Existiu uma banda chamada “Mangueira de Cinquenta Metros”. Se você não dá nada por um grupo com um nome aleatório desses, saiba que o Fifty Foot Hose é uma das bandas mais bizarras que você vai escutar na vida. E está escondidinha nos sistemas de streaming com uma edição – repleta de faixas bônus – de seu disco de 1967, Cauldron.

Comparada às outras bandas da psicodelia da época, o FFH – que veio de San Francisco, na Califórnia – era uma barra bem mais pesada. A começar porque eram uma das raras bandas da época a fazer misturas rudimentares de rock lisérgico e música eletrônica.

O grupo de baixista Louis “Cork” Marcheschi (baixo e traquitanas eletrônicas), David Blossom (guitarra), Nancy Blossom (voz), Kim Kimsey (bateria) e Larry Evans (guitarra) abriu shows de bandas como Blue Cheer e Fairport Convention. Mas se tornou mais famoso por invenções de Cork como a aparelhagem que unia theremins, fuzz boxes, um tubo de papelão e um alto-falante de bombardeiro da Segunda Guerra (!). Olha a foto aí.

Para aumentar a estranheza, Cork ainda usava em seus instrumentos objetos que nada tinham a ver com música eletrônica e experimentalismos, como rolimãs e bolinhas de gude. Foi nessa que Cauldron, o primeiro disco, foi gravado e lançado. E encontrou uma reação bem bizarra da parte dos (poucos) compradores que arriscaram uma escutada.

“O conceito do disco era o de expandir a música popular contemporânea. Eu achava que a vanguarda poderia se dado bem com esse novo grupo de ouvintes, mas eles se mostraram bastante conservadores, intelectualmente. Eles encaravam bem as drogas, o sexo, mas quando desafiados pela arte abstrata, reagiram como pessoas conservadoras olhando para uma pintura de Jackson Pollock”, contou Cork nesse papo aqui.

Pouco antes do FFH ser formado, Cork e David Blossom tiveram uma banda chamada The Ethix, que era mais estranha ainda. O grupo só gravou um single, com a música Bad trip – uma verdadeira gritaria, com guitarras apitando no último volume. Alguém fez um videozinho pirata com a música.

Cauldron, o disco do FFH, foi lançado por um selo chamado Limelight – era uma subsidiária da Mercury que lançava álbuns de jazz e música de vanguarda, e que chegou a ter Quincy Jones entre seus diretores. O álbum não foi nem um pouco compreendido e vendeu pouco. Num dos shows do grupo, dado numa escola feminina católica, Cork lembra da plateia em silêncio, assustada com o fato da vocalista Nancy, que era mulher de David, se apresentar grávida. Até que um grupo de garotas da plateia ficou bastante animado e decidiu tirar toda a roupa em público.

O Fifty Foot Hose terminou em 1969, quando boa parte de seus músicos foi tocar no musical Hair. Protagonista do musical em San Francisco, Nancy virou cantora de musicais. Marcheschi virou escultor (site dele aqui), com várias instalações usando espaços públicos. No vídeo abaixo, Clear light, um trabalho de vanguarda feito por ele em 1969.

Outra obra de Cork.

Nos anos 1990, o disco do FFH foi relançado em CD e Cork animou-se para retomar o grupo com vários amigos. Em 1997 saiu um disco novo de estúdio, Sing like Scaffold, gravado ao lado de Walter Funk III, Reid Johnston (eletrônicos), Lenny Bove (baixo), Elizabeth Perry (vocal) e Dean Cook (bateria).