blues-hippie e ganhar (muita) grana. O rock começava a ficar bem mais melodioso e a se tornar um entretenimento bem mais rentável.

As ambições do grupo levaram às saídas dos guitarristas-fundadores Jeremy Spencer e Peter Green, ambos envolvidos com uma mescla de misticismo e LSD. Kirwan e a tecladista-cantora-compositora Christine Perfect (que se casou com o baixista John McVie e virou Christine McVie) entraram logo numa das primeiras metamorfoses do Mac. Pouco antes de sair, Green chegou a anunciar para Mick Fleetwood que “estava na música porque gostava, não pelos negócios” e “que poderia largar tudo se quisesse”. Já Spencer ainda ficaria até 1970, quando se juntaria à comunidade religiosa Meninos de Deus. Numa das missões da seita, em 1975, chegou a morar no Brasil.

Os sete discos dessa fase, que vai do estranho Then play on (1969) a Heroes are hard to find (1974), são todos memoráveis e têm várias surpresas. Em poucos deles, o Fleetwood Mac manteve a mesma formação, agregando gigueiros conhecidos do cenário britânico como Bob Welch e Bob Weston (ambos guitarristas). Eu costumo chamar esse período de fase “casa-da-sogra” do Fleetwood Mac, com gente entrando e saindo. Ou ameaçando sair após algum piti de bastidores, já que rolava muito trabalho extra para dar conta de músicos com egos enormes e apetites variados por drogas.

Para quem só conhece a fase pós-1975, já com Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, separei dez faixas do período imediatamente anterior do Fleetwood. Confira aí e ouça em alto volume.

“RATTLESNAKE SHAKE” (Then play on, 1969) – O Fleetwood Mac seguia tão à risca o conceito do “vamo tocando e a gente vê no que dá” em seus primeiros anos que, apesar de Mick Fleetwood dar nome ao grupo, era Peter Green que comandava a banda. Esse blues-rock pesadíssimo com letra sobre masturbação foi uma de suas despedidas, no último disco que gravou com o grupo.

“OH WELL” (Then play on, 1969). Lançada em single (em duas partes, já que a música tem quase nove minutos), foi incluída só na segunda edição americana de Then play on. A primeira parte era um blues rock pesado, eternamente presente nos shows de todas as formações do grupo. A segunda parte trazia muito da cara folk rock que várias canções da banda teriam nos próximos discos. Também é de Peter Green.

“JEWEL EYED JUDY” (Klin House, 1970). Sem Peter Green, com Kirwan ajudando nas guitarras e composições, o Fleetwood se tornava bem mais melodioso. Kirwan, Fleetwood e McVie, três nomões (e três grandes egos) do grupo, compuseram essa música, que poderia estar tranquilamente no lado A de Abbey Road, dos Beatles. Nessa época, o grupo iniciou um longo período em que viveu em comunidade.

“WOMAN OF 1000 YEARS” (Future games, 1971). Primeira grande composição de Kirwan para o grupo. Naquela época, a banda perdia Jeremy Spencer e passava a contar também com Bob Welch (guitarra base). Christine McVie, eterna “tecladista convidada” e mulher de John McVie, também virava oficialmente uma integrante. O lado blues sumia e o Fleetwood Mac ganhava uma cara hippie-chique, da qual não se livraria nem em seus momentos mais pop.

“SHOW ME A SMILE” (Future games, 1971). Devidamente oficializada na banda, Christine McVie começa a compor e cantar no Fleetwood Mac. Fechou o quinto disco do grupo assinando uma das mais belas baladas folk do rock setentista, de tom quase infantil. E uma das músicas mais emocionantes da segunda fase do FM.

“CHILD OF MINE” (Bare trees, 1972). Apos fases de trancos e barrancos – a turnê de Klin house quase tinha sido cancelada por causa da saída de Jeremy – o grupo parecia se estabilizar e lançava um de seus melhores discos. Kirwan predominava na lista de compositores, e abria o álbum com um aceno autoral ao glam rock e a bandas como Steppewolf.

“BRIGHT FIRE” (Penguin, 1973). A saída de Danny Kirwan provocou um colapso tão grande no Fleetwood Mac, que o grupo voltava como sexteto, com Bob Weston na guitarra base e Dave Walker (ex-Savoy Brown) nos vocais. Integrantes do grupo começavam a ter problemas familiares por causa do estresse e da vida comunitária. Bob Welch aproveitou para contribuir com uma das belas e esperançosas canções dessa fase.

“SOMEBODY” (Mystery to me, 1973). No oitavo lançamento, Welch e Christine predominavam na lista de autores. Quem conhece só o Fleetwood Mac de Rumours não vai estranhar muito esse disco, que mostra a banda migrando para um rock cada vez mais radiofônico. No meio da turnê desse álbum, Mick Fleetwood foi informado por sua mulher Jenny de que ela estava tendo um caso com ninguém menos que Bob Weston. Mais uma crise.

“HEROES ARE HARD TO FIND” (Heroes are hard to find, 1974). Fim da segunda fase do Fleetwood Mac. No fim da turnê desse disco, Bob Welch se mandava da banda e iniciava uma frutífera carreira solo, e o casal Stevie Nicks e Lindsey Buckingham entrava. Em Heroes, Christine e Welch continuavam a tomar conta das composições, e a tecladista contribuía com a boa faixa-título, já seguindo a receita rock-de-rádio que tomaria conta dos próximos discos do grupo.