Em 1981, Chico Anysio foi a Nova York fazer um show no Carnegie Hall. Aproveitou para fazer uma espécie de minidocumentário de mentira apresentando a metrópole como se fosse sua terra natal, Maranguape, no Ceará. No fundo musical, New York, New York, em versão em português com o nome de Maranguape, Maranguape, cantada por Cauby Peixoto (!).

Chico mostrou as antigas Torres Gêmeas como se fossem “dois sobrados, antigamente chamados de Cosme e Damião e hoje chamados de Delfim e Inflação. São os mais altos do Nordeste. Um deles é o diretório da ARENA (partido do golpe militar de 1964). O outro é o diretório da ARENA 2”. Chamou a Estátua da Liberdade do “Estátua do Quem me Dera” e disse que ela era “um grande orgulho, toda feita em cimento armado vindo da Paraíba”. Também mostrou os inúmeros filmes e musicais em cartaz (coisas como A Chorus Line e Amadeus) e disse que lá não havia muito o que fazer em matéria de diversão, “mas que sempre se pode encontrar alguns cinemas e teatros”. Sem legendas ou falas: a câmera focalizou também o anúncio da peça peladona Oh Calcuta! e os de vários shows burlescos.

Esse especial foi exibido pela Globo em 2 de novembro de 1981 numa Sexta Super (faixa de shows exibida às sextas). Trouxe o tal show de Chico no Carnegie Hall, além das zoações comparando a megalópole com a cidade cearense. E tem história, contada pelo próprio Chico na biografia Sou Francisco (1992).

“Meu filho Lug estudava em Nova York, na Long Island University, e isso me fazia ir muito aos Estados Unidos. Em 81, por exemplo, fui quatro vezes à América para visitá-lo. Numa dessas visitas um amigo meu, Shia, que hoje mora em Miami, acenou-me com a possibilidade de fazer um show para brasileiros no Carnegie Hall.

– Será que isso dá certo, Shia?
– São mais de duzentos mil brasileiros que moram entre Nova York e Nova Jersey. Vamos lotar a casa.

Achei tentador e concordei. Ele começou a trabalhar. Conseguiu uma vaga na pauta do Carnegie Hall para setembro (sic). Conversei com o Boni e ele sugeriu que o Chico Total de setembro (sic) fosse a apresentação do Carnegie Hall. Concordei. Eu economizava uma ideia e ganhava mais dias para ficar por lá, pela desnecessidade daqueles sete dias de gravação aqui.

(…)

Como o show seria gravado para ir ao ar no Brasil, tive que fazer dois em vez de um. Naquele ano (1981) o palavrão já estava liberado no teatro. A censura fechara tanto a parte política que, para compensar, abriu o direito ao palavrão. Já havia muitos no meu show. Não poderia ser exibido pela TV. Decorei novamente um show antigo (sem palavrão nenhum) e o ensaiei, com a parte musical gravada. Foi como se o meu show tivesse duas partes: a primeira, o show antigo, e a segunda, o show atual. Na primeira parte (gravada para a TV), entrei em cena de smoking. Na segunda parte (apenas para a platéia), entrei de jeans, jaqueta, informal.

(…)

A Globo ajudou muito no show do Carnegie Hall. Foi ela quem pagou o cenário (todo espelhado) e as passagens. Meus técnicos não puderam ir. O consulado americano negou-lhes o visa e resolvi o problema levando o Nizo, meu filho. Lug operou o gravador e Nizo (que conhecia de cor o espetáculo atual) ficou ao lado do técnico americano dando as ordens de go e stop para cada mudança de luz. Aquela organização exagerada dos americanos me irrita um pouco. Talvez seja o hábito da nossa esculhambação. O fato é que acho um pouco demais o excesso de ‘não pode’ dos americanos.

A firma de videoteipe que a Globo contratou para a gravação do show chegou à porta do Carnegie Hall às 7:45h e ficou esperando. O aluguel da casa começava às oito. Às oito em ponto a porta se abriu. Os técnicos da gravadora entregaram os fios aos homens do Carnegie Hall e eles os levaram, junto com o equipamento, para o teatro. Ninguém da gravadora podia entrar no teatro, com exceção dos cameramen.

Ficaram todos dentro do caminhão, na rua, junto com o Zelito, o Eduardo Sidney e o Walter Lacet, que a Globo mandara para cortar. Só que o Lacet não podia tocar nas teclas do equipamento; isso teria que ser feito por um americano. Lacet, como o Nizo, ficou com seu serviço restrito ao one, two e three, dependendo da câmera que ele quisesse colocar no ar.

Apesar desta organização toda, a gravação ficou ótima, os dois espetáculos saíram maravilhosos e achei muito engraçado o câmera americano que morria de rir sem entender coisa alguma”
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Via João Antonio Franz (inclusive a reprodução do trecho do livro acima).