Na Inglaterra e nos Estados Unidos, o rock sempre ocupa uma parcela importante do que se entende por cultura pop. Os músicos, de modo geral, sabem disso e não se furtam a ocupar espaços que são deles – em muitos casos, sem muitos dilemas. Olha aí ninguém menos que Roy Wood e o saudoso Kelly Groucutt, historicamente ligados à queridíssima Electric Light Orchestra, aparecendo (em 1999) num dos mais cômicos programas de cozinha da TV britânica, o Can’t cook, won’t cook.

A premissa do programa era bastante simples: reuniam-se dois “cozinheiros” amadores, um com conhecimento zero de cozinha, o outro sem a menor disposição para as panelas. E geralmente ao lado de algum parente ou amigo, que participava das entrevistas e servia de testemunha. No caso, Kelly e Roy iam com suas filhas adolescentes e ficavam ali um bom tempo servindo de chacota, sem saber como quebrar ovos, misturar massas e fazer coisas simples na cozinha.

Os dois também responderam perguntas sobre seus trabalhos. O programa teve diversos apresentadores ao longo do tempo (que se dividiam entre outra atração, Ready steady cook), mas era mais identificado com o chef Ainsley Harriott. Naquela ocasião, estava sob o comando de Kevin Woodford. Kevin se deu tão bem à frente do programa, que ganhou um National Television Award de melhor apresentador.

O programa abre com Kevin lembrando que em 1967, Roy tinha sido “o responsável” por Flowers in the rain, bela pérola psicodélica de sua primeira banda de sucesso, The Move. “Se você estava ouvindo a Radio One em 1967, você ouviu essa música!”, adverte. Flowers foi a canção escolhida para inaugurar a emissora de rádio da BBC naquele ano.

Na sequência, a entrada de Kelly tem Mr Blue Sky, hit da ELO de 1978, no BG.

A ida de Roy e Kelly ao programa, digamos assim, poderia ter rendido muito choro e crises de ego. Simplesmente porque os dois músicos tiveram situações de protagonismo na mesma banda, em períodos diferentes. Sendo que Groucutt passou pela formação mais popular do grupo, que vendeu mais discos e rendeu hits. Wood tinha criado a Electric Light Orchestra em 1970 junto com o cantor e guitarrista Jeff Lynne, aproveitando todo mundo da última formação da The Move. A ideia do músico era criar uma banda em que instrumentos de orquestra tivessem tanto peso sonoro quanto os usuais de uma formação de rock.

Electric Light Orchestra vs. Electric Light Orchestra: Roy Wood e Kelly Groucutt num reality show gastronômico

Levando em conta o cenário do rock da época (na finaleira da psicodelia e no começo do progressivo) não era uma ideia absurda. O Pink Floyd venderia milhões de discos com Atom heart mother, em 1970, disco cuja faixa-título ocupava todo o lado A e usava uma orquestra inteira, além de um coro de 16 vozes. Já a ELO trazia, além de violinistas, violoncelistas e trompetistas, o próprio Roy Wood dividindo-se entre vocais, baixo, guitarra, cello e oboé (!). Olha aí o promo (era assim que se chamavam os clipes, antigamente) do primeiro single deles, 10538 Overture, de 1971.

Wood queria que o grupo seguisse uma linha mais clássica. Já Lynne queria que a banda passasse a vender mais discos e fosse para um lado mais pop. Entre egos imensos e disputas de poder – especialmente após uma turnê em que o som dos instrumentos clássicos foi totalmente abafado – Roy deixou o grupo em 1972 e foi fazer glam-jazz-rock orquestral com o Wizzard. Esse aí é o primeiro grande hit deles, See my baby jive. Sim, todos apareciam na TV maquiados e fantasiados de bruxos. Os integrantes do ABBA declararam várias vezes que a inspiração do hit Waterloo veio dessa canção do Wizzard.

Groucutt entrou na banda em 1975, quando o ELO passou a liderar as paradas também nos Estados Unidos e ganhou sua formação clássica. Ganhou papel de destaque no grupo a ponto de cantar algumas músicas sozinho. Enquanto a Electric Light Orchestra passou a liderar as paradas, Wood – que gravou dois belíssimos discos solo de soft rock nos anos 1970, Boulders (1973) e Mustard (1975), além de uma série de singles até os anos 1980 – envolvia-se com projetos como a banda de jazz-rock Wizzo Band, e um disco de Bo Diddley em que atuou como baixista, em 1973. Foi desaparecendo gradualmente do mercado pop e ganhando fama de “difícil”. O The Guardian publicou em 2016 um excelente perfil de Wood, por sinal. Se você nunca ouviu nada solo de Wood, tente esse hit de 1975, que é uma das músicas mais belas que eu já ouvi na vida.

Ao contrário do que poderia parecer, o encontro entre o carismático Kelly e o tímido Roy no palco da BBC foi gentil e cordial, com os dois acompanhados pelas filhas e dividindo suas inabilidades e habilidades na cozinha. Kelly, que por aqueles tempos era co-líder da chamada ELO Part II (sem Jeff Lynne e com o baterista e fundador Bev Bevan arregimentando a turma), foi até reverente ao colega, fazendo questão de falar que a banda sempre “foi muito inovadora e Roy foi de fato o fundador do grupo, e o nome partiu dele”. Veja aí e mate as saudades do sumido Roy – que ultimamente tem se dedicado a shows com uma all-star band repleta de convidados – e do saudoso Kelly, morto em 2009 de ataque cardíaco.