Nos anos 1960 e 1970, o saudoso apresentador Flávio Cavalcanti não pensava duas vezes quando tinha que falar de um cantor que não gostava. Pegava o disco do coitado e quebrava no palco. Numa certa noite de 1986, ele não quebrou disco nenhum, mas resolveu atacar dois recentes lançamentos do rock brasileiro: a coletânea Rock grande do sul (com os novatos gaúchos TNT, DeFalla, Garotos da Rua, Replicantes e Engenheiros do Hawaii) e O rock errou, de Lobão. Por sinal, dois discos com “rock” no nome, e da mesma gravadora (RCA, hoje Sony).

“Reparem o que está por aí no mundo do rock. Uma coisa muito triste, muito triste. Um acorde bem desafinado, maestro, por favor”, pede Flávio, que por aqueles tempos era apresentador do SBT. “As epidemias de febre amarela e dengue… Uma doença mais antiga do que essas e sem cura é o rock. E a cada dia contamina todos os bobocas”, continuou, antes de ficar horrorizado com Tô de saco cheio, sucesso dos Garotos da Rua).

“O festival de bobagens passou também para capas de discos. O Lobão lançou um LP em que a prima e esposa dele aparece nua, e ele vestido de padre com um crucifixo ao contrário. E depois tem um trecho em que parece que ele quer vomitar”, apontou, antes de mostrar a balada Revanche (sucesso no rádio na época) e implicar com os “uouous” da música. “Eu não quero que ninguém concorde comigo, estou emitindo a minha opinião”, fez questão de dizer, apontando as garras para um complô de publicitários que fazia o público ouvir “aquilo”.

Flávio, que achou que Lobão estava “vomitando”, talvez se horrorizasse com outra faixa de Rock grande do Sul: Você me disse, do DeFalla, um dos melhores momentos do pós-punk nativo.

No disco, tinha também o punk sulista dos Replicantes, com A verdadeira corrida espacial.