Isso aí é o que Alice Cooper andava fazendo em 1975, pouco depois de deixar seus ex-colegas de Alice Cooper Band de lado. No mesmo ano em que lançava (ao lado do produtor Bob Ezrin) o projeto multimídia Welcome to my nightmare, o cantor interpretava o personagem principal de uma ópera-rock que, aparentemente, caiu no esquecimento. Flash Fearless Versus The Zorg Women Parts 5 & 6 saiu naquele ano pela Chrysalis e envolveu nomões do rock em todas as suas faixas.

Flash Fearless: Alice Cooper e The Who numa ópera-rock da qual ninguém lembra

John Entwistle, do The Who, tocou em todas as músicas, só para se ter uma ideia. Keith Moon, baterista da mesma banda, interpretou um pirata chamado Long John Silver e fez apenas uma participação pequena em Space pirates. O restante da turma incluiu gente como Carmine Appice (bateria), Kenny Jones (idem), Bill Bruford (também bateria), Jim Dandy (o cantor do Black Oak Arkansas), o pianista-dos-Stones-e-do-Who Nicky Hopkins, Eddie Jobson (arranjos de cordas). O álbum foi produzido por John Alcock, que cuidava dos discos solo de Entwistle (aqui, você acha muitas infos sobre esse disco).

Essa galera toda, caríssima e estreladíssima, trabalhou no estúdio da Chrysalis, em Londres. Sessões nos EUA, com produção de Bob Ezrin, foram agendadas para os trabalhos de Alice Cooper (Nova York), Jim Dandy (Memphis) e Keith Moon (Los Angeles). O disco foi composto em grande parte por dois músicos canadenses, Dave Pierce e Steve Hammond. O objetivo de Flash Fearless era recriar os musicais dos anos 1930 e o clima das histórias de Flash Gordon com toques de modernidade, incluindo na receita o rock e as histórias em quadrinhos. O LP original veio com a versão HQ da ópera, com textos de Pierce. E um libreto explicando detalhadamente quem era quem.

Flash Fearless: Alice Cooper e The Who numa ópera-rock da qual ninguém lembra Flash Fearless: Alice Cooper e The Who numa ópera-rock da qual ninguém lembra

“Uma ópera-rock sequelada que ninguém nunca ouviu falar, reunindo Alice Cooper e Keith Moon… Isso aí deve ter sido uma doideira sem limites”, você deve estar pensando. Foi sim uma descaralhação daquelas, segundo o próprio John Entwistle. “Basicamente vi no disco uma excelente oportunidade de tocar baixo funky ao lado de um monte de outros músicos enquanto ficava doidão”, disse sem meias palavras. “A Chrysalis gastou uma montoeira de grana em bebida. Só eu bebi oito dezenas de garrafas de vinho”.

Essas eram as duas faixas de Alice no disco, Space pirates e I’m flash. Na primeira, Keith Moon aparece fazendo os tais vocais como o pirata Long John Silver.

Flash Fearless vendeu tão pouco que Entwistle só soube do lançamento do disco ao ser abordado por um fã com uma cópia do álbum, em busca de um autógrafo. Evidentemente, os planos da Chrysalis para um musical de palco foram abortados. Só em março de 1981, Hammond e Pierce conseguiram levar a história, com o nome mudado para Captain Crash Versus The Zzorgwomen Caps 5 e 6, para o Richmond’s, no Santa Monica Boulevard, em Los Angeles. A lista de músicas virou quase o dobro do disco original.

Fizeram uma playlist com quase todo o disco no YouTube.

Pera, tem um vídeo do Dailymotion com todo o disco.

Se Entiwistle mal soube do lançamento do disco na época, Alice Cooper pouco se referiu a Flash Fearless. Em 2004, num papo com a Rock Pages, Cooper foi perguntado sobre o álbum e disse que se tratava de um disco “obscuro” e que “alguém chegou até nós e nos disse que estávamos fazendo Flash Gordon”. Também disse que o disco nunca tinha sido relançado em CD – mas foi sim, em 1995, com faixas bônus, pelo selo RPM Records. Nos anos 1990, Cooper quis correr atrás dos fonogramas do disco para colocá-los num box set. A equipe do cantor entrou em contato com a empresa que soltou o LP e ouviu deles que o disco nunca existiu (!).

Aliás, segundo o Discogs, Flash Fearless saiu até no Brasil. O site não tem fotos mais detalhadas desse disco.