Os diretores britânicos Annabel Jankel e Rocky Morton tocavam no fim dos anos 1970 a produtora Cucumber Studio. Foi de lá que saíram clipes como The enemy within, do Rush, Blind, dos Talking Heads e três do Tom Tom Club (Genius of love, Pleasure of love e Don’t say no). Parte da, digamos, assinatura da dupla vinha dos efeitos especiais e das animações computadorizadas (novidade na época) que tomavam conta da tela. E das historinhas que os vídeos contavam. Era a new wave chegando na linguagem de clipes. Olha o do Rush aí.

Abaixo, você confere Jools Holland apresentando o clipe (todo feito em computação gráfica) de Pleasure of love, do Tom Tom Club, no programa The Tube.

E essa aí é a animação new wavíssima que a dupla fez para Accidents will happen, de Elvis Costello.

Deu trabalho: num papo com o programa de TV Night flightestá no site deles – Annabel disse que fez filmagens de 35 milímetros de Elvis e dos músicos Steve Nieve (teclados), Bruce Thomas (baixo) e Pete Thomas (bateria). Depois, passaram tudo para uma técnica de rotoscópio que ela e Morton tinham desenvolvido para o vídeo. Todo o material foi digitalizado e programado para se mover rapidamente na tela. Essa é a primeira parte do clipe.

Depois aparecem uma série de “acidentes”, feitos numa estética bem pop-art: aparece uma xícara de chá caindo no chão, a torradeira deixando queimar um pedaço de torrada etc. Do meio pro final, o clipe vira uma espécie de coleção de imagens aleatórias – era típico da criação de clipes nos anos 1980. Rolam animações mais “formais” e menos new wave, um monte de imagens divididas em quadros espalhados pela tela, etc.

No final, surge uma sequência curta de imagens de Costello sendo produzidas num computador. “É um vetor de leitura projetada por computador com a imagem de Elvis, filmado com um Bolex de 16mm. Foi feito num monitor do departamento de Arquitetura numa grande universidade em Londres. Eles eram os únicos que tinham a tecnologia na época. Era uma interpretação de computador, ou renderização, de uma composição gráfica”, contou Annabel ao Night flight, dizendo que se inspirou nas linhas e no design do pintor neerlandês Piet Mondrian (1872-1944).

Por trás do clipe de "Accidents will happen", de Elvis CostelloO vídeo de Accidents will happen é tido como um dos marcos da história do clipe. Chegou a fazer parte de uma mostra do MoMA, de clipes históricos, em 2003. Imagens do vídeo chegaram a aparecer na capa da versão britânica do single da música (olha aí do lado).

A música tinha sido composta por Elvis Costello durante a turnê de 1978, quando a banda passava por Phoenix (Arizona). A letra, de acordo com o próprio Costello em sua autobiografia Unfaithful music & disappearing ink, fala sobre “um namorado que trai sua parceira e está lutando para falar a verdade e encarar as consequências” (os tais “acidentes” do título são as puladas de cerca do safadão). Era uma situação que – rapaz! – Elvis vivia em sua vida real, já que, mesmo casado, estava mantendo um caso com… adivinha quem? A modelo Bebe Buell, pouco depois de ela terminar com Todd Rundgren. Foi barra pesada para Bebe. Mesmo mais do que escolada em relacionamentos extraoficiais (com Iggy Pop, Jimmy Page, David Bowie, Steve Tyler…) ela se apaixonou de verdade por Elvis.

Na época em que foi composta, Accidents era só uma canção de voz e piano, com Elvis acompanhado do tecladista dos Attractions, Steve Nieve. Sua primeira execução rolou em 4 de junho de 1978, em show no Hollywood High School. Essa versão foi incluída num EP grátis que saiu nas primeiras cópias do disco Armed forces, que tinha a canção. Olha aí.

E olha Elvis apresentando a canção no Top Of The Pops.