Não haveria pós-punk e rock moderno sem que tivesse existido um produtor alemão chamado Conny Plank, morto aos 47 anos em 1987. E que ganha esse mês um documentário examinando seu legado. Conny Plank: The potential of noise tem direção de Reto Caduff e Stephan Plank (filho de Conny). E ganha exibições – por enquanto apenas na Europa – entre agosto e setembro.

Olha o trailer aí. Na abertura, um som produzido por Plank, sem o qual o U2 de Boy (1980) não teria existido: Hero, da banda alemã Neu, lançada cinco anos antes.

Ex-engenheiro de som de Marlene Dietrich e do compositor de vanguarda Dieter Moebius, ele foi um dos principais sujeitos por trás do krautrock, o rock alemão dos anos 1960 e 1970 que serviu como uma ponte entre progressivismos, pré-punk e experimentalismos de estúdio. Conny cuidou do som dos primeiros discos do Kraftwerk, quando a banda ainda usava guitarras, tinha cabelões e barbas e fazia um som bem mais próximo do “rock psicodélico” do que da eletrônica que faria a seguir.

O produtor já era velho conhecido da dupla Ralf Hutter e Florian Schneider, que criou o Kraftwerk. Tinha produzido até o disco do Organisation, embrião do grupo alemão que tinha os dois no line-up – Tone Float, disco do Organisation, saiu em 1969 e vendeu pouco. Nesse mesmo ano, cuidou do primeiro disco do bizarríssimo grupo experimental alemão Kluster, Klopfzeichen, que tinha apenas duas longas faixas e adiantava em alguns anos o som do próprio Kraftwerk. Você conhece os dois discos aí embaixo.

A biografia Kraftwerk: Publikation, de David Buckley, dá conta de que a relação entre Ralf & Florian e Conny terminou mal. O grupo gravou o clássico Autobahn (1974) com Conny no estúdio. O grupo ofereceu um cheque de 5 mil marcos alemães para Plank, que reclamou ter sido responsável por “pelo menos 30, 40, 50% de todo o trabalho” e ter feito a produção, apesar de ter sido creditado apenas como “engenheiro de som”. “Foi a primeira vez que Conny constituiu um advogado na vida”, conta Wolfgang Flur, outro integrante da banda, garantindo que o produtor foi responsável até por ruídos e efeitos no disco.

Plank foi influência em várias produções pós-anos 1970, incluindo a fase Berlim de David Bowie e os discos do U2 que tiveram produção de Brian Eno e Steve Lillywhite. Arranjos de músicas como Heroes, de Bowie, e produções de discos como The Joshua tree (1987) e Achtung baby (1992), do grupo de Bono Vox, não seriam os mesmos sem esse alemão corpulento e quase obsessivo na maneira como encarava música.

Plank também pegou para criar bandas como Ultravox, Killing Joke e Eurythmics. O disco de estreia da dupla de Annie Lennox e Dave Stewart, In the garden (1980), foi feito no estúdio de Conny em Colônia, por intermédio de várias horas de gravação dadas de presente pelo produtor, que adorava a dupla. Plank ainda chamou sua turma para participar do álbum, e que turma: Holger Czukay (Can) e Markus Stockhausen, filho do experimentalista Karlheinz Stockhausen, gravaram metais em várias músicas.

Por acaso, um disco que teve impacto em toda essa turma também deixou Conny maluco: The Velvet Underground and Nico, de 1967. “Quando recebi o disco da banana, fomos imediatamente influenciados por isso. Vimos que era uma abordagem nova. O Velvet não ligava para a beleza do som, queria só procurar o sentimento básico de uma situação real”, disse Conny em 1987.

Fumante inveterado, Conny morreu em dezembro de 1987, de câncer de laringe. Na época, vinha trabalhando novamente com Dieter Moebius e também estava trabalhando na gravação de shows dos Eurythmics. Pouco antes da morte, envolveu-se numa controvérsia com o U2, quando Brian Eno sugeriu Plank para a produção do disco The Joshua tree – e o alemão recusou, dizendo que não gostava de Bono. Tinha feito algo parecido com David Bowie alguns anos antes.

Uma curiosidade sobre o antigo estúdio de Plank é que sua mesa de 56 canais, projetada por ele, já foi instalada em vários estúdios. Recentemente foi usada até em discos do Hot Chip e do Franz Ferdinand.

E é isso. Se estiver com o alemão em dia, curta essa reportagem do canal WDR sobre Conny e o documentário.

Com infos de emusician e The Wire.