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Cat Power: disco ao vivo recria show em que Bob Dylan foi chamado de “Judas” por fãs de música folk

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Cat Power: disco ao vivo recria show em que Bob Dylan foi chamado de "Judas" por fãs de música folk

Cat Power, no ano passado, fez um show em homenagem à apresentação que Bob Dylan deu em Manchester em 1966 quando fazia uma mudança do som acústico para o elétrico. Por causa de um lançamento em disco pirata com título errado (aliás um dos primeiros bootlegs de todo os tempos), o show de Dylan passou para a história como tendo sido dado no Royal Albert Hall. A cantora decidiu regravar o repertório do show de Dylan em Manchester em disco, mas manteve o título histórico, e em 10 de novembro sai Cat Power sings Dylan: The 1966 Royal Albert Hall Concert, pela Domino Recordings. Um single duplo com She belongs to me e Ballad of a thin man já está disponível.

A história do show de Bob Dylan no “Royal Albert Hall” (entre aspas) é bastante conhecida. Em 17 de maio de 1966, um dia após lançar o álbum duplo Blonde on blonde, ele subiu ao palco do Free Trade Hall, em Manchester, Inglaterra. Seria a décima-primeira data de sua turnê mundial daquele ano, notória por, pela primeira vez, trazer Dylan acompanhado de uma banda “elétrica”, o The Hawks, que tinha nomes como Robbie Robertson (guitarra elétrica) e Rick Danko (baixo) e, depois, se tornaria The Band. Um naco dessa turnê foi filmado pelo diretor DA Pennebaker e se tornou um documentário pouco conhecido sobre Dylan, Eat the document (do qual falamos aqui).

A turnê já estava rolando e chocando uma turma bem grande, que apostava altíssimo na “legitimidade” folk de Dylan, numa época em que o rock virava-se para a psicodelia rapidamente. A comunidade folk se sentia atingida pelas guitarras elétricas da turma de Dylan, ainda que Blonde on blonde, um dos melhores discos do mundo, fosse um mergulho no country e na poética do próprio folk. Publicações como a Melody Maker também já não estavam gostando muito na nova fase de Dylan, acusando o cantor de tentar se parecer “com Mick Jagger”. Em Liverpool, no dia 14 de maio, um sujeito chegou a berrar “o que aconteceu com sua consciência?” para Dylan. O cantor sempre respondia aos insultos, aliás quase sempre na mesma altura (numa ocasião, chegou a dizer, em meio a vaias, “não se preocupem, estou tão ansioso para acabar logo quanto vocês”).

O bendito dia 17 de maio, em Manchester, é geralmente tido como o fundo do poço: foi quando um cara berrou “Judas!” para Dylan entre as músicas Ballad of a thin man e Like a rollin’ stone. A plateia pareceu gostar do que ele fez e riu, como aliás às vezes acontecia – em um show posterior, na Escócia, houve gente sacando gaitas do bolso para abafar o show do cantor.

Em Manchester, Dylan não foi tão direto quanto seria em outros momentos – na real, parecia entediado e aparentava não acreditar que aquilo estava acontecendo. Respondeu “não acredito em você… você é um mentiroso” e ordenou que a banda tocasse mais alto (“play fucking loud!”, berrou). Foi prontamente atendido. Olha aí.

O som dessa noite chegou a público primeiro no famigerado LP bootleg de Dylan, mas anos depois saiu até uma inacreditável caixa de 36 CDs (The 1966 live recordings) com todos os shows do giro gravados. Cat, por sua vez,  recria o show de Manchester, mantendo até mesmo uma parte acústica e outra elétrica, fazendo sua versão particular do que aconteceu naquela noite. Ao lado dela no momento mais ruidoso do show, o guitarrista Arsun Sorrenti, o baixista Erik Paparozzi, os multi-instrumentistas Aaron Embry (harmônica, piano) e Jordan Summers (órgão, Wurlitzer) e o baterista Josh Adams. A produção do disco foi feita por Andrew Slater ao lado de Cat.

“Eu tinha e ainda tenho muito respeito pelo homem que criou tantas músicas que ajudaram a desenvolver o pensamento consciente em milhões de pessoas, ajudaram a moldar a maneira como elas veem o mundo”, diz Chan Marshall, a popular Cat Power. “Então, mesmo que minhas mãos estivessem tremendo tanto que eu tive que mantê-las nos bolsos, eu senti uma dignidade real por mim mesma. Pareceu uma verdadeira honra para mim estar ali”.

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Relembrando: Nile Rodgers, “Adventures in the land of the good groove” (1983)

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Relembrando: Nile Rodgers, "Adventures in the land of the good groove" (1983)

Nile Rodgers vivia uma espécie de estresse pós-traumático no começo dos anos 1980. O ex-guitarrista do Chic, um dos maiores gênios musicais que o planeta Terra conhece, tinha sido quase cuspido para fora do mainstream por causa do preconceito com a música dançante e com a disco music, no fim dos 1970. Um alegado desvio ultra-comercial da música feita para dançar, além de um evento-bizarrice chamado Disco Demolition Night (em que LPs de disco e de black music foram quebrados pelo público, numa ação que o próprio Nile compararia à queima de livros pelos nazistas) aumentaram mais ainda esse isolamento.

  • Temos episódio de podcast sobre a fase 1980-1983 de David Bowie.
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Em meio ao fim do Chic, ao excesso de drogas e à desilusão com o mercado fonográfico, Nile simplesmente desistiu de fazer hits. Ou esqueceu como se fazia, pelo menos por uns tempos. Começou a produzir outros artistas (fez Koo koo, estreia solo de Debbie Harry, do Blondie, lançada em 1981, que fez sucesso moderado) e reuniu material para seu primeiro voo solo, lançado logo após às ultimas investidas do Chic. Ainda sem ter certeza de que a estreia seria um sucesso de verdade.

Adventures in the land of the good groove, estreia solo de Nile Rodgers (11 de março de 1983) não estourou. Azar de quem não deu atenção para a estreia do músico, um disco com oito módulos dançantes, sem refrãos fáceis, primo da house music e até do jazz. Na época, fez sucesso com a crítica – Nile já estava escalado para produzir Let’s dance, de David Bowie (1983) e a revista Smash Hits chegou a afirmar que “se o disco de David tiver metade da qualidade, será excelente”.

Acaba servindo como um elo nada perdido entre a fase do Chic e as produções que Nile fez para Bowie e Madonna, em faixas como a afro-latina The land of the good groove, o pré-rap safado Yum yum (“dormi com as mãos sobre ele/me dê um pouco desse yum-yum antes de dormir nesta noite”), o funk-rock dançante de Beet (provavelmente a música do álbum que mais impressionou Bowie, já que realmente tem muito do groove do álbum Let’s dance) e Rock bottom.

Nile, em sua autobiografia Le freak, queixava-se (com toda razão) de que artistas brancos fazendo balanço invadiam as paradas de pop e r&b. Escreveu também, complementando, que negros que faziam sons dançantes ficavam restritos à parada de r&b (se fizessem misturas com new wave e rock em geral, perdiam mais terreno ainda). Adventures, heroicamente, era o disco que repatriava sons que Nile e seu parceiro Bernard Edwards haviam criado no Chic – e que haviam sido chupados por uma turma que incluía Queen, Blondie e uma galera enorme.

O design sonoro de Get her crazy, por exemplo, era análogo ao de Another one bites the dust, do Queen. Most down e It’s all in your hands eram o que o álbum entregava para quem era fã de David Bowie – mas Bowie foi outro que ficou de olho na música dançante dos anos 1970 e pôs tudo em seus discos, do seu jeito. Era o jeito do próprio Nile trazer de volta o que sua própria turma havia criado, e que estava “nas mãos” dos músicos para os quais frequentar as paradas de rock e new wave era rotina frequente. Tinha ainda a balada romântica My love song for you, uma das canções mais prototípicas do álbum.

Nile, que já tinha uma carteira considerável de hits com o Chic, conseguiu mais sucesso como produtor (e ajudou a fazer hits!) e como criador de trilhas sonoras do que como artista solo. Adventures e o segundo álbum, B movie matinée (1985) não venderam muito. O músico fez Madonna estourar com o álbum Like a virgin (1984), uniu-se a Bill Laswell para ajudar a bombar o primeiro disco solo de Mick Jagger (She’s the boss, 1985). Fez várias outras colaborações e produções, e até lançou em seu selo Sumthing Else trilhas para games (em DVD, o que era uma novidade para o mercado). Hoje mantém uma versão nova do Chic, que já veio até no Rock In Rio, em 2017.

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Relembrando: Julian Cope, “Saint Julian” (1987)

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O cantor e compositor galês Julian Cope costuma ser mais lembrado como o músico genioso que brigou com um (ex) amigo, Ian McCulloch, e o expulsou de sua banda, A Shallow Madness. Com outra formação (e sob a liderança de Cope), essa banda se transformou no Teardrop Explodes, grande grupo da região de Liverpool, cidade para onde Cope migrara. Ian, por sua vez, talvez estivesse em condições de mandar um “valeu, parceiro, é isso aí” para o ex-amigo (e o resto da história de Ian, você talvez já saiba – se não sabe, temos um podcast a respeito).

  • Temos um episódio do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, também sobre o Teardrop Explodes.
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Julian, como líder de banda, nunca foi um sujeito fácil: vivia doidão, tinha fama de tirano, sempre foi dado a ranços e rancores de morte. “Costumo fazer as entrevistas porque eu sou o único que realmente tem algo a dizer”, chegou a falar sobre seus colegas de Teardrop Explodes.

O grupo durou apenas até 1983. Após o fim, Cope precisou de um tempo para se livrar dos excessos (numa época em que muita gente já achava que ele tinha virado um Syd Barrett do pós-punk) e embarcou numa ótima carreira solo, que demorou alguns anos para fazer sucesso de verdade. Saint Julian, o primeiro álbum de Cope que muita gente escutou (lançado em 2 de março de 1987) já era seu terceiro álbum.

Saint Julian é mais conhecido por duas canções bem populares, Trampolene e World shut your mouth (mesmo nome do primeiro LP solo dele, de 1984, mas a música só saiu no terceiro álbum). O disco veio de um verdadeiro bombril que Julian topou passar em sua carreira: assinou com a Island, cortou o cabelo, adotou uma imagem mais positiva de rockstar, vestiu-se de couro da cabeça aos pés e passou a gravar canções com arranjos mais “épicos”.

O lado mais dark do seu trabalho anterior estava lá ainda, mas sob a forma de verdadeiros hinos, como Shot down, Saint JulianEve’s volcano e outros. Além de pelo menos um clássico punk-psicodélico, Pulsar. E de uma canção de oito minutos, arrastada e sombria, e de teor quase medieval: A crack in the clouds. Já Screaming secrets é uma das faixas mais associáveis ao Teardrop Explodes, com toda a carga dramática da ex-banda de Cope na letra (“preciso questionar/todas essas coisas que são bons conselhos”).

O disco também representava uma volta às origens: Julian estava encantado novamente com o lugar na Inglaterra onde passara a infância (Tamworth, uma cidade de 74.272 habitantes) e incluíra a bandeira da localidade até mesmo no logotipo do LP, publicado no encarte. Enxergava ligações até mesmo entre o design da bandeira e a criação do famoso microfone “de três andares”, com apoios para o pé, que Cope vinha usando nas turnês desde 1986.

Numa entrevista da época (lançada num single que foi incluído em algumas edições do disco), Julian admitia que Saint Julian apostava suas fichas no vermelho e no preto simultaneamente. Interessado em temas como paganismo e ocultismo – e portador da pecha de “guru do ácido” da geração pós-punk – Cope atraía um rebanho de freaks que chegava a peregrinar até sua casa.

Ao mesmo tempo, o cantor zoava o culto aos astros, e o que chamava de “me siga, vou liderar você”, ou “agitar bandeiras” (talvez uma referência cruel ao bandeirão branco que Bono, do U2, agitava no palco na época da turnê do disco War). “Nunca nem me ocorreu que eu teria que falar com pessoas. Eu era um grande fã de John Cale, fui vê-lo em Birmingham, e nunca me passou pela cabeça a ideia de dizer um ‘olá, como vai?’ a ele”, brincou.

A carreira de Julian Cope ainda teria altos e baixos imediatos logo após Saint Julian – um disco do qual (incrivelmente!) ele já declarou não ser muito fã. Seu contrato com a Island prosseguiria com o bom My nation underground (1988), mas sofreu abalos quando ele resolveu gravar um disco quase pirata dentro da gravadora, Skellington (lançado só em 1989). Cope vem lançando discos até hoje, equilibrando-se entre psicodelia, pós-punk e até folk pagão, e divide seu tempo com a carreira de escritor – tendo lançado livros importantes como Krautrocksampler, com a história (resumida) do rock experimental alemão. E tem que ser mais ouvido.

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No nosso podcast, Prince na fase 1982-1986, incluindo “Purple rain”

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A partir de 1982, com o disco 1999, Prince redefiniu os parâmetros da palavra “revolução” em música. Se você ainda não conhecia Prince, estava obrigado a prestar atenção nele. Você iria acabar notando aquele gênio musical que compunha praticamente tudo sozinho, produzia seus próprios discos, tocava todos os instrumentos (mas liderava uma turma bem legal no palco, a banda The Revolution), apresentava hits como When doves cry, 1999, Little red corvette, Raspberry beret. E ainda migraria para o cinema, com o megasucesso da tela Purple rain.

Prince era pop. Mas apesar disso – e talvez por causa disso – incomodava. Era um músico preto liderando uma banda, era um cara de visual andrógino atuando nos conservadores anos 1980, foi o autor de músicas extremamente ativas sexualmente, foi o compositor que deixou uma turma indignada com o conteúdo de suas letras. E no segundo episódio da temporada 2024 do nosso podcast Pop Fantasma Documento, a gente viaja na fase 1982-1986 de Prince – aquele período em que o título de “rei do pop” concedido a Michael Jackson ficou severamente ameaçado.

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Black Pumas e Yoùn.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas!

Arte: Aline Haluch em cima da capa de Parade.

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